ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Reflexões Matutinas    

Acordo cedo. Espera-me o trabalho em uma tese de doutorado. A coisa é urgente, estou para lá de atrasado, preciso correr. E o faço. Escapo ágil do texto acadêmico, a minha disposição é escrever livremente, sem precisar citar autores estrangeiros não do meu convívio, desconhecidos, ignorantes de minha realidade brasileira. Cada vez mais torna-se difícil produzir um material para mim tão aborrecido, às vezes me pergunto qual a razão de ter me enfiado em tal empreitada. Não devia querer ser doutor em porra nenhuma.


Antes de me sentar para escrever ficção, afinal é o meu tesão, tenho ânsia deixar fluir um montão de palavras em determinados momentos, resolvo sair, comprar mantimentos, abastecer algumas prateleiras e a geladeira de casa. Sei bem, geralmente é assim, no fundo estou enrolando, procrastinando o começo de qualquer atividade produtiva. Pura preguiça. Talvez devesse ter virado para o lado e continuado a dormir. Mas no exato momento em que abro os olhos, cotidianamente, e sinto o calor do travesseiro me esquentando as orelhas, um enorme sentimento de culpa me invade, impede-me de continuar descansando. Ouço uma vozinha cruel e autoritária martelar meus ouvidos, minha esquizofrenia particular:


- Levante, vagabundo, vai trabalhar!


Obedeço. Para depois ficar vagando, inquieto, perdido em meio à falta de disposição para realizar qualquer coisa.


Tomo café na padaria, afinal preciso tornar a manhã um pouco mais agradável, expulsar do meu peito a agonia por estar sendo relapso.


No supermercado, estabelecimento contíguo ao local onde tomei o desjejum e aproveitei para discutir futebol com o Rodrigo, rapaz solícito e sempre perfeito no atendimento, passeio com o carrinho. Uma criança esbarra em mim, a mãe se desculpa, não precisava. Puxo da memória algumas necessidades, em pouco tempo dou conta de reunir os víveres provavelmente não tão urgentes, embora úteis, afinal de contas meu intuito maior foi mesmo perambular em ócio não criativo.


No caixa um senhor está à minha frente. Uma negra simpática, jovem, e muito bonita, sou freguês do estabelecimento e ela costumeiramente me atende, cumprimenta-me:


- Bom dia, como vai o senhor?


Respondo fazendo alusão ao fato de estar bem, mas com um pouco de sono. Ela se identifica comigo, e revela também ter muita vontade de dormir. Diz isso quase bocejando. O senhor da minha dianteira, com um riso acanalhado, comenta:


- Também, para arrumar os seus cabelos, é necessário levantar pelo menos uma hora antes.
Ela sorri, comentando o fato de ele ser useiro e vezeiro em falar de seus cabelos. Por sinal realmente bem tratados. Cheios de dreads, assumindo toda a beleza afro. Lindos!


Quando o fulano paga e se retira, comento:


- A gente brinca, mas há muito racismo na fala desse sujeito.


A moça concorda, afirma ser um hábito dele.  Respondo pontuando que não devemos permitir, as pessoas precisam aprender a tirar o veneno das falas. O mundo mudou. O empacotador, também negro, muito sério declara:


- Ao menos serviu para a gente conhecer alguém com um pensamento não imbecil. O dia começou bem.


Saio dali com real vontade de escrever. Agora vou conseguir.


Jan/2020

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior. Professor de Literatura na FMU.  Mestre e doutorando em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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