ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Makely Ka


Algumas palavras sobre o show de encerramento da Turnê Clube da Esquina    

Quem me conhece sabe que eu evito shows grandes, com palcos gigantescos e milhares de pessoas. Detesto as filas, o empurra-empurra, a gritaria, mas sobretudo o som alto e ruim, a visibilidade precária, a dispersão geral. Dito isso, domingo abri uma exceção para assistir ao encerramento da turnê Clube da Esquina, com Milton Nascimento e vários convidados.

 

Foi um show histórico em que Bituca recebeu no palco os companheiros de geração Lô Borges e Flávio Venturini, que o acompanham desde os anos 70, ou ainda antes, como Wagner Tiso com quem ele convive desde a infância em Três Pontas. Teve ainda a participação de Samuel Rosa, Maria Gadú, Criolo e Maria Rita. A banda contou com Wilson Lopes nas guitarras, violão, viola caipira e direção musical, Alexandre Ito no contrabaixo,  Ademir Fox no piano e teclados, Widor Santiago no sax e flauta; Lincoln Cheib na bateria, José Ibarra no violão e vocais e Ronaldo Silva na percussão. O cenário, inspirado na capa do primeiro disco Clube da Esquina foi assinado pelos Osgemeos e a direçãoo artística do filho do Bituca, Augusto Nascimento.

 

É estranho assistir um show desses no gramado do Mineirão. Na entrada um público diferente daquele que se vê nos grandes shows de arena. Muita gente com mais de sessenta, mas também muito jovem.  Me encontrei com Juarez Moreira e Toninho Horta próximo do portão de entrada. Toninho fazia fotos com os fãs que aguardavam na fila e elogiavam sua paciência e simpatia.

 

Depois de passar pela revista, quando descia as escadas, recebi um cartaz tamanho A3 onde havia uma foto de Milton com a frase “Bituca eu te amo”. No fundo do cartaz a marca de uma cerveja. As pessoas que entregavam os cartazes diziam que fazia parte da “homenagem”. Achei estranho e deixei a cartaz em cima de um balcão.

 

Entrei no estádio às 17h30, o show começaria somente às 19h. Antes exibiram nos telões alguns vídeos. Trechos de um documentário com membros do Clube que será exibido na Netflix. Orientações de segurança. Indicações sobre o uso dos cartazes. Ficamos aguardando. Das cadeiras na ala inferior desci para a pista em frente ao palco, que ocupava a frente da grande área num vértice formando um ângulo de aproximadamente 120 graus em relação à arquibancada. Cabia ali, pelos meus cálculos, umas 20 mil pessoas.

 

Música brasileira rolando antes do show. Sá, Rodrix e Guarabira, Secos e Molhados, Belchior. Poucos minutos antes do início do show soltaram uma versão instrumental de “River Phoenix (Letter to a young actor)”, música que Milton fez em homenagem ao talentoso ator morto precocemente. O irmão do Coringa. Quem identificou foi meu amigo audiófilo Manoel Amaral.

 

Chegam os músicos e finalmente Milton entra no palco de braços dados com dois assistentes, com seu passo miúdo, frágil, até o centro onde está sua cadeira. Começou com “Tudo que você podia ser” do primeiro disco do Clube, de 1972, canção icônica de Lô e Márcio Borges. Em seguida “Dos Cruces”, do basco Carmelo Larrea. A terceira foi “Um Gosto de Sol”, também do primeiro disco, a primeira do próprio Milton em parceria com Ronaldo Bastos. "Casamiento de Negros", do folclore chileno recolhida por Violeta Parra e registrada por ele no segundo disco do Clube veio na sequência. São músicas que eu nunca havia ouvido ele cantar ao vivo e talvez por isso esse foi um dos momentos em que fiquei muito emocionado.

 

Ele chama o primeiro convidado, Samuel Rosa, que canta com ele “Um Girasol da Cor do Seu Cabelo” e “Paisagem na Janela”, canções que o vocalista do Skank costuma fazer nos shows em que divide o palco com o autor das melodias, Lô Borges. A primeira tem letra de Márcio, a segunda de Fernando Brant.

 

Nessa hora um rapaz que estava ao meu lado desmaiou. Foi aquele deus-nos-acuda e eu convoquei meu amigo Manoel, que além de audiófilo também é médico, para socorrer o rapaz. Ele deu assistência ao moço desfalecido e continuamos a ver o show.

 

Depois entrou Flávio Venturini e cantaram outra do Lô, “Nuvem Cigana”, essa com letra de Ronaldo Bastos. Então o ex-14 Bis foi para o piano e fizeram “Nascente”, dele e do Murilo Antunes registrado no Clube de 78.

 

Em seguida subiu ao palco a simpática Maria Gadú, que cantou com o anfitrião o clássico de Nelson Ângelo e Fernando Brant, "Canoa, Canoa", do disco de 78. Ainda cantou "Cravo e Canela", de Milton e Ronaldo Bastos. Foi bonito.

 

Depois de “Lília”, homenagem à sua mãe, Milton anunciou a participação de Lô Borges. Contou sobre o encontro deles no Edifício Levy, no centro de Belo Horizonte e juntos cantaram do primeiro disco "Clube da Esquina nº 2", dos dois com letra de Márcio Borges. Aí veio "O Trem Azul", de Lô e Ronaldo Bastos gravada também por Tom Jobim. Em seguida Lô chamou Samuel de volta ao palco e fizeram "Trem de Doido", dele e do Márcio Borges.

 

Milton saiu do palco e Wilson Lopes fez um solo de viola arrebatador, com direito até a citação de “Smoke on the Water” do Deep Purple. Foi a introdução para o vocalista da Dônica, José Ibarra - que além dos vocais e do violão de apoio simples e seguro - surpreendeu o público quando cantou “San Vicente” sozinho.
Foi sozinho também que Bituca começou tocando “Ponta de Areia”, dele e do Fernando Brant na sua sanfoninha pé-de-bode de oito baixos. Para mim foi um dos momentos mais delicados do show.

 

O próximo convidado foi Criolo, que encarou “Cais” num dueto com Milton. Fiquei surpreso ao ver o rapper paulistano sustentar as notas longas e percorrer a melodia sinuosa da canção de Milton e Ronaldo Bastos com dignidade. Depois ainda fizeram "Me Deixe em Paz", de Monsueto e Ayrton Amorim, que no disco de 72 Bituca canta em dueto com a grande Alaíde Costa.

 

Maria Rita entrou em prantos e cantou com Milton a música que a projetou, "Encontros e Despedidas", dele e do Fernando Brant lançada originalmente no álbum homônimo de 1985. Cantou "Nada será como antes", de Milton e Ronaldo Bastos, que no primeiro disco é interpretada por Beto Guedes, talvez a grande ausência nesse show. Por fim ela fez a dobradinha "O que foi feito deverá / O que foi feito de Vera" com as respectivas letras de Fernando Brant e de Márcio Borges. No disco de 78 essas duas canções siamesas são cantadas por ninguém menos que Elis. Foi um momento forte mas estranho, como sempre, ver a filha incorporando a mãe. Gosto da Maria Rita, acho que ela é uma grande cantora. Mas tenho a impressão que ela perdeu o rumo da carreira em algum momento entre o segundo e o terceiro disco. Seja como for, a maioria do público que estava lá não concorda comigo e se emocionou de verdade com sua interpretação carregada.

 

Entrou Wagner Tiso e tocou ao piano "Coração de Estudante", melodia dele com letra de Milton. É curiosa a história dessa canção. A música foi uma encomenda feita a Wagner pelo cineasta Sílvio Tender para o filme Jango, de 1984. A letra veio depois, inspirada no estudante Edson Luís, morto aos 17 anos pela polícia militar no Rio de Janeiro em 1968, ano de instalação do AI-5. Mas, curiosamente em 1985, com a morte de Tancredo Neves, a canção se tornou tema da campanha pelas diretas.

 

Lô retornou ao palco e cantaram juntos o hino "Para Lennon e McCartney", dele e do irmão Márcio. Essa talvez seja a canção mais ‘estádio’ do Clube. Depois Milton chamou todos de volta ao palco e fizeram juntos "Paula e Bebeto", melodia dele e letra de Caetano Veloso, última faixa do disco “Minas” de 1975, gravada também por Gal Costa no disco “Água Viva”. Finalizaram o show com duas parcerias com Fernado Brant, "Nos bailes da vida", lançada em 1981 no disco "Caçador de Mim" e "Maria Maria", o grande sucesso do disco do Clube de 78, que havia sido gravada em 1976 como trilha para o primeiro espetáculo do Grupo Corpo. Fernando foi devidamente homenageado.

 

Nesse momento, eu e Rosa já saindo do estádio, ela me puxa de volta para ver os fogos. Foi um final apoteótico mas eu estava irritado com as placas de cerveja levantadas obstruindo a visão do palco. Me pareceu uma ação de marketing lamentável induzir o público a levantar uma placa e gritar uma frase no meio de uma canção, numa espécie de flashmob dirigido. Curioso é que na perspectiva do palco os cartazes revelavam a frase, mas ocultavam a logomarca da empresa, única visão possível para todos os que estavam na plateia. Eu não faço divulgação voluntária para marcas de cerveja. Sobretudo, Milton Nascimento e o Clube da Esquina não precisam de homenagens postiças e forçadas. Todos ali presentes estavam, de alguma forma, prestando seu tributo à música e seus intérpretes. Mas esse acontecimento não interferiu na impressão do show em si, foi mais uma nota de rodapé, algo para eu me lembrar quando ficar tentado novamente a assistir um show num estádio.

 

Voltei para casa satisfeito e cansado, com uma estranha sensação de missão cumprida. Mas também - desvelando minha condição de ogro - de que aquela música soaria melhor num teatro, num ambiente com uma acústica mais amigável, mais introspectivo, mais adequado para ouvir as sutilezas harmônicas e melódicas da música mais sofisticada produzida aqui nessas terras. Do ponto de vista da logística de um grande show estava tudo certo, não houve falhas. Também não ignoro o simbolismo de ocupar um dos maiores templos do futebol brasileiro. É antes uma questão conceitual, a música brasileira mais representativa, aquela que encantou o mundo, “não é vontade de potência, é promessa de felicidade”, como diria o teórico italiano Lorenzo Mammi. Por mais que tenha elementos do rock, que seja uma música fundamentalmente urbana, a produção fonográfica do Clube da Esquina para mim emula o cerrado stricto sensu, com suas vastas planícies salpicadas de árvores retorcidas, como melodias de larga amplitude entrecortadas por acordes tortos.

 

E mais uma vez recaio em João Gilberto, sempre ele. Chico Amaral conta que Milton, quando ainda adolescente no interior, ouvia os acordes da Bossa Nova na Rádio Nacional em ondas curtas e tirou aquelas músicas de ouvido para tocar no violão. Quando veio morar em Belo Horizonte mostrou aquelas canções para alguns músicos que foram taxativos: esses acordes estão errados. Foi Nivaldo Ornellas quem teria dito: estão errados mas está lindo assim, continue! Isso porque o sinal de ondas curtas cortava algumas frequências dos acordes dissonantes e Milton, com um ouvido privilegiado e um impulso criativo latente, recriou as harmonias da Bossa Nova à sua maneira, inventando os harmônicos que não chegavam pelo rádio. Uma música que surgiu assim não vai servir ao imperativo “sai do chão galera!”. Nesse caso menos é mais.

 

 

Makely Ka, compositor brasileiro, é hoje um dos mais requisitados compositores de sua geração e pode ser ouvido na voz de Lô Borges, Samuel Rosa, Titane, Ná Ozzetti e José Miguel Wisnik, entre dezenas de outros intérpretes. Lançou os discos “A Outra Cidade” em 2003, ao lado dos parceiros Kristoff Silva e Pablo Castro e “Danaide” em 2006 com a cantora Maísa Moura. O primeiro trabalho solo veio em 2008 com “Autófago”, considerado pela crítica um dos melhores discos de “roque brasileiro”. Em 2015, lançou o álbum “Cavalo Motor”, resultado de uma longa viagem realizada pela região Noroeste de Minas Gerais, na divisa entre Bahia e Goiás. O disco tem participação de Arto Lindsay, Susana Salles, Décio Ramos (UAKTI), O Grivo entre outros e foi transformado também em DVD. O trabalho foi considerado um dos melhores lançamentos do ano e recebeu vários prêmios, entre eles o Grão da Música de melhor álbum de Música Brasileira de 2015. Letrista inspirado e versátil, acumula parcerias com diversos compositores em todo o país. Como intérprete de suas próprias canções destaca-se pela voz grave e a pegada peculiar no violão. A ironia e sarcasmo estão sempre presentes nas apresentações ao vivo, que podem ser solo ou com banda. Já tocou em alguns dos principais palcos do Brasil e excursionou por Portugal, Espanha, Dinamarca, Lituânia, Turquia, Grécia e México. Grande interlocutor da cena musical em Minas, Makely organizou mostras e festivais, participou de curadorias, produziu discos de outros artistas, fez direção artística de shows, criou trilhas para cinema, dança e teatro, realizou documentários, compôs textos para peças sinfônicas e camerísticas, participou de conselhos estaduais e federais de cultura, fundou cooperativas e fóruns de música e escreveu diversos textos sobre política cultural, música, literatura e cinema que foram publicados em jornais, revistas e sites. Também publicou alguns livros. Além disso, atuou como editor de revistas de poesia e no momento, prepara o lançamento do livro "Música Orgânica". Atualmente está finalizando a gravação de dois álbuns: o instrumental “Rio Aberto”, no qual destaca a viola de 10 cordas, craviola e viela de roda e “Triste Entrópico”, com canções inéditas. Ambos compõem a Trilogia dos Sertões iniciada com “Cavalo Motor”. Estes trabalhos dialogam criativamente com as experiências etnomusicais do artista no Parque Indígena do Xingu e no arquipélago de Cabo Verde, estudos sobre a Guerra de Canudos e a obra de Euclides da Cunha, a relação do Brasil com a África e as interpretações clássicas do país, desde os naturalistas do século 18 até Claude Lévi-Strauss e seu já clássico “Tristes Trópicos”. Os álbuns têm previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2020.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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