ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Helena Mendes Pereira


"DO OUTRO LADO”, exposições individuais de Jayme Reis e Zélia Mendonça - Fundação Bienal de Arte de Cerveira    

A Fundação Bienal de Arte de Cerveira convida o público a visitar as exposições dos brasileiros Jayme Reis e Zélia Mendonça.
"DO OUTRO LADO",  JAYME REIS + ZÉLIA MENDONÇA
As exposições têm a curadoria de Helena Mendes Pereira e Cabral Pinto.
A Fundação Bienal de Arte de Cerveira convida o público também a revisitar a sua Coleção. O museu oferece também visita guiada, orientada por Helena Mendes Pereira.
Local: Galeria, Museu Bienal de Cerveira
Organização: Fundação Bienal de Arte de Cerveira
Apoio: Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira

 

Horário: terça a sexta-feira: 15h00 às 19h00; sábados e feriados: 10h00 às 13h00; 15h00 às 19h00
LOCAL: Fórum Cultural de Cerveira
Avenida das Comunidades Portuguesas, Vila Nova de Cerveira. Portugal

 

Helena Mendes Pereira

 

Verdade Tropical, de Caetano Veloso (n.1942), marcou em mim uma fase de descoberta da cultura brasileira, num caminho que se iniciou, como em muitos, com o samba e a bossa nova, se arrastou para a literatura e desembocou nas plasticidades performativas e neoconceptuais de Hélio Oiticica (1937-1980) e Lygia Clark (1920-1988) que resgatam um princípio de tropicalidade mestiça que, independentemente da imensidão e pluralidade de um país achado pelos portugueses, nos reportam para um universo identitário comum capaz de comunicar universalmente.

 

 

Exposição de Zélia Mendonça, detalhe. Galeria, Museu Bienal de Cerveira.

 

 

Exposição de Zélia Mendonça, detalhe. Galeria, Museu Bienal de Cerveira.

 

Jayme Reis (n.1958) e Zélia Mendonça (n.1957) são velhos amigos de Vila Nova de Cerveira e não é a primeira vez que os acolhemos em residência artística.

 

Jayme Reis foi, inclusivamente, prémio aquisição na XX Bienal Internacional de Arte de Cerveira e ocupa, no seu país e a nível internacional, um lugar de reconhecimento enquanto artista multimeios que explora uma espécie de universo surrealista, satírico e interventivo, através da manipulação de imagens, das narrativas humorísticas e da associação livre de objetos do quotidiano que se cruzam na sua demanda intelectual e de pensamento.

 

 

Uma das obras da xxposição de Jayme Reis. Galeria, Museu Bienal de Cerveira

 

Zélia Mendonça, também autodidata, tem um percurso artístico mais recente mas já, também, de alcance internacional, explorando de forma artesanal as potencialidades do têxtil e da costura, combinando, numa imagética pictórica e textural intensa, objetos e elementos tais como botões, alfinetes, bijuteria, rendas e bordados, que potenciam a criação de obras complexas e mergulhadas num contexto eminentemente feminino.

 

 

Exposição de Zélia Mendonça, detalhe. Galeria, Museu Bienal de Cerveira.

 

O trabalho de ambos trás consigo uma forte marca de intervenção cívica e peja-se de semióticas políticas que nos fazem recuar à contracultura que emerge entre 1964-1985, período da ditadura militar brasileira. Sem afirmar que o caminho se faz num mesmo sentido que naquele período concreto da História, facto é que o mundo foi desafiado a pensar o Brasil e o seu futuro nas consequências de um processo democrático que colocou Bolsonaro (n.1955) no poder de um país em busca de si mesmo.

 

DO OUTRO LADO, exposição patente no Fórum Cultural de Cerveira até 8 de fevereiro de 2020, é assim a combinação de duas propostas individuais, UM DIA NA VIDA DE DIOGO CÃO e TRAMAS, respetivamente de Jayme Reis e Zélia Mendonça, que são consequentes de um período de cerca de seis semanas que os artistas passaram no Alto Minho. Não obstante a oposição quase metodológica das propostas de trabalho de cada um, facto que é que do outro lado do Atlântico quiserem trazer-nos uma visão do Brasil que não descura, antes pelo contrário, o achamento por Pedro Álvares Cabral em 1500 e tudo o que entretanto se seguiu até aos dias de hoje.

 

Jayme Reis apresenta, então, uma espécie de retrospetiva da sua história em Portugal ao longo dos últimos três anos com um conjunto de gravuras, linoleogravuras e desenhos que evidenciam a sua inteligência e sagacidade criativa e que, de alguma forma, colocam a fantasia nesta ideia de Diogo Cão, navegador da grande História dos Descobrimentos, possivelmente nascido em Vila Real e cuja descendência se perdeu até aos dias de hoje, facto que intrigou o nosso artista e aguçou a sua vontade de pensar a partir deste ponto, tirando proveito das possibilidades da gravura enquanto técnica e dando resposta à sua veia experimentalista e de constante aprendizagem de novas formas de apresentar a imagem.

 

 

Jayme Reis, obra em exposição. Galeria, Museu Bienal de Cerveira.

 

Zélia Mendoça, por sua vez, aborda o tema da colonização e da exploração do Brasil por terceiros e pelos seus próprios gestores, num tempo conceptual que começa, igualmente, com os Descobrimentos e que chega até à mais recente catástrofe na Amazónia. Leva-nos até aos índios e convida-nos a vestir máscaras e capas, sem nos deixar perceber se, na essência, somos tribais ou burgueses. O seu trabalho, de exímia execução e com um caráter eminentemente instalativo, ocupa um espaço em crescente nas artes plásticas e visuais, dedicado a uma produção contemporânea que bebe no artesanal e se reveste de hipóteses de leitura. Os dorsos de mulher de Zélia Mendonça, mais do que mulheres vestidas de cores e diferentes materiais, são mapas de símbolos, altamente personalizados e que nos levam numa viagem do superficial ao íntimo.

 

 

Exposição de Zélia Mendonça, detalhe. Galeria, Museu Bienal de Cerveira

 

DO OUTRO LADO é, assim, uma proposta e um convite para olhar o Brasil e pensar, não no que há de nosso lá, mas o que há de lá em nós, europeus. Como Caetano, também alguns de nós irão continuar a preferir descobrir a formação gradual de identidades transatlânticas em que o Nouvelle Vague e o tropicalismo são duas formas, convergente, de ação política através da Arte.

 

1 VELOSO, Caetano – Verdade Tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Página 240.

 

 

 

 

Helena Mendes Pereira (n.1985) é curadora e investigadora em práticas artísticas e culturais contemporâneas. Amiúde, aventura-se pela dramaturgia e colabora, como produtora, em projetos ligados à música e ao teatro, onde tem muitas das suas raízes profissionais. É licenciada em História da Arte (FLUP); frequentou a especialização em Museologia (FLUP), a pós-graduação em Gestão das Artes (UCP); é mestre em Comunicação, Arte e Cultura (ICS-UMinho) e doutoranda em Ciências da Comunicação, com uma tese sobre Mercado da Arte no pós 25 de Abril de 1974. Atualmente, é chief curator da zet gallery (Braga) e integra a equipa da Fundação Bienal de Arte de Cerveira como curadora e no apoio à coordenação artística, tendo sido com esta entidade que iniciou o seu percurso profissional no verão de 2007. No âmbito da educação e mediação cultural orienta, regularmente, visitas a exposições e museus de Arte Contemporânea, tendo já lecionado o tema em várias instituições de ensino. Integra, desde o ano letivo de 2018/2019 o corpo docente da Universidade do Minho como assistente convidada. É formadora sénior e consultora nas áreas da gestão e programação cultural. Publica regularmente em jornais e revistas da especialidade, tais como o quinzenário As Artes entre as Letras, nas revistas RUA e UMBIGO. Com mais de 12 anos de experiência profissional é autora de mais de 80 projetos de curadoria, tendo já trabalhado com mais de 200 artistas, nacionais e internacionais, onde se incluem nomes como Paula Rego (n.1935), Cruzeiro Seixas (n.1920), José Rodrigues (1936-2016), Jaime Isidoro (1924-2009), Pedro Tudela (n.1962), Miguel d’Alte (1954-2007), Silvestre Pestana (n.1949), Jaime Silva (n.1947), Julian Opie (n.1958), Vhils (n.1987), Joana Vasconcelos (n.1971), Helena Almeida (1934-2018), entre tantos outros. Tem larga experiência em estudos de coleções, produzido e publicado extenso trabalho crítico sobre arte e artistas contemporâneos, onde se incluem catálogos e outros resultados de investigações mais profundas sobre artistas e contextos de curadoria. É membro fundados da Astronauta, associação cultural com sede e Guimarães e em 2019 publicou o seu primeiro livro de prosa poética, intitulado “Pequenos Delitos do Coração”.

Jayme Damasceno dos Reis Filho,1958; Jayme Reis, artista plástico brasileiro autodidata e multidisciplinar, nasceu em Itabira-MG, onde viveu até 1970, quando se mudou com a família para Belo Horizonte. Teve sua infância, ética/estética afetadas pela delapidação moral e cultural de Itabira pela atividade mineradora. Sua obra é atravessada por tais questões na forma de símbolos/signos sempre impregnados de novas contaminações a que se expõe no cotidiano das cidades em que reside, em viagens. Inicia a produção artística através da cerâmica e em 1980 realiza a primeira exposição individual; viaja em estudos à Europa, retorna a Belo Horizonte e se dedica a suas séries de gravuras e objetos. Em Blumenau e Florianópolis dá início à série dos Barcos, ainda hoje motivo\arquetipo instigante para o artista. Universo próprio, poética multifacetada, multiplicidade de temas a revelar imagens inusitadas de objetos do cotidiano e sua vertente iconoclasta evidenciam sua presença na Arte Contemporânea Brasileira. Desde 2017 divide seu tempo entre Brasil e Portugal, onde obras suas integram a Coleção Lusofonias-Perve Galeria, Lisboa. Em 2018 foi premiado pela Bienal Internacional de Arte de Cerveira.

Zélia Mendonça, artista brasileira, de Minas Gerais, (n.1957) é uma artista visual autodidata e doutora honoris causa em arte e cultura pela Faculdade de Ciências e Artes Lauro de Freitas, Universidade Unip Pólo Lauro de Freitas, Faculdade de Ciências e Artes de Paris, Conselho de Defesa dos Direitos Humanos, Comissão de Educação/Lauro de Freitas, Bahia. Em 2008, recebe o Prémio Vitória Alada, Ordem dos Parlamentares do Brasil, São Paulo, Brasil; e, em 2014, recebe a Comenda da Liberdade e da Cidadania, Fazenda do Pombal, D.F., Brasil. As distinções vêm reconhecer a dimensão cívica e interventiva da sua personalidade que a levam a encontrar na Arte, mais do que um meio de expressão, uma forma de afirmação de ideias e valores vinculados, sempre, à observação atenta e preocupada que faz do seu Brasil.

A artista estreia-se, apenas aos 58 anos, com uma exposição individual intitulada Encontro, em Tiradentes, no Brasil. Nesse mesmo ano, no âmbito de uma exposição coletiva, com curadoria de Heloiza Azevedo, ganha o segundo lugar pelo júri popular, em Paris, França. Desde então, tem vindo a expor individual e coletivamente, em vários pontos do Brasil, em Espanha, Áustria, França, Itália ou Portugal, incluindo-se no currículo museus públicos e privados, galerias e outras instituições culturais e sendo já recorrente a sua presença em alguns dos eventos que marcam a arte contemporânea em Portugal e nos quais se insere a Bienal Internacional de Arte de Cerveira. DO OUTRO LADO resulta de um processo de residência artística que Zélia Mendonça levou a cabo, em Vila Nova de Cerveira, no outono e novembro de 2019.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


FICHA TÉCNICA


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Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Janeiro de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alfonso Peña, Amirah Gazel, Ana Romano, António de Miranda, Antônio Torres, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Casé Lontra Marques, Cecília Barreira, Clécio Branco, Delalves Costa, Deusa d’África, Eduardo A. A. Almeida; Fernando Sousa Andrade, Eliana Mora, Francisco Marcelino, Geronimo Lobo, Helena Mendes Pereira, Hermínio Prates, Inés Aráoz, Inés Legarreta ; Rolando Revagliatti, J. R. Spinoza, José Arrabal, José Manuel Teixeira da Silva, José Petrola, José Ricardo Nunes, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Makely Ka, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Nicolas Behr, Otildo Justino Guido, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rosângela Vieira Rocha, Silas Correa Leite, Ulisses de Carvalho, Waldo Contreras López, Wil Prado


Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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