ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Antônio Torres


Relações transatlânticas    

(Em homenagem a Alexandre O’Neill, “um poeta bestial,
        pá!, neto de irlandês e parente de Santo Antônio)

 

AUTO-RETRATO

 

        O’Neill (Alexandre), moreno português,
        Cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
        Nariguete que sobrepuja de través
        A ferida desdenhosa e não cicatrizada.
        Se a visagem de tal sujeito é o que vês
        (omita-se o olho triste e a testa iluminada)
        o retrato moral também tem os seus quês
           (aqui uma frase censurada...)
            No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill)
            e tem a veleidade de o saber fazer
            (pois amor não há feito) das maneiras mil
            que são a somovente estátua do prazer.
                  Mas sofre de ternura, bebe demais e ri-se
                  Do que neste soneto sobre si mesmo disse...

 

Lisboa, 25 de junho de 1965.

        
Ontem desembarcou aqui um brasileiro sem passagem de volta. E com apenas 600 dólares no bolso. Ele tem 24 anos, nasceu na Bahia, mas veio de São Paulo. Viera na classe turística de um navio italiano bonitão, o Augustus — que fazia a linha Buenos Aires-Gênova — no qual embarcara no porto de Santos, ao anoitecer de um dia cinzento. Chegou a Lisboa nesse domingo, num fim de tarde ensolarado, oito dias depois.

 

         À primeira vista, a cidade de casario senhorial, coberto de telhas, a admirar-se no espelho das águas do Tejo, era mesmo cheia de encanto e beleza, como a cantavam, nos dois lados do Atlântico. “Se o que vês não é apenas um monte de casas velhas, tu a mereces”, ele se disse. Bela porta de entrada à Europa! Mas haja expectativa, ansiedade, incerteza diante de seu novo mundo, dali por diante.

 

De mala à mão, desceu do navio, despachou-se na alfândega sem problemas, recebeu e leu um telegrama, assinado por um desconhecido, que lhe desejava boas vindas e se desculpava por não poder recepcioná-lo, em virtude de um compromisso de última hora, intransferível. Grata surpresa. Sentiu-se a adentrar um território hospitaleiro. E pegou um táxi, que o levou para uma pensão na Praceta João do Rio. Precisava ficar perto da Praça de Londres, onde havia um emprego à sua espera, numa agência de publicidade, garantido pelo próprio dono dela – o senhor Coelho -, numa carta que ele portava, e à qual respondera informando o mês e o dia em que chegaria, daí o telegrama que lhe entregaram, ao desembarcar.

 

Instalou-se na pensão, onde a mesa era farta e o quarto confortável. Respirou os ares da praceta frondosamente arborizada, mergulhou numa banheira de água quente e dormiu o sono dos viajantes. Hoje acordou cedo, bem dormido, mas ansioso para apresentar-se à empresa que, logo descobrirá, fica num belo endereço. Marinheiro de primeira viagem, ele se regozija pelo mar de almirante em que navega até agora. Aguardemos, porém, a sua primeira tormenta, logo ao chegar ao que julgava o seu porto seguro, e ser recebido por um gerente que, do alto da sua franqueza gerencial, disse-lhe, de cara, na lata, sem mais delongas, que ele, o brasileiro, não devia ter vindo. Sua mudança para Portugal havia sido um equívoco: “Pensávamos que o senhor fosse um desenhador e não redactor”.

 

Imagine o pânico. Os seus 600 dólares mal dariam para uma passagem de volta. Irredutível, o gerente esclarecia-lhe que Portugal não precisava importar redactores publicitários brasileiros, pois os tinha de sobra, a maioria romancistas e poetas famosos, como José Cardoso Pires e Alexandre O’Neill, já os havia lido?    

 

Nada a fazer. Só lhe restava (a ele, o senhor gerente), desculpar-se pelo mal-entendido e... “Passar bem”.
 
O brasileiro não se deu por vencido: “Quer dizer que a assinatura do seu patrão não significa nada para o senhor?” A pergunta desestabilizou toda a convicção com que o até então empedernido gerente o despachava. Percebeu isso pelos seus visíveis sinais de hesitação, ao vê-lo pegar um lenço e passá-lo na testa, a dizer:

 

- Deixemos que ele próprio decida.

 

         E telefonou para o senhor Coelho, que se encontrava em casa, a cuidar de assuntos pessoais, informou. O patrão não hesitou em honrar o compromisso assumido através de uma carta transatlântica. E pediu ao gerente para passar o telefone ao redactor brasileiro. Para lhe dar as boas-vindas, desta vez de viva voz. Ufa!

 

         Começará amanhã. Portanto, hoje terá tempo para flanar pela cidade. Desceu e engraxou os sapatos em frente ao Café de Londres, enquanto se refazia do transe vivido nas primeiras horas do dia. Aquela situação embaraçosa poderia ter sido evitada, se o tal gerente, ao agir como um cão de guarda patronal, tivesse raciocinado com rapidez, e consultado o patrão, antes de atacá-lo (a ele, o recém-chegado), com todas as unhas e dentes. Que cara, quer dizer, gajo, de raciocínio lento! Seriam todos os portugueses assim, e cheios de má vontade com um brasileiro? Mas não. Pela diligência e simpatia do senhor Coelho não podia botá-los num mesmo saco.

 

Ficou um tempo observando os homens que iam e vinham pela calçada, todos muito velhos, tristes, cabisbaixos, pesadões, um passo hoje, outro anteontem, a dar voltas em torno de si mesmos, num círculo de desesperança. Como se carregassem nas costas e na alma o fardo de quatro décadas de totalitarismo - na era de Dom António de Oliveira Salazar -, três séculos de inquisições, dois mil anos de cristianismo. Parecia não haver nesta cidade uma só viv’alma da sua idade. Os jovens estavam na guerra na África ou haviam fugido Europa adentro. Perguntou-se o que tinha vindo fazer aqui. Daí a pouco perceberia que a viagem havia começado a valer a pena.
 
         Foi assim:

 

No Café de Londres, ainda a remoer um resto de angústia, pelo impasse que o tal gerente criara, lembrou-se de que precisava telefonar para um certo Galveias Rodrigues, o dono da Telecine-Moro, a maior produtora de filmes publicitários de Portugal. O motivo da ligação era um presentinho que ele trazia do Brasil – um boizinho de barro do mestre Vitalino -, enviado por um diretor de arte de São Paulo chamado Laerte Agnelli, que havia trabalhado seis meses em Lisboa. Desenhador podia, claro!

 

Apressou-se em comprar ficha e se valer de um telefone público. Galveias Rodrigues o atendeu prontamente. Em menos de uma hora já estava em seu gabinete. E dele sendo levado a conhecer os estúdios de filmagem, sala de projeção, filmes produzidos, story-boards de comerciais em produção e, por fim, a ala dos criativos. Foi aí que o nome de Alexandre O’Neill lhe foi mencionado pela segunda vez, nessa manhã. Logo, quase que o conhecia, antes de a ele ser apresentado.

 

O poderoso Galveias Rodrigues despediu-se, deixando-o aos cuidados do seu próprio redactor, “um poeta bestial, pá”, que adorava o Brasil, sem nunca lá ter ido. Deu para notar isso logo à entrada da sua sala, que tinha uma das paredes decorada com crônicas de Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Vinícius de Moraes e Rachel de Queirós.   
        
— Com que então és brasileiro! – ele exclamou. – Nasceste num país grande e por isso andas pelo mundo como se estivesses atravessando um quintal.

 

- E o que dizer dos portugueses, que nasceram num país pequeno e se meteram em quase todos os cantos do planeta?

 

- Ó pá! Agora me destes uma volta.
 
Ato contínuo, Alexandre O’Neill levou sua inesperada visita à parede, na qual colara também poemas de João Cabral de Melo Neto. Ao mostrá-los, disse ter sido o organizador de uma antologia de João Cabral publicada pela Portugália Editora, em 1963. E que era amigo dele. Costumava visitá-lo em Sevilha, onde o poeta brasileiro da sua maior admiração diplomaciava, como cônsul do Brasil. Encerrando esse capítulo, comentou o rigor de João Cabral com as palavras, que lhe parecia obsessivo:

 

- Ele afia tanto a ponta do lápis que ainda vai acabar cortando os dedos. 
        
Antes de partirem para almoçar, ele pegou o seu paletó, que estava pendurado nas costas de uma cadeira. Enquanto o vestia, surpreendeu o brasileiro com uma observação prosaica:
         - É bonito este teu casaco.
         - O teu também é bacana.
         - Mas não tem o corte e o caimento deste teu.
          - Foi feito sob medida, para a viagem. No entanto, não tem lá essas diferenças do teu. A não ser na cor.
          - Queres trocar?
          Então o brasileiro passou-lhe o seu paletó azul e vestiu um marrom. Os dois encaminharam-se para um espelho. E concordaram que a permuta havia caído bem em cada um. Além de selar o começo de uma amizade, que atravessaria os tempos. Foi na casa de Alexandre O’Neill que o brasileiro encontrou guarida, ao ficar desempregado em Lisboa – e por quatro meses! –, sendo assim recebido, à Rua da Saudade, 23:

 

         - Não precisas de emprego, mas escrever. Vou te tratar a pão e água, para que escrevas.

 

         - E por que achas que tenho que escrever.

 

         - Porque um dia, logo ao chegares, recitastes para mim, de memória, trechos e mais trechos de Scott Fitzgerald. Então eu pensei: “Tenho que levar esse gajo a sério”.

 

                   Amigo

 

         Mal nos conhecemos
         Inauguramos a palavra “amigo”
        
         “Amigo” é um sorriso
         De boca em boca,
         Um olhar bem limpo,
         Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
         Um coração pronto a pulsar
         Na nossa mão!

 

         “Amigo” (recordam-se, vocês aí,
         Escrupulosos detritos?)
         “Amigo” é o contrário de inimigo!

 

         “Amigo” é o erro corrigido,
         Não o erro perseguido, explorado,
         É a verdade partilhada, praticada.

 

         “Amigo” é a solidão derrotada!

 

         “Amigo” é uma grande tarefa,
         Um trabalho sem fim,
         Um espaço útil, um tempo fértil,
         “Amigo” vai ser, é já uma grande festa!

 

Claro está que aquele brasileiro ainda não havia lido isto. E que, até o dia 25 de junho de 1965, não fazia a menor idéia de quem era Alexandre Manuel Vahia de Castro O’Neill de Bulhões – por um lado, neto de um irlandês, e, por outro, parente de Santo Antônio, que também era um Bulhões. Portanto, não sabia que ele, aos 40 anos, era um dos maiores nomes das letras portuguesas do século 20, às quais legou páginas memoráveis, sobretudo em versos, como os de “Um adeus português”, “A pluma caprichosa”, “O poema pouco original do medo”, “O país relativo”, “Portugal”.

 

Sua obra poética está toda reunida num só volume, de mais de 500 páginas. Publicou livros de crônicas, com títulos curiosos, como “As horas já de números vestidas” e “Uma coisa em forma de assim”. Amou muitas mulheres (o brasileiro desta história conheceu algumas delas: Noêmia, a mãe de seu filho Xaninha, Pâmela e Teresa, com quem teve outro filho). Mudou de endereço uma vez, para a Rua da Escola Politécnica, 48. Teve um programa de TV, coluna em jornal, e muitos patrões, até não achar mais quem lhe desse emprego. Entre os altos e baixos, viveu à rasca, ou seja, com problemas de dinheiro. Viajou ao Brasil em 1983, quando conheceu o Rio, São Paulo, Salvador e Fortaleza, fazendo parte de uma delegação de escritores, que incluía José Saramago, Lídia Jorge, José Cardoso Pires e Lobo Antunes. (Ao embarcar de volta a Lisboa, no Galeão, disse: - Quem chega por este aeroporto pela primeira vez, fica a achar que está a chegar num dos países mais ricos do mundo.). 

 

Alexandre O’Neill bebeu e fumou demais. Sofreu o primeiro enfarto aos 52 anos. Morreu no dia 21 de agosto de 1986, aos 62.   
                                      
         Em 6 de julho de 82, ele havia publicado no Jornal de Letras, de Lisboa, a seguinte crônica:
 
         “Quando se está com pane cardíaca o universo míngua e um sujeito ‘desliga’. Passa para a categoria de ‘bom doente’ para ver se salva o canastro, mas não tem propriamente medo. Só tem medo que se enganem nos remédios e lhe enfiem os que são para algum vizinho... De resto, nada mais, a não ser que, quando se volta para casa, se sente tudo fora do sítio e não se acredita que o canastro volte à normalidade. Nem com um jornal na mão se pode andar. Nem se pode caminhar contra o vento. Nem... Nem... Nem... Até que um dia um sujeito se sente de repente melhor que novo e recomeça a fazer asneiras...”
                                            
                                                                        *

 

Lisboa, 6 de novembro de 1995.

 

         “Numa noite escura da alma são sempre três horas da manhã”.

 

Alexandre O’Neill: esta frase aí é de Scott Fitzgerald (lembra?) e serve à perfeição para revestir as horas já de números vestidas, sem que eu consiga pegar no sono. Vem um motorista me buscar aqui no hotel, às sete, para me levar ao aeroporto, onde devo embarcar para Roma, se sobreviver até lá. Que coisa estranha: rodei, rodei, rodei para, afinal, vir morrer em Lisboa. Estou com medo. E achando que desta noite não escapo. Não adianta mudar de posição na cama, deitar de lado até o ombro doer, esperando que o sono chegue. Já fui ao banheiro várias vezes, me olhei no espelho, pra ver se há algum sinal de morte na minha cara, que parece normal. Já bebi potes de água, e nada do sono baixar. É estranho mesmo. Muito estranho. Para piorar as coisas, vêm-me à memória uns versos da sua lavra:

 

Eu estava bom pra morrer
nesse dia.
Não tinha fome nem sede,
nem alarme ou agonia.

 

Comigo me desavenho nas horas que vão se vestindo de branco.

 

         Estou no Hotel Tivoli, na Avenida da Liberdade. Ainda há pouco cheguei à janela e vi as árvores negras, peladas, desvestidas de folhas, como em todos os outonos de Lisboa. E pensei: “Provavelmente um dia eu já tenha vivido aqui. Mas isso faz muito tempo. Foi no tempo de Alexandre O’Neill”. O que escreveu:

 

           Subamos e desçamos a Avenida,
                                        Enquanto esperamos por uma outra
                                        (ou pela outra) vida.
 
Estou aqui como jurado do Prêmio Camões, ora veja. E vim com o romancista Márcio Souza e o poeta Affonso Romano de Sant’Anna. O prêmio saiu para José Saramago, aquele que me deu uma carona da casa do nosso amigo Fernando Santos para a sua, numa noite de fevereiro de 1984, em que fui seu hóspede (outra vez!), por cinco dias. 

 

Àquela altura, você estava passando a pão e água, eu me recordo. A ponto de catar tostões para uma refeição por dia, como me contou. E remoia-se em atribulações pelo fracasso de um casamento; um filho com problemas (parece que veio a se suicidar); nenhuma perspectiva de trabalho. Ainda assim, você se contorcia em dúvidas: se devia ou não aceitar uma bolsa mensal do Instituto Português do Livro, oferecida pelo presidente daquela instituição, António Alçada Baptista, seu amigo de todas as horas, até a última. (Foi ele quem me telefonou um dia, para me dizer, desolado, que você havia entrado em coma). 

 

- Não achas que essa bolsa é uma espécie de esmola? – você me perguntou, num daqueles cinco dias em que me oferecia a sua casa, pela última vez.

 

- Aceite-a como um direito. Autoral. Como um pagamento do que os editores lhe devem. E isso está vindo em boa hora, não é? – foi o que lhe respondi, incitando-o a não vacilar mais, para não continuar se martirizando com a falta de dinheiro, até para o pão de cada dia.

 

Fui encontrá-lo no Instituto, depois dos seus acertos burocráticos com o Alçada Baptista, conforme o combinado. Quando cheguei lá, vocês dois conversavam animadamente. Você sorria. Gostei de vê-lo de novo ânimo, de uma hora para outra. O Alçada levou-me a um passeio entre ruas de livros. Estava orgulhoso do trabalho que vinha fazendo ali. E eu dele, pelo bem que lhe fizera. A você, Alexandre O’Neill, que por um momento voltava a sorrir.

 

Dali fomos almoçar com o bom Irineu Garcia, o brasileiro dos discos de poesia, amigo de toda a gente do meio literário nos dois lados do Atlântico, e que já havia se tornado um lisboeta. No entanto, confessou-nos estar em dúvida se deveria ou não voltar para o Brasil. Não teve muito tempo para se decidir. Acabou sendo encontrado sem vida, pelo Cardoso Pires, num dia em que marcara um almoço com ele.
 
Ainda há pouco o José Carlos de Vasconcelos, o do JL, em que você tanto colaborou, veio buscar o Affonso Romano de Sant’Anna e eu para um jantar de lordes. No caminho para o restaurante, o carro em que nos levava cruzou a Rua da Escola Politécnica. Olhei à direita tentando localizar o prédio onde você morava, mas não deu para vê-lo. Depois a jornalista brasileira Norma Couri me levou ao teatro, para assistirmos a uma peça de Hélder Costa.

 

Findo o espetáculo, o Hélder me deu uma carona para o Procópio, onde a atriz (e que atriz!) Maria do Céu Guerra nos aguardava. E, como sempre, para cobrar as minhas memórias de você, que são as do meu tempo de Lisboa, de Portugal, àquele tempo definido pelo Fernando Santos como “um doce país fascista”, então a atravessar uma das ditaduras mais longevas do mundo. E é esse o país que está ao fundo de seus poemas.

 

Agora, Lisboa já não parece a cidade de homens dos pés redondos, a dar voltas em torno de si mesmos, tal qual parecia ao meu primeiro olhar, naquela manhã em que engraxei os sapatos na calçada do Café de Londres, no dia 25 de junho de 1965. Agora a cidade está chiquezinha, engraçadinha, internetadazinha, globalizadazinha. Agora, sim, é que ela desfila no “luxo blindado dos seus automóveis”. Importados, pois, pois! Percebe-se uma nova classe nesse desfile. Resta saber de onde veio, o que faz e para aonde vai. 

 

Hoje à tarde parei diante de uma vitrine aqui ao lado do hotel, atraído por um paletó bacanérrimo. Recordei-me do nosso primeiro encontro, na Telecine-Moro. Entrei na loja e perguntei o preço. 500 dólares! Ora, viva: Lisboa não era a cidade mais barata da Europa? Pensei: esse não vou poder permutar com o O’Neill. Desta vez fico-lhe devendo um novo paletó.

 

No Procópio, a Maria do Céu estava cercada de amigos, como o Raul Solnado, o comediante lendário. De repente me chamam ao telefone. Era a Leonor Xavier, que amanhã estará lançando um livro muito bem editado sobre Maria Barroso, a senhora Mário Soares. Falando nisso, me contaram uma história...  engraçada? Vá lá. Consta por aqui que, quando você agonizava na cama de um hospital, disse que queria a presença, ao pé dela, do presidente da República, que não era outro senão Mário Soares. Ao saber disso, ele foi visitá-lo. Mas deixou o hospital sem entender nada. Você o teria enxotado, aos berros: “Tirem esse homem daqui! Quem o chamou? Não quero falar com ele!”

 

Feita essa digressão (para você rir aí um pouquinho de si mesmo), volto ao telefonema da Leonor Xavier: “Tu aqui e o O’Neill cá já não está”. Desligou e veio correndo, não sei se para me ver ou ao Raul Solnado, com quem andava estremecida, mas pelo que pude perceber acabaram voltando às boas.

 

Seja como for, gostei de revê-la. A última vez que a havia visto foi numa festa no Rio de Janeiro, patrocinada por ela, há muitos anos — para José Saramago! O que acaba de levar o Prêmio Camões. A propósito, estranhei um cidadão que me interpelou no Procópio. Ele havia me visto na televisão, a dizer bem do premiado. Disse-me, na lata, ao jeito lusitano sem peias, que não entendia o fascínio brasileiro pelo Saramago.

 

- Esse gajo é um chatarrudo, um antipático, que vive a dizer mal de Portugal — e continuou desatando uma data de impropérios nada glorificantes a respeito do velho Zé, que está famoso como um corno, e com toda pinta de Prêmio Nobel. Mas aqui lhe sovam. Imagine os estilhaços verbais que sobraram para mim, por ter participado do júri e dito na televisão que o prêmio era justo etc. Chiça! Tudo como dantes. Dizer mal de toda a gente é uma tradição portuguesa, com certeza.

 

Também diziam muito mal de você, eu me lembro. Quando você fazia um programa na televisão e tinha uma coluna no Diário de Lisboa. Deviam pensar que você estava de tripa forra, com dinheiro saindo pelo ladrão. Sem terem antes o cuidado de verificar o seu saldo bancário. A vida é assim. Ou será uma coisa em forma de assim?

 

 

 

Se sobreviver a esta madrugada que avança com as horas cada vez mais se vestindo de números, escreverei umas linhas a seu respeito, nem que seja apenas para dizer que você foi um amigo como poucos.
        
            E não foi?
      
                                        *

 

 

 

Rio de Janeiro, 6 de fevereiro de 2007.

 

Pois, pois. Cá estou, sobrevivendo às minhas próprias “mós de baixo”. E condenado ao seu auto-de-fé:

 

                  
                            Folha de terra ou papel,
                            Tudo é viver, escrever...                                   

 

 

O escritor brasileiro Antônio Torres é o oitavo ocupante da Cadeira nº 23 na ABL - Academia Brasileira de Letras. Nasceu no dia 13 de setembro de 1940, num distrito de Inhambupe chamado Junco (hoje a cidade de Sátiro Dias), no sertão baiano.  Foi repórter no Jornal da Bahia, a partir de 1961, transferiu-se para o diário Última Hora, de São Paulo. Na capital paulista, veio a trocar o jornalismo pela publicidade, tendo sido redator e diretor de criação em várias agências de São Paulo, Portugal e Rio Janeiro. Estreou na literatura em 1972, com o romance Um cão uivando para a Lua, considerado pela crítica a revelação do ano. Seu universo romanesco é constituído de cenários rurais, urbanos e da História. É também contista, cronista e autor de uma história para crianças. Sua obra tem tido várias edições no Brasil e traduções em muitos países, da Argentina ao Vietnã. De 1999 a 2005, foi Escritor Visitante da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde realizou oficinas literárias, palestras e aulas inaugurais nos campos do Maracanã, São Gonçalo (Faculdade de Formação de Professores) e Duque de Caxias (Faculdade de Educação da Baixada Fluminense).  

Pertence também à Academia de Letras da Bahia, na qual ocupa a cadeira 9, sucedendo a João Ubaldo Ribeiro. Recebeu inúmeros prêmios como em 1987 – Prêmio Pen Clube do Brasil para Balada da Infância Perdida, 1997 – Prêmio hors concours da União Brasileira de Escritores para O cachorro e o lobo. Em 1998 recebeu a comenda de Chevalier des Arts et des Lettres, do governo francês, pelas suas obras publicadas na França até então, Essa terra e Um táxi para Viena d’Áustria. Em 1999 – Selo Altamente Recomendável, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, para Meninos, eu conto. Em 2000 – Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. 2001 – Prêmio Zaffari & Bourbon, da 9ª. Jornada Literária de Passo Fundo, para Meu querido canibal. 2007 – Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, para Pelo fundo da agulha. Em 2015 – Selo Oficial dos 450 anos do Rio de Janeiro para Meu querido canibal e O nobre sequestrador. Em 2016 - Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro - 2016, concedido pela Academia Carioca de Letras. Tem cinco romances publicados em Portugal (Meu querido canibal, O nobre sequestrador, Essa Terra, O cachorro e lobo, Pelo fundo da agulha), e um conto numa antologia feita pela Teodolito com a Fnac para o dia mundial do autor,
Ronaldo Cagiano, escritor, ensaísta e crítico brasileiro que vive em Lisboa, escreveu sobre a publicação de três obras de Antônio Torres então recém-publicadas em Portugal, em resenha publicada no blog Etudes Lusophones estudesluso@gmail.com, da Sorbonne - e inédita em Portugal:
 “Autor captura a realidade do migrante num país em transe”:
(...) Finalmente chega a Portugal um dos mais importantes escritores brasileiros, cuja obra é um marco na bibliografia brasileira por fazer um recorte da realidade de um país em transformação a partir da realidade de seus personagens, particularmente o migrante nordestino, que em grande marcha desde os anos cinquenta do século passado, deixou o interior agreste e sem perspectivas para tentar a vida e a sorte nas grandes metrópoles.

Já tendo vivido alguns anos em Lisboa na década de 60, Antônio Torres é (re)descoberto em Portugal em dose tripla, com a publicação pela Editora Teodolito, de três de seus principais romances: “Essa terra”, “O cachorro e o lobo” e “Pelo Fundo da agulha”, trilogia que tematiza esse deslocamento geográfico, temporal e psicológico de seus protagonistas, (...)”

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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