ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Nicolas Behr


Dez poemas    

estou começando a perder
o medo que tenho das pessoas

 

já pego na mão
da minha namorada

 

 

 

 

 

 

A VOZ DO BRASIL

 

em brasília 19 horas noite e dia
em brasília 19 horas em 15 minutos
em brasília 19 horas sem saber pra onde ir
em brasília 19 horas nunca passam
em brasília 19 horas mudando de estação
em brasília 19 horas não é nada
em brasília 19 horas de silêncio
em brasília 19 horas do segundo tempo
em brasília 19 horas desde 1500
em brasília 19 horas procurando outras vozes
em brasília 19 horas desligando o rádio
em brasília 19 horas 19 honras 19 taras
em brasília 19 horas com a mulher do ministro
em brasília 19 horas noves fora nada a declarar
em brasília 19 horas esperando ônibus
em brasília 19 horas sem ter pra onde correr
em brasília 19 horas de atropelamentos no eixão
em brasília 19 horas sem escrever um poema
em brasília 19 horas embaixo do bloco
em brasília  19 horas sem fim 

 

naquela noite

 

suzana estava
mais W3
do que nunca

 

toda eixosa

 

cheia de L2

 

suzana,
vai ser superquadra
assim lá na minha cama

 

 

 

 

 

 

A MISSA

 

em nome do  pai, do filho e do espírito santo
depois da missa vou jogar bola e pescar
cantemos todos o canto de entrada – de pé
tenho vara, linha, chumbada e isca boa, minhoca
bendito seja deus que nos reuniu no amor de cristo
eu e inácio vamos pescar naquele trecho do rio, difícil
deus pai todo poderoso tenha compaixão de nós
mamãe veio me visitar e fomos tomar guaraná
leitura da carta de são paulo apóstolo aos romanos
ela vem de novo mês que que vem e vamos tomar
guaraná de novo, ela disse, ela prometeu
senhor tende piedade de nós
não sei o que faço para aprender matemática
evangelho de jesus cristo segundo são lucas
é tempo de manga na casa da dona alair
glória a deus nas alturas
só que na casa dela agora tem cachorro bravo
e paz na terra aos homens de boa vontade
irmã deolinda está na missa, bem ali na frente, linda
senhor deus rei dos céus deus pai todo-poderoso
só faltam três semanas pra gente sair de férias
nós vos damos graça por vossa imensa glória
meu irmão puxou minha orelha, sangrou, doeu
vós que tirais os pecados do mundo
tende piedade de nós
aquele cacho de banana que escondi na roça
dos padres deve estar bem maduro
vós que estais a direita do pai tende piedade de nós
vou lá sozinho comer aquele cacho de banana sozinho
vinde a mim os que têm fome – glória a vós senhor
são subo mais em pé de abacate – caí quase morro
segura na mão de deus que ele te sustentará
que pena – vão derrubar o muro da casa do seu joão
não vai ter mais graça roubar manga lá
oh meu bom jesus que a todos conduz
olhai as crianças do nosso brasil
ah mas ainda tem muitos outros quintais
pra gente roubar manga
o senhor esteja convosco ele está no meio de nós
quando eu for na fazenda quero andar a cavalo
senhor eu não sou digno que entreis em minha morada
mas dizeis uma só palavra e serei salvo
que palavra será essa meu deus! a palavra cavalo serve?
e se meu pai vendeu o cavalo?
cordeiro de deus que tirais o pecado do mundo
será que tô com bicho-do-pé de novo?
no amor e na comunhão do espírito santo
estou arrependido de ter tocado fogo no sapo
abeçoai-vos deus todo poderoso
pai filho e espírito santo
aleluia! aleluia! aleluia!
a missa está no fim e eu não quero ser goleiro outra vez
ide em paz e o senhor vos acompanhe
amém! gol! amém! gol! amém! gol!
graças a deus

 

pela primeira vez meu time ganhou do time dos anjos

 

 

 

 

 

 

COMETA POESIA

 

era noite de julho de 1967

 

mamãe nos acordou de madrugada
para vermos o cometa ikeia-seki
(ela sabia que nós nunca
o esqueceríamos)

 

o cometa seguiu seu curso
nós voltamos para a cama

 

caixeiro-viajante do céu
o cometa aparece e desaparece

 

o cometa volta
a infância, não

 

 

 

 

 

 

se é para o bem de todos
e felicidade geral da nação
diga ao povo
que fique

 

 

 

 

 

 

         o poeta sofre por nós - o poeta é o próprio cristo  
o poeta é infeliz para que todos nós 
sejamos felizes ( nós, não, vocês )   
ao poeta é proibido o prazer 
- a não ser o prazer de sofrer -  
ao poeta é negada a própria vida
a morte vem sempre como um prêmio:
edições póstumas, homenagens, nome de rua 
o poeta é a antena desligada da raça extinta
ao poeta é permitido se masturbar
em praça pública ( ah, pelo menos isso! ) 
se você vir um poeta feliz por aí, pedrada nele
- impostor! falso! covarde! vendido!
o poeta procura sempre o caminho mais longo
–       o caminho da dor –
o poeta é um homem de sentimentos públicos
o poeta é indiferente à autopiedade
o poeta transforma o banal - sua vida -  em arte 
o poeta é presa fácil dos psicanalistas
o poeta está nos extremos e segura as pontas
o poeta é dependente crônico do elogio: 3 por dia 
o poeta vê tudo com uma lente de aumento
deste tamanho – vê os micróbios da alma humana
“ é poeta”  ih, então é bicha, doente,
desequilibrado, só falta gaguejar
o poeta se autodesqualifica pra valer 
o poeta quer falar por todos nós – deixe que fale!
o poeta vive em permanente estado de choque
deixa sangrar a hemorragia, torniquete na verborréia
o poeta é o cão raivoso que você vive chutando
o poeta é um desintegrador de átomos e preconceitos 
o poeta existe para que a unidade nacional não se desfaça
o poeta existe para que a língua fale ( o poeta  ensina o poema a falar )
poeta, filho da puta, por que você escreveu este poema?
o poeta sustenta o fardo de viver para que
você possa tomar cerveja no bar com seus amigos
os poetas são como deuses, pois constróem mundos
o poeta rói as unhas para que as suas
estejam sempre bem aparadinhas
o poeta não pode ter filhos
– e se os tiver, não poderá amá-los -
o poeta é dramático e leva tudo até as últimas
conseqüências para que você tenha essa vidinha besta
o poeta é o cupim no jardim do burguês
o poeta não sabe viver, não pode saber viver
o poeta se expõe na vitrine da livraria do shopping    
o poeta é expulso de casa, do paraíso – lugar de poeta
é no lixo, entre os mendigos, embaixo da ponte
o poeta e a estética da repetição – este poema difícil

 

o poeta – esse fudido –
tem mais é que se matar mesmo

 

 

 

 

 

 

brasília são as ruínas de machu picchu
invertidas, cuzco reconstruída, tiahuanaco
inacabada, pirâmide de teotihuacán
ao contrário, palácio do altiplanalto, 
atlântida cerratense, cidade perdida
dos can dangos

 

a esfinge fita seu espelho: jk

 

as linhas do eixo monumental
são continuação das linhas de nazca

 

 

 

 

 

 

eu queria fazer amor
ela falar de loucura

 

nem uma coisa
nem outra

 

literatura

 

 

 

 

 

 

as folhas
são raízes contrárias

 

a árvore
se enraiza no céu

 

quem planta
uma árvore
aos poucos
também
se enterra

 

se eterniza

 

 

Nicolas Behr (Nikolaus von Behr) nasceu em Cuiabá, Brasil, em 1958. Cursou o primário com os padres jesuítas em Diamantino, MT e mudou-se para Cuiabá aos 10 anos. Queria ser geólogo. Mora em Brasília desde 1974. Três anos depois lançou seu  livrinho mimeografado, Iogurte com Farinha, o primeiro de muitos. Em 1978 foi preso e processado pelo DOPS por porte de material pornográfico ( seus livrinhos!) sendo julgado e absolvido no ano seguinte. A partir de 1980 passa a trabalhar como redator em agências de publicidade e se engaja no movimento ecológico. Em 1986 começa a trabalhar na FUNATURA – Fundação Pró-Natureza, onde fica até 1990, dedicando-se profissionalmente desde então ao seu antigo hobby: produção de espécies nativas do cerrado, através da Pau-Brasília viveiro eco.loja, ainda hoje em atividade.  Volta a publicar a partir de 1993, com “Porque Construí Braxília”.  Em 2004, no livro “Nicolas Behr – Eu Engoli Brasília” – volume I da Coleção Brasilienses - o jornalista Carlos Marcelo traça seu perfil biográfico. Em 2008 seu livro “Laranja Seleta – editado pela Língua Geral – foi finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura. O filme “Braxília” (17 minutos), de 2010,  da cineasta Danyella Proença, um ensaio sobre a relação do poeta e sua cidade, ganhou vários prêmios em festivais de cinema. Sua obra tem sido objeto de várias dissertações de mestrado pelo país. Em 2013 participou, como convidado, da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty e da Feira Internacional do Livro de Frankfurt e da Latinale – Festival Latino Americano de Poesia, em Berlim. Em 2015 o Instituto de Letras da Universidade de Brasília instituiu o “Prêmio Nicolas Behr de Literatura. Publicou ainda o livro “Dicionário Sentimental de Diamantino”, em 2016. “It will never rain again”, traduzido por Michael Hill, é sua primeira publicação em língua inglesa, em 2018. No mesmo ano, no Peru, a Amotape Libros publicou “Naranja Selecta”, edição bilíngue, espanhol e português.  Seu livro mais recente  “O menino do mato que engoliu Brasília”, da Entrelinhas Editora, de Cuiabá, de 2019,  divide a trajetória do poeta em três fases: Menino Diamantino, Menino de Cuiabá e Menino Candango.

Contatos: paubrasilia@paubrasilia.com.br
www.nicolasbehr.com.br   

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Janeiro de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alfonso Peña, Amirah Gazel, Ana Romano, António de Miranda, Antônio Torres, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Casé Lontra Marques, Cecília Barreira, Clécio Branco, Delalves Costa, Deusa d’África, Eduardo A. A. Almeida; Fernando Sousa Andrade, Eliana Mora, Francisco Marcelino, Geronimo Lobo, Helena Mendes Pereira, Hermínio Prates, Inés Aráoz, Inés Legarreta ; Rolando Revagliatti, J. R. Spinoza, José Arrabal, José Manuel Teixeira da Silva, José Petrola, José Ricardo Nunes, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Makely Ka, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Nicolas Behr, Otildo Justino Guido, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rosângela Vieira Rocha, Silas Correa Leite, Ulisses de Carvalho, Waldo Contreras López, Wil Prado


Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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