ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


Hana e Mel    

Haja pão, eu falava para o Goto quando ele saía da padaria com a sacola repleta, e ele dizia que não via com bom olhos minhas brincadeiras, eu retrucava que ele só enxergava as coisas apertadinhas, pois seus olhos estavam quase fechados. E a mulher do Goto, a Sachiko, que me ensinou a fazer tsuru, esses passarinhos com santinhos de políticos em época de eleição, vinha sempre ver minhas plantas, conversar com elas e aproveitar para alardear um novo fertilizante que seu país produzia. Me informava de que a internet tinha vários sites com produtos para planta, mas sou daquelas mulheres antigas, nem tenho computador. Eles insistem para que eu tenha um desses baratinhos, usados, de pouca velocidade ou esse troço de bytes, mas já expliquei mil vezes que isso não me atrai, minha praia é outra, aliás, nem praia, é meu terreiro, é passarinho, é gato, é cachorro e sobretudo plantas, que perfumam, que ensinam a arte do silêncio, embora muitas mudas me falem, me comuniquem uma espécie de paz que não vejo em pessoas, não encontro em viagens, a não ser em livros – tantos que o doutor Ulisses me empresta.

 

Ele dizem “Mel isso”, “Mel aquilo”, mas não desconfiam que cada um tem seu meio de se lambuzar na vida. Eu sou isso, essas coisas bem simplesinhas, essa aposentadoria que é merreca, e mal me garante a pétala de cada dia.

 

São muitas as coisas que me implicam, justificando a fama de solteirona empedernida. Para resumir, basta citar que detesto ver gente com uniforme, principalmente criança de escola primária, além, claro, de soldado fardado e homens de terno. Filhos gêmeos com roupas iguais é motivo de enxaqueca, que não sei explicar. Horroriza-me o desfile de impessoalidade. Tenho engulhos se vejo casas populares. Acho que sou democrata, meio socialista, mas esse tipo de igualdade maltrata meu espírito e até embrulha o estômago, é coisa psicológica e física.

 

Meu pai dizia: “Melpômene, você devia cantar sempre, foi por isso que te arrumei esse nome”. Coitado, de mitologia sabia era pouco, pois se estudasse mais, iria se deparar com a musa da tragédia, aquela que é representada com um punhal e de roupas e semblante soberbos. O pessoal me chama mesmo é de Mel, e sabe que as poucas facadas que dou é para arrumar adubo para as plantas, as flores que me circundam, e não tem nenhuma parecida com outra, miosótis, lírios, orquídeas, begônias, girassóis – mesmo esses, que se ajuntam ali naquele canteiro, cada um tem sua cara, seu olho arregalado de mirar o sol.

 

Quando era garotinha, folheando um livro com todas as bandeiras do mundo, fui isolando as que eram parecidas e dando preferência para as mais originais.  A bandeira do Japão, com a bolota vermelha cercada de branco por todos os lados, logo me atraiu, era a mais diferente de todas. Mas, muito tempo depois, o Japão tornou-se um dos países mais marcantes no império de minhas implicâncias. Aquilo, no mapa, era uma ilha de nervos. O Império da Mesmice. Pois então, eu mesma repetia o que a turma dizia, um caminhão cheio de japonês era uma expressão que substituía “mesma coisa”.

 

Aqui chego ao ponto em que a porca torce o rabo, em que dou bom dia pra cavalo ou faço o boi dormir, antes que a vaca vá para o brejo. Aquele ponto que equivale a um outro sol nascente, e o que era mesma coisa, acaba virando novidade. É só deixar passar a cara vã dos dias para que a cachorrada do inesperado comece a ladrar.

 

Foi só me apegar àquela akita-inu, Hana – cadela que fazia jus ao nome, pois era mesmo uma flor de cachorra – que as coisas começaram a mudar na minha cabeça em relação ao país de povo dos olhinhos fechados.

 

Tudo começou com o Goto, que viu que eu precisava de grana. Comentou que um primo dele, especialista em fertilizantes, chegara ao Brasil e tinha uma cadela, mas tinha que viajar para o Nordeste e precisava que alguém tomasse conta do bicho.

 

Claro que quando olhei pro Akira, o dono da cadela, pensei que ele era não só primo do Goto, mas irmão gêmeo. Depois de uma conversa intermediada por Goto, já que seu primo falava bulhufas de português, ficou resolvido que no dia seguinte apanharia a Hana e tomaria conta dela, por umas três semanas.

 

Quando me explicaram que aquela raça era akita-inu, perguntei se não seria Akira-inu, sugerindo que na raça já tinha marca do dono. E, de bobeira, aproveitei para gozar o Goto com o verbo “sugiro”, na velha piada do japonês que procurava nome para o filho. O rosto de Akira não acusou nenhum sinal de entendimento à minha pilhéria e o Goto já estava esgotado de meus trocadilhos.

 

Fui com Hana para minha casa, cujo terreiro farto, como o das casas do interior, possibilitava um ótimo espaço para aquela cachorra japonesa. E sem risco de tsunami, pensei, e sempre descartando, em minha vida, qualquer ideia de vir a morar um dia no Japão.

 

Sempre tive jeito para lidar com bichos, gatos, cães, até cavalos e o diabo, se ele andar de quatro. Mas nunca imaginei que um animal pudesse se afeiçoar tanto a mim e eu a ele como aconteceu com essa cachorrinha que tem nome de flor. Nem dois dias se passaram e Hana já me olhava como se há anos eu tivesse sido dona dela. Dona o escambau, mãe, mãe mesmo, pois ela tinha um jeito de me olhar, que me vi de repente maternal, eu que nunca levei namoro adiante, que sempre preferi a minha esquisita companhia a qualquer projeto familiar, agora estava ali, olhando pra uma cadela com olhar de mãe.

 

Para encurtar a conversa, as três semanas passaram voando, Akira retornou e ficou até com pena de pegar a Hana de volta, pois pôde perceber que minha intimidade com ela era enorme. Quase todos os dias eu passava pela casa do Akira só para dar uma espiadinha na Hana, que corria muito contente ao meu encontro. Engraçado que comecei a perceber que Akira não era assim tão parecido com o Goto.

 

Menos de um ano depois, aconteceu o que jamais poderia planejar para minha vida. Goto veio me sondar se eu topava passar um mês no Japão. Akira precisava voltar, levaria Hana e gostaria que eu conhecesse sua grande família, tanto a dele quanto a da cachorra, que tinha lá seus irmãos. “Certamente, tudo igual a ela”, pensei. Claro que não tinha a menor chance, a menor grana, mas gozado é que me deu uma certa vontade. E aí pesou positivamente meu amor às plantas: pessoas da empresa do Akira sentiram que eu poderia ser útil na escolha de produtos para jardinagem, e acabaram bancando minha passagem.

 

E fiquei um mês em Honjo, no estado de Saitama, a uma hora de Tokio. Fiz amizade com gente e com mais cães. Acabei até mexendo com coisas eletrônicas, inclusive computador. Claro que cometi minhas gafes. Num churrasco, que eles falam “babekyu”, estava morta de vontade de comer uma picanha e só tinha legumes na grelha. Outra vez, fui tomar banho numa tal de ofurô e esvaziei a banheira ao sair. A família do Akira se espantou, pois a água era também para o banho das outras pessoas. Aprendi algumas palavras (no começo, achava que tudo era igual, também), mas chamei um guarda (omawari) de “himawari”, que significa girassol, o que me fez sentir saudades de meu jardim. Outra vez, tentando conversar sobre a nossa cachaça, pois levei umas garrafas para presentear a família e amigos do Akira, expliquei que a pinga era feita de cana-de-açúcar, ou seja, satôkibi, só que falei nikibi, que é espinha purulenta de pele, o que enojou Yoko, filha de Akira, me apontando o amarelo da pinga.

 

O mês que passei no Japão também voou. Estreitei mais os laços com Hana que, por sua vez, me guiou para uma amizade com o povo japonês. Tive que voltar no final de Abril, quando as cerejeiras estavam em flor. Aprendi o que era “hanami”, o olhar a flor, fazendo piquenique sob o esplendor das sakuras, inundando-me com a beleza do que é efêmero.

 

Voltei para São Paulo e, apesar de ter quase 60 anos, senti que me desabrochei. Apesar de saber que certamente nunca mais verei Hana, tenho a sensação de que, ao caminhar, sob meus pés, ouço o ladrar dessa cadela, e sinto o frêmito de famílias tão iguais e tão diferentes na casa do Sol Nascente.

 

 

Caio Junqueira Maciel, mineiro de Cruzília, professor de literatura aposentado, poeta, escritor. Lançou em Setembro de 2019 o livro Pele de Jabuticaba, poemas a partir de um fato histórico sobre uma revolta de escravos em 1833, em Minas Gerais.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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