ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

José Petrola


Contos    

O BECO DO RATO

 

         Sentada na escadaria do Beco do Rato, Daiane estudava para a prova de Química quando Mariana a convidou para uma festa.

 

         — Não posso, Mari! Tenho prova amanhã.

 

         — Que prova, menina? Não estou te chamando pra se divertir. É pra ganhar dinheiro.

 

         Daiane olhou intrigada para a amiga. Admirava seu jeito mais desinibido, sempre com ótimos convites para transgressões. Uma vez, Mariana trouxe maconha para elas fumarem escondidas no banheiro da escola, no intervalo das aulas. O gosto era ruim, o bagulho deixava ela tonta, mas a melhor parte era a sensação de estar participando de uma coisa completamente errada, que daria suspensão na escola, e que a mãe crente chamaria de satânica. Mariana era mais velha e malandra, pagava a droga com o dinheiro que faturava no cais do porto. Não era a primeira vez que oferecia uma proposta assim, mas Daiane sempre teve medo.

 

         — Hoje são dois bacanas aqui do centro. Um é aquele gerente do banco que sempre passa lá no porto, o outro é um rapaz novo, acho que estagiário dele.

 

         — Acho perigoso...

 

         — Você não vive dizendo que quer trabalhar comigo? Aí a chance. Esses são perfeitos para começar. Não é pedreiro aqui do beco não, é homem rico, cheiroso, bem educado. Os caras têm grana.

 

         — Mas depois como vou voltar pra casa?

 

         — Não seja burra, menina. Estamos cobrando trezentos de cada um, a gente rateia o dinheiro. Dá pra gastar um pouco na volta e ainda é dinheiro pra ó, muito tempo.

 

         Daiane olha assustada, sem responder. Mariana continua:
         — Não fica assim, põe um sorriso nessa cara. Seja simpática, safada. O que esses caras querem é achar que são o macho alfa da parada. A gente vai com eles numa casa aqui no centro e faz uma festinha. Cola no mais novo, que é mais tímido. Finge de namorada, deixa ele se sentir o centro da atenção.

 

         — E não tem perigo de eles quererem...?

 

         — Quererem o quê, menina. É uma troca. A gente namora eles uma horinha e volta pra casa com trezentos na mão. Tá dentro? Não fura comigo, hein.

 

*

 

         No escritório, ligo mais de dez vezes para o setor de RH e ninguém atende. Faz tempo que tento uma transferência para o departamento de publicidade, que é minha área de formação. O gerente da publicidade já me aceitou lá, mas o meu atual não me liberou. Diz que não pode prescindir do meu trabalho. Mas pensa que um publicitário é para isto que faço, contar quantas cadeiras, quantos lápis e materiais de escritório fazem parte do patrimônio. Ligo de novo, caixa postal. Tomo um comprimido para a dor de cabeça e um xarope para as náuseas. Meu fígado não aguenta mais tanta bebida, nem eu aguento mais esse trabalho sem beber. Ligo para o psiquiatra, mais uma vez. Ninguém atende. Preciso de uma nova receita dos remédios. Que eu não deveria estar tomando junto com a bebida, mas já não me importo. Tento me concentrar no trabalho. Contabilizar o patrimônio e colocar os números na planilha. Só de olhar para a tela quadriculada no computador, tenho tonturas. Tomo café para acordar, mas, em vez de terminar a planilha, volto para um texto que estava escrevendo. Contos e poesias. É isto o que me mantém vivo, hora após hora, dia após dia, na baia de um escritório, enquanto me recupero da bebida. Escrevo de coisas que vi. Não que eu escreva a minha vida, mas tudo o que escrevo se alimenta da vida, senão não haveria razão para fazer literatura. O último conto veio do fundo da noite, de tudo o que vi no Beco do Rato, e foi o que mais mexeu com todos, quando mostrei aos colegas do trabalho. E mesmo que eu não escreva sobre nada da realidade, sobre coisas que vi, mas de que não fiz parte, ou que se tivesse participado não poderia dizer, não me importo que confundam a ficção com a realidade. Estão enganados, na medida em que autor não é narrador, nem personagem; mas, se para eles um conto é a sua realidade, que assim seja.

 

         Aí que o Lucas, do setor de vendas, chega perto da minha baia e pergunta:
         — Ô João, você fumou maconha para escrever ou estava careta quando fez aquele conto?

 

         Ignoro. Outra colega, da contabilidade, se aproxima de mim com um sorriso, alisando com o dedo a propaganda de um centro religioso.

 

         — Li seu conto, João, e fiquei tão preocupada! Você precisa de apoio espiritual. Venha conhecer a igreja que eu frequento.

 

         Olho para o folheto, com uma imagem de um campo verdejante e ensolarado e o anúncio:

 

         “Pare de sofrer com a insatisfação e a baixa autoestima que te impedem de alcançar seus objetivos pessoais e profissionais. Venha conhecer a Equilibrologia!”

 

*

 

         No Beco do Rato, Mariana acompanha Daiane, quase a puxando pelo braço, até o bar do Johnny. Uma sinuca decadente, onde o único funcionário naquela hora, já passando a meia-noite, era um adolescente que bebia em serviço e fumava um cigarro atrás do outro. Os dois engravatados estão na mesa mais ao canto na calçada, tomando litros de cerveja barata, sem perceber que as meninas chegam. Morais, mais velho e barrigudo, esvaziando um copo atrás do outro e falando sem parar sobre suas aventuras na Vila Mimosa; e Jota, vinte e poucos anos, magrinho, tímido, ouvindo com excitação.

 

         Mariana dá um beijo comprido em Morais, alisando os pelos do seu peito por baixo da gola entreaberta da camisa, enquanto Daiane senta ao lado de Jota, dando um beijo sem coragem, quase protocolar. A mais velha pede caipirinha e a mais nova, refrigerante. Morais tira um comprimido azul do bolso, engole com a cerveja e faz o convite:
         — Vocês topam ir com a gente para uma casa de swing?

 

Daiane está assustada, mas faz sinal de sim com a cabeça quando sua amiga lhe lança um olhar assustador. Jota percebe que ela ainda carrega o caderno da escola por baixo do braço, com a página aberta nas anotações da aula de Química. Mariana vai para perto dela e sussurra algo. Enquanto isto, Jota faz um sinal para Morais com as mãos, como querendo indicar perigo. Movimenta os lábios, sem emitir som:
— Certeza que ela não é de menor?

 

Morais responde com um gesto encorajador e põe mais cerveja no copo do amigo. Pede a conta e chamam um táxi.

 

*

 

Nunca fui uma pessoa religiosa, nem dada a doutrinas espirituais ou filosóficas. Estudei em colégio católico quando criança, e a única coisa que me lembro das aulas de catequese era dos colegas de classe que me beliscavam e atiravam bolinhas de papel, sem nunca serem vistos pelos professores, e das advertências severas que eu tomava quando tentava me defender. E do padre, que falava sem parar sobre o quanto a gente deve se esforçar para não cair no pecado, fugir do pecado, confessar os pecados, se arrepender dos pecados, se humilhar diante de Deus pelos pecados. Tudo era pecado. Só um pecado eles não repreendiam, que era quando os moleques me cercavam na quadra de futebol para me encher de porrada e arrancar as minhas calças. Quando eu batia para revidar, era sala da diretoria, sempre. Suspensão, tomei três vezes. Meus colegas, nenhuma. E Pai Nosso e Ave Maria e sermão pra não cometer o pecado da ira. A minha revolta, aquela palavra que eu dizia um pouco mais alto, aquela pancada que eu dava para me proteger, minha única defesa de rapaz mais fraco, era o maior pecado para os padres velhos. E, naquele mundo de pecados, nenhuma diversão era mais sagrada para mim do que um amigo mais velho me mostrar escondido, dentro das divisórias do banheiro, uma revista de mulher pelada. Em revezamento, um segurando a revista e o outro batendo punheta para as fotos das modelos. “E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”. Larguei o catolicismo, mas nunca me encontrei em nenhuma outra religião. Quanto mais eu tentava estudar as doutrinas, mais me pareciam sem sentido, assim como todas as filosofias. Nenhuma dava conta dessa revolta que eu sentia, latente, rastejando pelas beiradas, por baixo das divisórias. E foi por causa dessa revolta, que se alastrava pelas baias de banheiros e de escritórios, que comecei a escrever. Queria que meus contos mostrassem ali onde estava todo o pecado e todo o mal, todo o grito que eu estava proibido de dar.

 

Mas ali estava eu, na mesa do escritório, quase morrendo de ressaca, sentindo o coração acelerar de raiva do trabalho cacete que precisava fazer, e por alguma razão que me escapa à mente, lembrei-me do coral da igreja católica, ensaiando o refrão do miserere, miserere nobis. Quando respiro e sinto dentro de mim a raiva, penso lá no fundo, ainda que de leve: não acredito em nada do religioso nem do sobrenatural, mas não seria tão bom se eu pudesse acreditar em alguma coisa, nem que fosse para me iludir imaginando que em algum momento, lá depois da morte, existisse algum mundo onde eu não tivesse de estar naquela situação? A cada dia querendo morrer, sem conseguir dormir ao me lembrar de que no dia seguinte precisaria ir ao trabalho. E se não estivesse, lá, a mãe de misericórdia vida doçura esperança nossa da oração?

 

Alguma coisa tinha de me servir de ilusão. Decidi aceitar o convite para ir à reunião de seguidores da Equilibrologia com minha colega de trabalho e, por sugestão dela, enviei para o mestre, ou professor, sacerdote, médium, enfim, o líder deles, uma cópia daquele meu conto com as personagens do Beco do Rato.

 

A sede da Associação de Equilibrologia era num escritório no centro. Havia poucas pessoas na reunião. O mestre me devolveu a cópia do conto, com várias passagens sublinhadas em caneta vermelha, e poucas em azul. Começou a me explicar:
— Separei no seu texto o que são os seus pensamentos e os seus sentimentos. Em azul estão os sentimentos positivos, e em vermelho os negativos. O que nós vamos estudar na Equilibrologia é como funciona o nosso sistema de equilíbrio energético mental, para podermos controlar os pensamentos negativos e não nos deixarmos dominar por eles. Porque quando a gente é negativo, reclama muito da vida, cria uma rede energética de vibrações muito negativas, que reverberam no universo, trazendo ainda mais negatividade para a gente. Olhe para o seu texto, veja quantas linhas estão todas marcadas em vermelho. Quantos sentimentos negativos você criou! Não pensa que seria possível criar sentimentos positivos, com um estudo do seu pensamento?

 

*

 

Bêbados, Jota e Morais entram no táxi com as duas meninas e vão para a casa de swing. No banco da frente, o velho se derrete em beijos com Mariana. No de trás, Daiane está calada, quase sem mexer nos braços, agarrada ao caderno com as lições de Química. Jota não tem coragem de encostar nela, nem de avisar aos outros que parassem com aquela loucura. Ouvia os incentivos do amigo:
— Porra, Jota! Aproveita que hoje é a sua noite, você também não é homem?

 

Morais estava quase nervoso de tão animado, a droga começando a fazer efeito. Jota tenta se animar, encosta a mão quente nos dedos gelados de Daiane, mas tudo parece muito estranho. Ela não esboça reação, depois começa a beijá-lo com timidez.

 

Quando chegam ao local e descem do táxi, Daiane, tremendo, agarra o caderno com força contra os peitos e grita:
— Vou embora, Mariana! Preciso ir para casa, minha mãe está me chamando!

 

A mais velha tenta segurá-la, mas Daiane está descontrolada, parece possuída pelo capeta. Sai correndo para a rua, no meio do trânsito, desviando dos carros. Jota começa a rir, numa mistura de alívio com vergonha, enquanto vê a menina fugir e Mariana gritando, sem conseguir atravessar a rua para persegui-la:
— Furona, filha da puta! Estragou o nosso trabalho de hoje! Volta aqui! Se eu te pego lá no beco vou te encher de porrada!

 

Morais está bêbado e drogado demais para entender a situação, e Jota às gargalhadas. Imagina-se fazendo a mesma coisa no trabalho. Quem sabe um dia poder sair do escritório assim, correndo para a liberdade, para o meio do escuro. Nunca mais ter de fazer aquele serviço cacete, conviver com aquelas pessoas e ter de beber para aguentar. Depois que Morais entra no swing com Mariana, Jota vai beber em outro bar e volta para casa a pé, completamente bêbado, tropeçando nos mendigos.

 

*

 

Na Associação de Equilibrologia, o mestre me pergunta por que preciso colocar tanta negatividade na minha escrita. Conto de onde vêm minhas histórias, das personagens do Beco do Rato, aonde vou todas as noites tomar uma caixa inteira de cerveja para me esquecer das planilhas que precisei fazer no trabalho.

 

— Mas, Mestre, como esta garota que foi aliciada pela cafetina pode desenvolver sentimentos positivos?

 

— As pessoas que foram prostituídas se tornaram escravas de vibrações muito negativas de seus instintos, porque estão em contato com baixas energias. É preciso fugir das atividades que trazem um rebaixamento espiritual para poder desenvolver pensamentos e sentimentos positivos.

 

— Mas elas não são obrigadas a continuarem nessa vida? Não são aliciadas, não sofrem ameaças?

 

— Claro que são, ou você acha que alguém gosta dessa vida?

 

— E alguém que faz outro tipo de trabalho insuportável só por obrigação, por que é melhor do que ser prostituta? Só porque não tem sexo?

 

— Pare de criar sentimentos negativos, isto só vai atrasar a sua vida.

 

*

 

Não volto mais à Associação de Equilibrologia. Continuo escrevendo, e busco os assuntos de meus contos ali, no Beco do Rato. Os mendigos, as prostitutas, os drogados. Os executivos. Às vezes estamos tão embriagados que não há diferença. Glória a Deus, se houver um nas alturas, e na Terra a paz aos que já perderam a vontade.

 

 

 

 

 

 

Insônias

 

No meio da madrugada, o escritor acorda com insônia. Levanta, deita de novo, espera o tempo passar, desiste de dormir. Enche um copo de gelo e uísque. Põe a mesa na sacada, o computador sobre a mesa. Os fones de ouvido tocam jazz. Trabalha no rascunho de um conto. Para ele, as madrugadas são inspiradoras: quando os ônibus não passam mais pela avenida e apenas de vez em quando se vê os pedestres, a cada hora mais estranhos.

 

*

 

No acampamento de férias da escola, os meninos teimam em não dormir, para o desespero dos monitores. Até as dez, o clima era de festa. Os pais chegavam, deixavam as crianças, depois iriam para os cinemas, os jantares românticos, os motéis, aonde pudessem ir com sua liberdade provisória de poucas horas. Os pais do Antônio estavam preocupados com o menino passando lá a noite inteira, mas tinham esperança de que a atividade o ajudaria a fazer amigos na nova escola. Fazia poucos meses que o filho foi transferido, depois de ter se comportado mal na escola antiga. Ninguém entendia por que ele tinha aqueles rompantes, agredia todo mundo, nunca conseguia cultivar uma amizade normal com as outras crianças.

 

A quadra de futebol de salão, transformada em acampamento para as crianças, está sob uma chuva de bolotas de espuma. De um canto para o outro da quadra, desesperados, os monitores tentam acalmar as crianças, que brincavam de guerra de travesseiros. Cinquenta pequenos guerreiros, desmanchando seus travesseiros e colchões para atirar pedaços de espuma nos colegas. A gritaria chegava até os prédios vizinhos.

 

Enquanto os monitores, atarantados, desfaziam-se em berros tentando acalmar as crianças, ninguém viu Antônio sozinho no banheiro, sangrando, com a cabeça dentro da privada, depois de ser currado pelos meninos da sétima série.

 

*

 

No meio da madrugada, troca de turno na fábrica. Mário chega mais cedo, e ainda ouve a voz azeda do coordenador:
- Atrasado de novo, só podia ser preto!

 

O peão já nem se importa mais. Desde que começou o serviço novo era sempre assim. Sempre ele, o neguinho insolente, baiano, vagabundo, preguiçoso, quando não cospe na entrada, enfim. De pouco valia seu trabalho por ter nascido em outra cidade. Mas no fim do mês chegavam as contas, e alguém havia de pagar.

 

O capataz se aproxima, rosnando outras frases, abre a braguilha da calça e mija em Mário, que não tem coragem de dizer nada.

 

*

 

Vinícius caminha com os amigos pelo calçadão da praia deserta de madrugada. Todos bêbados depois da noite inteira no rock. Por baixo de um carro estacionado, escondem-se dezenas de ratos. Na areia, um mendigo dorme, caído de bêbado. Usando um pedaço de madeira, Vinícius consegue apanhar um dos ratos debaixo do carro. Segurando pelo rabo, joga o ratinho na cara do mendigo, achando que a reação seria engraçada. Mas o bêbado não acorda, e o rato foge correndo. Vinícius volta para o carro, e pega mais um rato. Os amigos abaixam as calças do mendigo e enfiam o rato no cu dele, sem que esboce nenhuma reação, como se nem mesmo tomasse conhecimento. Então um deles resolve pegar uma garrafa de álcool dentro do carro, encharca as roupas do bêbado e acende com o isqueiro, para ver se enfim o mendigo acorda.

 

O fogo pega. Nenhuma reação. Os rapazes fogem.

 

*

 

No espelho do banheiro, o dono da cicatriz olha seu rosto marcado. No escuro da madrugada, na hora em que todo espelho é negro, sua cicatriz quase some. Como se não houvesse aquele remendo horroroso no meio da pele. A cicatriz que espantava a todos. Que anulava as carteiras de identidade, os comprovantes de residência e os diplomas. Ele era sempre só o dono da cicatriz, sem nome. A marca que ameaçava a qualquer momento se abrir, derramando sangue. Os gritos de espanto. Os suspiros de piedade. Oferecimentos de orações, curas e ajudas espirituais. Olhares de pena, que o caçavam. Até esmola lhe ofereciam. O único emprego que conseguiu foi na prefeitura, aonde se chegava por concurso. Trabalhava de costas pra todo mundo: que não o olhassem espantado. Diziam que a cicatriz não era problema. Que tudo seria possível para ele, se tentasse esforçar-se mais, ter mais iniciativa. Mas sabia, de experiência: o que fizesse ou não, seria o mesmo que nada. Seria sempre visto como um inútil.

 

À noite, as insônias viravam livros. No silêncio da madrugada, no escuro, não havia olhares de piedade. O dono da cicatriz enche mais um copo de gelo, coloca uísque. Agora, é ele o escritor, dono de si. A mesa está na sacada, o computador na mesa. Os fones de ouvido tocam jazz. O escritor se inspira no movimento da rua silenciosa, por onde circulam, invisíveis, os fantasmas.

 

 

 

 

 

 

Jogo de guerra

 

         Você viu os corpos espalhados pelo chão? As armas, solução. Tiros cortando o barulho da manhã. Foram meninos.

 

         Menina brinca de casinha, menino brinca de guerra. Se foram tiros, eram meninos.

 

O mais novo tinha dezessete anos. Dezessete anos de apelidos. Dezessete anos de socos na cara. Dezessete anos de chutes no saco. Dezessete anos de ouvir desaforos, a boca calada à força, o olhar escondido dos outros. Dezessete anos de silêncios, de impotência e de raiva.

 

         Você viu os corpos espalhados pelo chão? Mais um show na televisão. Foi à vista de todos no sol da manhã. Era um videogame.

 

         Mãos firmes segurando o revólver, com todo o ódio do mundo. Mãos que acabam com a vida num lampejo. Mãos que não afagam, só sabem apedrejar. Mãos de menino com medo, com sonho de serem mãos de guerreiro, atirando as flechas para o inimigo. A última fase num joguinho de guerra. A vida, um jogo; o inimigo, o mundo.

 

         Na televisão, um senhor pede armas para a segurança do cidadão de bem, para matar sua sede de sangue jovem. O menino vai virar homem com o 38 na mão. Não ouvirá mais os desaforos, o silêncio, a raiva das manhãs. Será um homem valente. Todos vão se lembrar de seu nome e de seus feitos. Saberão que é um animal feroz, e as fêmeas se jogarão aos seus pés.

 

         Lá está o videogame na televisão. Um guerreiro medieval, atirando as flechas contra o dragão. Um soldado em campo de batalha, disparando contra tudo o que vê. Mas ele não consegue ver o desespero das crianças. Para ele, são caça. Veados para caçar. Ele corre atrás das presas nas salas, nos corredores, nos labirintos do inferno em que viveu. Não consegue ver a valentia da senhora que tenta impedir a sua loucura. Não consegue ver a coragem do herói que salva a namorada no meio da chuva de tiros. É ele quem atira contra todos. Nunca foi capaz de amar uma garota. Para ele, é caça. Carne negada aos seus desejos. Seu amor é o disparo de um revólver. Seu desejo é vencer a última fase do videogame de guerra.

 

Era um menino, o último corpo a cair no chão.

 

 

José Petrola, jornalista e escritor, nasceu em São Paulo em 1988. Formado em Jornalismo e mestre em Comunicação pela USP, começou a carreira como repórter na Folha de S.Paulo em 2011. Atualmente mora no Rio de Janeiro, onde concilia o trabalho na Petrobras com a literatura. Publicou contos em diversas antologias (Revista Saúva, Sinistra  Um, Prosa e Verso). Estreou como autor com “O Beco do Rato” (ed. Jaguatirica, 2018)

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Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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