ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Ulisses de Carvalho


Poemas II    

Coexistência

não tenho classe.
não tenho
bons modos.
não vim para ser
complacente
a qualquer custo.
não sou água
com açúcar.
não sou indireto.
não tenho medo
do que quer dizer
aquilo que digo.
não me meço
por números,
diplomas,
curtidas,
cédulas.
não valho,
para mim,
o que eu tenho,
eu sou, para mim,
o que eu sou.
não sou um autômato.
não sou cidadão de bem,
admito que erro também.
entre a matéria
e o impalpável,
a convivência
é uma arte
- e a arte também
é indômita, espinhosa.
não sou unilateral.
assumo minhas sombras:
em cada um de nós
brilha um sol por dentro
e há também o escuro
sombrio das madrugadas.

 

***

 

 

 

 

 

 

Um naco de simplicidade

 

benditos os que fazem
o almoço de domingo
enquanto cantam, dançam
e riem de si mesmos
ouvindo qualquer estação
mais popular de rádio,
os que nem estão pensando
em dizer nada de mais,
nada de muito eloquente,
nada de grandiloquente,
nada de impressionante,
apenas sentindo o cheiro
da cebola fritando no óleo
enquanto o cachorro e o gato
correm da sala para a rua.

 

benditos os que
nem se pensam poetas
- ou não se sabem -,
mas que veem poesia
onde quase ninguém
mais consegue,
olham além da janela
enquanto cozinham
e percebem que o sol
não é apenas
uma bola amarela no céu,
notam sempre todos
os desenhos feitos
por todas as nuvens
e não perdem a capacidade
de serem surpreendidos por elas
porque não estão olhando somente
para dentro de si mesmos
- transparentes para que não tenham
com o que lhes manchem, vivem.

 

***

 

 

 

 

 

 

Horizontes

 

lá onde áfricas
escondem-se
vejo apenas
uma linha
a separar
a água de lá
da água de cá
mas se o traço
da noite escura
essa linha pinta
agora retinta
já não posso
enxergar
águas de azuis
diferentes
misturam-se
pretas-azuladas
fundem-se
em um mesmo mar.

 

***

 

 

 

 

 

 

Distância

 

daí me ouves
através do Atlântico
pela costa que separa
todos os teus relevos
do meu corpo mais ao Sul

 

(planaltos
e planícies
sob o céu
desta noite)

 

e dentro do meu peito
um grito irrefreado
a estourar nossas estrelas.

 

***

 

 

 

 

 

 

Fagulha

 

uma claridade nos acende
por dentro - dentro em nós
onde existe uma chama
que queima sem incendiar
fogo silencioso ardendo aceso
como se um vento atiçando
(rajada de força invisível)
qualquer resquício
de faísca
fizesse surgir um secreto clarão
que nos iluminasse
e alimentasse
e só nós pudéssemos enxergar.

 

***

 

 

 

 

 

 

Panaceia

 

absorver máximas e cultivá-las
desenrijecer antigas estruturas
cá na Terra, vale até mesmo a fé
em um para-choque de caminhão
ou, se for ousar novos caminhos,
até trocar os pés pelas mãos
plantar bananeiras,
praticar infinitivos:
crer, infundir, buscar...
e, para nunca se arrepender
de não ter tentado, tentar.

 

***

 

 

 

 

 

 

Órbita

 

somos mais do que
o que dizemos
ou ainda podemos ser menos -
dizer é também ficar restrito
como olhar para trás da órbita
e enxergar apenas um detrito
do universo inteiro
que por dentro temos.

 

***

 

 

Ulisses de Carvalho nasceu em Torres, no Sul do Brasil, é geminiano com ascendente em escorpião, alguns de seus poemas já foram publicados em jornais e revistas (NotaTerapia, Literatura & Fechadura, A Bacana, Amaité poesias & cia, Zona da Palavra, etc.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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