ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: Sem pressão...    

 (Em homenagem a JANEIRO BRANCO – mês de cuidados com a saúde mental)

 

Mal começou o ano, o glamour das festas passou, e você já se sente cansado, ansioso, preocupado com dinheiro, contas, pendências, impostos, colégio dos filhos, mil e outras cositas más? Respire fundo: tensões acontecem nas melhores famílias, até mesmo com aquela artista famosa que ganha milhões, e que revelou publicamente sua inquietação, pois ao fazer seu check-up anual, o médico "descobrira" que ela estava com estresse. Que me desculpe a beldade, mas então não devia ser um estresse tão grande assim, já que o de derrubar-quarteirões a gente diagnostica por conta própria, rapidamente, com base em alguns sintomas bastante evidentes:


Primeiro, começa-se a perceber o cansaço a partir dos inocentes barulhos diários, que de repente parecem aumentar de volume, irritando o pavilhão auricular. O liquidificador, então, enlouquece, e as vozes humanas, agridem. Tenta-se fugir deles, mas sempre esbarramos com a televisão, com o latido do cão do vizinho, com o martelo, com o CD na sala em altos brados, com os galos que resolvem cantar justamente todos em coral, ao mesmo tempo, sob sua janela, em uma serenata matinal.


A luz também passa a incomodar. Aí, como os gatos, você fecha os olhos para diminuir a claridade luminosa, e a tendência, mesmo que você seja solar, é mudar totalmente o seu horário: você prefere viver mais de noite, o que, além de maior fadiga (de manhã voltam todos os barulhos) ainda lhe acrescenta a sensação de culpa por estar dormindo demais e lembra aquela letra do Chico: vai trabalhar, vagabundo... Você começa a se sentir quase que uma coruja, e teme uma metamorfose gradual, como o personagem do filme “A mosca”. Assustado, você pensa inquieto: será que vou começar a piar hoje?


O bom humor tende a hibernar, bocê começa a não querer encarar perguntas difíceis, embora passe a formular questões existenciais do tipo: por quê todo biscoito de rosquinha tem um buraco no meio? Naturalmente, não convém tumultuar o cérebro tentando achar resposta a um enigma filosófico tão complexo; e também não se aprofunde, de jeito nenhum, se por acaso estiver pensando sobre a morte da bezerra – neste caso, além de estressado você pode ficar deprimido. Feche os olhos e imagine-se em um lugar calmo, bonito, aprazível e seguro, imediatamente, antes que nem isto seja possível.


Tentando reagir, e já que você se teletransportou para uma praia paradisíaca ou para um resort de luxo em Bali ou nas Bahamas, você pensa em largar tudo e viajar, permitir-se um ano sabático, totalmente ocioso (você naturalmente leu o elogio do ócio, no livro de Thoreau); mas na prática do dia a dia trabalha cada vez mais para poder realizar o seu sonho. E fatigado, até pensar em fazer as malas já lhe parece esforço em demasia.


Descartada a viagem internacional, você resolve ir só à praia mesmo, ou a um cineminha; de qualquer modo seu pouquíssimo entusiasmo contrasta com a disposição dos amigos, tão animados e cheios de pique; é neste exato momento que cai a ficha (demora um pouco, porque estamos sempre ocupados demais para nos observarmos atentamente) – “será que há algo de errado comigo?”. É a hora então em que você tenta energizar-se com saudáveis sucos, detox, vitaminas, ginseng, ou cafeína, coca-cola, guaraná, maca peruana, etc.; mas alguns destes produtos só aumentaram sua libido sexual, ou seja, aumentaram o problema, já que você não tem a mínima disposição para tanto....


Dependendo do grau e do tipo do seu estresse, você pode ser um estressado manso, como Atlas, que carregava o mundo diariamente, sem reclamar das dores nas costas; mas, na hipótese de ser um estressado agressivo, cuja reação é a de brigar com a própria sombra, é bom não descontar nos gatos, nem nos cachorros ou nos pratos da casa (lembre-se que você não é grego), pois, se passar o estresse (e nada dura para sempre), você vai ficar é doente ao receber a conta do prejuízo pelo conserto do quebra-quebra ou do veterinário.


O estressado não está no clima de "conversando é que a gente se entende" porque, já disse antes, as vozes humanas de repente lhe soam estranhas e por isso ele não quer papo; neste caso, é comum ele flagrar-se olhando para a boca do seu interlocutor, como se assistisse à mímica de um playback, sem entender o que ele está falando. Como você não é do tempo do cinema mudo, a primeira vontade é a de pedir para a outra pessoa calar-se, mas, ainda bem que se contém a tempo, para não ser chamado de mal-educado, ou até pior, de parecer uma pessoa perigosamente antissocial. Mesmo que este seu modo brusco possa confundir as pessoas, não explique nada na hora, porque muitas vezes pior a emenda do que o soneto; é difícil que entendam (a não ser que você explique ou desenhe...) que conversas triviais em geral exaurem, desgastam mais ainda, daí suas respostas serem secas, não por estar zangado, ou entediado, apenas porque economizar palavras poupa fôlego.


O lado bom do estresse é que ele aumenta a criatividade. É comum arranjar-se as desculpas mais mirabolantes para não se sair de casa, mesmo que elas soem escandalosamente falsas; não importa, qualquer coisa é melhor do que a ameaça de mover-se em direção à rua. Se a criatura em questão é dada à literatura, melhor ainda, aproveitará as trocas de letras das palavras, fato comuníssimo nas épocas de maior fadiga, e as transformará, posteriormente, em textos riquíssimos de efeitos visuais, aliterações, metáforas, metonímias, hipérboles, anáforas e outras belas figuram de linguagem.


Deixei por último o sintoma mais característico do estressado: a divagação. A mente passeia, dá de flanar, vai longe. Às vezes, o branco é tão grande, que de repente o indivíduo flagra-se mexendo no mouse, movimentando-o na tela para baixo e para cima, de lá para cá, perguntando-se o que estava a fazer antes do tal lapso. Voltando a si, tenha calma, nada de pânico, mesmo que demore uns segundos, logo a memória volta, e você recorda-se afinal, triunfante: ah sim, é verdade, eu estava escrevendo uma crônica...

 

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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