ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


A utilidade dos humanos    

Leio um título numa revista "Uma nova classe de pessoas deve surgir até 2050: a dos inúteis.” O texto segue: Com o avanço da inteligência artificial muitos profissionais não apenas ficarão desempregados, como também não serão mais empregáveis…

 

O tom é de catástrofe, inaudito, nunca aconteceu, mas coloca a velhíssima questão do que fazer com o progresso nos mesmos velhíssimos parâmetros com que os esclavagistas colocaram o fim da escravatura, tornada obsoleta com a  máquina a vapor, ou os operários dos têxteis destruíram as caldeiras que lhes destruíam o emprego. O autor, um opinion maker internacional, doutorado por uma afamada universidade da cultura ocidental, é apenas mais um profeta no enxame dos pregadores do pensamento único que esta civilização impôs: a de que os seres humanos não fazem parte da natureza, nem das suas espécies de seres vivos. Existem nela, mas são dotados de uma finalidade transcendental além de existência. São, em suma, extraterrestres, que vêm à Terra e à vida para cumprirem uma missão, para serem úteis. A Bíblia é a matriz deste pensamento que atribui ao homem a qualidade de ser uma réplica do criador e de vir a este planeta a cumprir um exame que lhe abrirá as portas de um longínquo e eterno paraíso, ou a queda num inferno simétrico.

 

 O texto em referência é um produto em série vendido como as máquinas vendem águas, sumos e chocolates. Espelha várias taras comuns assentes na ideia de que a civilização industrial e o capitalismo estão inscritos na natureza. Mais, que são a natureza e, logo, não existe alternativa fora das suas pressupostas leis. É fruto de uma análise a-histórica, que só reconhece o mundo e o tempo em que o autor vive. É um produto típico das business school, de onde os cérebros dos licenciados saem tão formatados como os dos antigos missionários ou os dos radicais islâmicos das madrassas. As televisões e os grandes meios de comunicação de massas estão pejadas destes apóstolos com réplicas nacionais no comentariado dominante das TVs. Nunca duvidaram. Nunca pensaram no significado das palavras, na história de cada uma delas.

 

Nós somos, antes de tudo: Seres! Não somos utensílios, nem expedicionários enviados em comissão à Terra. Somos nós, os seres, os humanos, que damos utilidade às coisas. Não somos úteis por nós próprios. O nosso trabalho não é uma utilidade, é uma contribuição para a vida da sociedade. Só a violência transformou o contributo para a sociedade em utilidade, aconteceu com a domesticação dos animais como produtores de energia e a escravidão de seres vencidos.

 
Somos todos inúteis.

 

Nenhuma espécie viva no nosso planeta existe para ser útil, exceto, para estes profetas, a dos humanos! A vida não surgiu da necessidade, logo da utilidade. Desenvolveu-se não pela utilidade, mas para sobrevivência das espécies, incluindo a humana. Aquilo que estes pregadores parecem querer significar com a referência à utilidade é o resultado da divisão social do trabalho para os grupos humanos disporem de melhores hipóteses de sobrevivência. A divisão dos grupos humanos em caçadores e agricultores é um exemplo de especialização para obter meios de sobrevivência. Outros animais dividiram tarefas entre os seus elementos, desde os insetos aos mamíferos superiores, sem necessidade de substituírem a socialidade pela utilidade, e transformarem esta em mercadoria.

 

Os humanos, como qualquer outra espécie, não existem em função da utilidade. A sua finalidade é existirem, serem, manterem o ciclo de vida no planeta enquanto este proporcionar condições para tal. Por isso, a luta pela preservação da espécie humana no seu planeta de habitat exige a alteração do conceito de utilidade da vida, da vida humana como mercadoria, da propaganda de impor uma finalidade para a vida assente na realização pelo trabalho. Leia-se Paul Lafargue e o “Elogio da Preguiça”. Por isso, a luta pela sustentabilidade do meio ambiente é decisiva e essa luta implica a alteração dos princípios em que assenta o modo de produção dominante, o capitalismo, em suma e do conceito da utilidade da vida e da energia que os seres vivos produzem sob várias formas, do pensamento mais elaborado ao pontapé numa bola.

 

Por fim, o habitual atrevimento da ignorância. Desde há muito que a humanidade utiliza inteligência artificial: o ábaco chinês, por exemplo. Não estamos perante fenómenos radicalmente novos. A questão da inteligência artificial coloca o mesmo problema da faca, ou de qualquer utensílio: a questão é o uso que os homens lhe derem. É uma responsabilidade dos seres humanos e não uma ameaça. Não é uma ameaça maior do que as armas nucleares.

 

Quanto ao que fazer aos inúteis: Desde há muito que as sociedades digerem multidões de inúteis. Os monges e as monjas das várias religiões e com vários nomes, reunidos em imensos depósitos, formaram exércitos de inúteis que, nos melhores casos, produziram doces conventuais e prazeres carnais. Os camareiros e camareiras das cortes medievais, que incluíam estribeiros e duenas de retretes são outros exemplos de emprego para inúteis.  E, há sempre o grande recurso para eliminar inúteis: a guerra. 

 

Não foi necessária a inteligência artificial para os seres humanos eliminarem os inúteis que as suas opções civilizacionais criaram nas suas sociedades. Não é da inteligência artificial que vem o perigo, mas da perversidade natural dos humanos.

 

Sendo certo que o atual modo de produção dominante pretende alienar os humanos com a proposta de ser o trabalho que melhor realização proporciona o que maior riqueza permite concentrar, a verdade é que essa alienação assenta no trabalho de descobrir formas e produtos que explorem os seus semelhantes, a especulação em primeiro lugar, e a elevação a dogma da mistificação da moda de produzir consumíveis inúteis ou de duvidosa utilidade. Uma moda com dois palavrões da moda: empreendedorismo e Start ups! Dois conceitos modernaços apoiados em velhas receitas: a guerra e a fé num salvador como fontes primordiais e indispensáveis de toda a nova riqueza.

 

Já agora, e por fim quanto aos humanos inúteis. Os milhões soldados dos grandes exércitos e os milhões de monges e religiosos de ambos os sexos que encheram os dois maiores conjuntos de edifícios da história da humanidade, os castelos/fortalezas/quartéis e os conventos são, ou foram úteis? E os homens que ali viveram a treinar-se com armas ou com rezas foram úteis e realizaram-se?

 

O autor do artigo que serve de pretexto a este texto acredita que a humanidade está perante um problema novo, o que fazer com os ditos inúteis que a sociedade gera pela evolução tecnológica, mas é um problema recorrente. No mundo ocidental, para não ir muito longe, na Revolução Francesa, o fim do antigo regime, dominado pela igreja e pelos aristocratas senhores de terras, os frades e os camponeses inúteis foram tornados úteis para formarem exércitos! Um clássico. O desenvolvimento tecnológico necessário para fazer a guerra estaria na origem da revolução industrial, e antigos soldados e mulheres inúteis foram transformados em proletários, que por sua vez produziram os soldados da Grande Guerra e da II Guerra Mundial. A revolução das tecnologias da informação irá tornar inúteis os inúteis do costume e a solução será a de encontrar novos conventos, novos quartéis e uma nova guerra, como o costume.

 

Os novos conventos e quartéis, os novos frades e soldados fruto dos inúteis criados pela nova revolução tecnológica já aí estão, são as igrejas evangélicas e os produtores de “conteúdos” para redes de informação, entre os quais as fake news, são os exércitos de falsos úteis, desportistas profissionais, empresários, anexos do comentário e do comércio de gadgets (milhões de inúteis com campeonatos do mundo de tudo e mais alguma coisa, jogos olímpicos e torneios), profissionais do entertainment, enchedores do vazio, programadores de jogos, de vírus e antivírus informáticos, polícias cibernéticos, animadores, e, para as sobras, umas guerras que podem ser de novo tipo, biológicas e ambientais.    

 

 

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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