ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

José Ricardo Nunes


Poemas    

01.

 

Hoje o mundo não se levanta,
sufocado em chuva e lama.
Tintoretto não virá.
A madrugada sossegou a infecção
e o telefone ficou mudo
mas a luz fez-se muitas vezes
até ser de manhã. Acordo numa cova
lisa, simétrica, leio o verso com mais de cem anos
e não acredito. As palavras já foram
rendição, moeda,
agora nem parecem escritas por mim.


 

 

 

 

 

02.

 

Que não seja contemplado com o prémio,
que jamais saia da tômbola,
devidamente ordenado e cantado,
o três oito e setenta e cinco
que o meu avô e antes o pai dele compravam
numa tabacaria ao Largo de São Paulo
e também jamais lhes saiu. E à cautela
tapo os olhos com a cautela e peço
que saia outro número, a outro
o número certo, nem à terminação aspiro.
E que me perdoe os pecados.
Agora e na hora da minha sorte.

 

 


 

 

 

03.

 

Não são meia dúzia de palavras,
feitas da mesma matéria da música,
que me salvam da obscuridade.
Depois de morto, vivo, sempre isso:
estado de obscuro; escuridão; cerração;
falta de clareza; ausência de notoriedade;
condições ou origem humilde; esquecimento;
ignorância absoluta do que se passa
ou está a acontecer; falta de lucidez;
vida isolada.


 

 

 

 

 

04.

 

Tenho perguntado com frequência, e hoje
voltaria a insistir,
se a ressurreição não poderá ser
agora, agora
o hábil compromisso da paixão com o tempo
que é dado. E por motivos igualmente legítimos
venho meditando no silêncio
e nas imperfeições que o atingem
com a magnitude a que recorre uma qualquer eternidade
para nos redimir.
Vagueio deste lado do vazio, imune
às temperaturas negativas
que desenham no terraço um gelo de troféus.
A morte comunga com a minha itinerância
mas escapa à noite, reentra
na sala, ecoa em ti.
E é por isso que a cada momento,
ao beberes um copo de água,
ao folheares um livro, quando abandonas
um livro na mesa de cabeceira
ou gastas a última energia a arrumá-lo
na estante, sem te sentires
merecedor, acabo
invariavelmente a pensar um pouco
na ressurreição, que poderia ser
agora.

 

 


 

 

 

05.

 

Ignoro o que me faz vibrar
por estes dias, obviamente
no papel um sino. Nenhum dispositivo
se accionou para o pôr a tocar nem goza o bronze
de propriedades assim tão fenomenais
que justifiquem nesta folha o desvio
às normas que regem a matéria. Improvável
que haja influência do barro
do molde, pois não foi abençoado, não foi
o sino obra do rapaz, em bom rigor
uma criança, que noutro filme de Tarkovski
desbarata connosco aflição e lição. Sem dúvida
havia nesse Março em Cádis
uma luz especial, acredito
na história que a minha mãe contou.
Mas não se propagou, não viajou
pelo tempo até à minha carne de hoje, vibra
o sino no escuro. E se dicotomicamente já escrevi
que os planetas não têm luz própria, não é de espantar
que logo elimine a hipótese absurda
de ser movido por uma pulsão
desgovernada ou coisa do género, uma iluminação
muito interior. Estou eu nisto e, nem de propósito,
vejo que nele poisou agora, numa parte do sino
cujo nome omito para não trocar por outro
(falta que já me tem valido dissabores),
uma borboleta que é tão criança quanto eu.
E para a ocorrência de que trato aqui contribuiu ela
decerto, embora em medida incerta,
já que em si se transformou em Portugal e não no Japão.
No que possam eventuais leitores pensar,
recuso pensar. Se é vaidade escrever,
maior vaidade é pensar que passará de novo por aqui
e tão entranhada convicção se deve
à sua improvável comparência. Exposta a evidência,
convém não abusar da bondade
dos que oiçam mentalmente
versos tão perversos. Um sino? Um sino
que vibra sem razão. E muito mais
teria a dizer, sem dizer de verdade muito mais,
de um sino que vibra solitário
e se lança lá do seu campanário
ao encontro do espaço sideral e não é mais
do que uma criança meteórica
a uma velocidade metafórica.


 

 

 

 

 

06.

 

Não sei, minha filha, que mundo será o teu.
Mundo, como sabes, é apenas uma palavra
e nessa precária condição pode ter o significado
que lhe quiseres dar. Porém, se lhe quiseres dar
um significado verdadeiro, mundo é muito mais
que mundo, pode mesmo ser a realidade que devia ser
em vez de ser, como já sabes, apenas uma palavra
que até um poeta de primeira grandeza jamais sabe
o que será depois de ser escrita num caderno e por alguém
pronunciada. Para mim, é uma palavra de significado
bastante reduzido. Gostaria que o seu significado
não coubesse apenas numa palavra e fosse um composto
de coisas de verdade, terras e prédios e gente
de verdade a caminhar pelas ruas. Que a injustiça
que sinto e não quero ver propagada é o significado
ausente dessa palavra grande, onde cabem os países
todos e que associamos a tudo o que nos rodeia,
associo desde logo a ti, que és o mundo. O mundo,
um mundo, mundo apenas, prescindo de aludir às variáveis
que a língua compreende e nos desorientam ainda mais.
Basta que não a ligue a nada de palpável para perder
significado. Posso escrevê-la, proferi-la e nada ter
depois a que relacioná-la, apenas ao eco
quando a traz de volta ou à leitura, por exemplo,
de um poema tão sentido quanto aquele
que Jorge de Sena dirigiu aos filhos. O teu mundo
não sei como será, Beatriz. Mas seja o que for,
com terras e prédios e gente a caminhar pelas ruas,
só espero que seja um mundo de verdade mesmo. Só peço
que a palavra mundo não se torne num lugar vazio
no dicionário, sem nada ter por referência,
como sucede com o meu, não sei porquê.
Igual, de resto, ao que sucede com outras palavras,
desde logo com a palavra amor, que também não sei se serve
ao que sinto, como já te disse, e não contém todo o amor
que sinto por ti, tão vasto quanto um mundo de verdade.
Só peço que o teu não se desfaça assim. Que o mundo
dá um imenso trabalho a refazer se for coisa de verdade
e não apenas uma palavra bem escolhida, dessas que demoram
a escolher mas alguém decide pôr dentro de um poema,
apesar de ser uma palavra grande demais e ter pouco
significado para mim. « O mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é
nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente .»
O teu não sei o que será. Só peço que tenha ainda melhor
significado do que aquele que hoje imaginas de verdade
merecer. Mundo, como sabes, é apenas uma palavra
e nessa precária condição pode ter o significado
que lhe quiseres dar.


 

 

 

 

 

07.

 

E então Agosto,
já o autocarro atropelara Miss Bobitt,
já esta ideia física
da retroversão se tornara próspera,
infestante, Agosto
chegou e houve a partilha dos bens:
lençóis e atoalhados,
o móvel chinês,
as sobras da alma,
a realidade –
compreende, Milady?

 

Estratificou-se, o mês de Agosto,
camadas e camadas,
imagens sobrepostas,
soprava a ventania, eu
perguntava-me se tinha paixão
e media os níveis –
abissais,
febris.

 

E quando lhe li o poema –
o corpo marcado na colcha,
a colcha aos pés da cama,
a cama suspensa no ar,
o ar em ferida – eu
só queria mesmo alargar a ferida
do ar, propagá-la,
torná-la nesta chaga viva
que origina uma torrente
cheia de nós,
grossa e borbulhante,
esbanjada com alegria.

 

Li-lhe acerca da paixão
que os homens podem ter
pelas coisas gerais
e no escuro também eu
avancei por ela para dentro
e mais dentro de mim.

 

Só queria de Agosto
que me cuspisse a carne
de animal desmanchado
que o caseiro deixou
num tampo de pedra
com a minha memória
para voltar a servir-me
sem jamais me bastar.

 

Programa:
desunir-me do sopro
quente que me achou e fez
inteiro vacilar
numa vastidão de nomes
e de estrelas, o polegar
da mão direita no topo
da página, os dedos todos
da mão esquerda conjugados
com o corpo elevadíssimo, pregador,
letrinha miúda, embrenhada, indistinta
do mundo.

 

 


 

 

 

08.

 

Copérnico, sentado nos degraus da igreja,
conversa longamente com a minha biografia,
dá-lhe explicações que atenuam
os efeitos secundários da tua ausência
mas esquiva-se à resposta directa,
talvez porque no escuro do quarto
a voz pode gerar um eco incontrolável.

 

Mesmo sendo tu a intermediar,
haverá sempre contrariedades nas ligações
entre o reino dos vivos e o reino dos mortos.
E a verdade é que o silêncio de Copérnico,
dissimulado atrás de palavras acerca do tempo,
tão impossível de medir
quanto o alcance das ondas de choque
de uma valente carga explosiva,
acaba por dizer mais do que um compêndio grosso,
em papel de bíblia,
cheio de teorias e demonstrações
que esbarram na realidade do meu corpo,
em permanente desequilíbrio gravitacional.

 

A ideia continua a ser a mesma indistinção
do sol a puxar para si os planetas
e a compactar num volume disforme
guindastes, cotovelos, escadas rolantes, lâmpadas.
Entretanto a chamada cai de vez.
A milhares de quilómetros da proximidade
mantenho-te na boca, para não mais
acabares, como um rebuçado de vidro moído.

 

 


 

 

 

09.

 

Havia de ficar na sala do concílio
a aguardar pela contagem dos votos,
já com plena consciência
de que Roma não me quer Papa,

 

ou continuar a ser Jonny Wilkinson,
de mãos postas a apontar aos postes
cravados noutra ilha,

 

avançar um pouco
para explicar ao casal de fuinhas
que o marido lhe morreu na semana passada
e por isso vai ela tão triste ainda mais adiante,
não por receio dos foragidos,
que esses seguram a cabeça com a firmeza
de árvores que seguram os solos.

 

Enquanto me serves o café,
a minha única certeza
aparafusa-me a alma ao corpo:
a temperatura voltará a descer
mais uns graus
aí pelo início de Dezembro
como todos os anos sucede.

 

Nenhuma outra convicção justifica
que saia da cama de pistola em punho,
decidido a recapturar os sonhos
que vieram durante a noite transmigrar-me
para depois escaparem como prisioneiros
que preferem o frio e a ausência de forma
ao cubo da vida

 

e deixaram na parede as palavras incompletas
que a minha voz, num atropelo,
me ordenará também que persiga,

 

mesmo quando já não houver luz
por dentro da terra.

 

 


 

 

 

10.

 

ao trigésimo dia
provavelmente o corpo já
se habituou à ideia

 

desunem-se as células
soltam-se os órgãos
a alma deambula com toda a liberdade
enquanto espera
consegue até olhar sem nojo
pela grade de ferro
para os ossos que se amontoam
ainda mais abaixo

 

uma cruz negra
na parede moída
em Santa Maria delle Anime del Purgatorio ad Arco
em qualquer lugar
deitado nesta cama
a escrever que já morri
ao trigésimo dia
no mesmo desamparo
em que me encontro agora

 

e tanta gente
Ciro Gallucci
Emanuele Stefanoni
Monica Fanucci
Giuseppe Bernadeschi
colam papéis nas paredes
a anunciar as missas

 

lembra-se a alma por mim
dos que deveras me amaram
e dos que me foram queridos
dos que apenas por obrigação
irão ajudá-la a subir
quando for o momento
e nem então houver remédio

 

si dispensa dai fiori
il presente vale anche per ringraziament

 

 

José Ricardo Nunes (Lisboa, 1964). É licenciado em Direito e mestre em Literatura e Cultura Portuguesas — Época Contemporânea. Publicou poesia, ensaio e ficção, estreando-se na poesia com “Rua 31 de Janeiro — Algumas Vozes” (&etc, 1998). Tem colaborado em diversas publicações nos dominios da poesia e ensaio e critica. As suas obras mais recentes são os volumes de poemas “Andar a Par” (Tinta-da-China, 2015) e “Classico” (Companhia das Ilhas, 2019).

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Janeiro de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alfonso Peña, Amirah Gazel, Ana Romano, António de Miranda, Antônio Torres, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Casé Lontra Marques, Cecília Barreira, Clécio Branco, Delalves Costa, Deusa d’África, Eduardo A. A. Almeida; Fernando Sousa Andrade, Eliana Mora, Francisco Marcelino, Geronimo Lobo, Helena Mendes Pereira, Hermínio Prates, Inés Aráoz, Inés Legarreta ; Rolando Revagliatti, J. R. Spinoza, José Arrabal, José Manuel Teixeira da Silva, José Petrola, José Ricardo Nunes, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Makely Ka, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Nicolas Behr, Otildo Justino Guido, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rosângela Vieira Rocha, Silas Correa Leite, Ulisses de Carvalho, Waldo Contreras López, Wil Prado


Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR