ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Rosângela Vieira Rocha


O lobisomem que lia Caeiro    

Sempre foi assim, com ele. No quarto minguante, retira-se para o alto da montanha. Nunca admitiu mostrar a ninguém seu rosto envelhecido, pálido, sua solidão, sua magreza, sua altura incomum, suas roupas amarrotadas, sua pobreza. Sobretudo, seu desvario visível. Quem pode imaginar que ele e o lendário monstro sejam o mesmo ente?

 

A maneira obsessiva de se esconder talvez seja desnecessária. Esconder-se de quê, de quem, ele, um completo desconhecido na cidade imensa de um país ao qual não pertence? Tem uma vaga noção de que esse país se situa na América do Sul. Mas por que estaria na América, se surgiu em uma região longínqua e obscura da Europa?

 

Sente uma grande pontada na cabeça. Como dói! Fora da cidade, sabe que não encontrará vinagre, o único remédio capaz de aliviar-lhe as dores. Um lenço com vinagre na testa e um lugar muito escuro, de preferência uma gruta, é disso que precisa agora. Mas, enquanto durar o quarto minguante, a pior fase lunar para ele, ficará recluso.

 

Uma forte tontura o faz cambalear. Estica-se sobre uma pedra achatada e fecha os olhos. Experimenta tocar o corpo, praticamente resumido a pele e ossos. Estará morto? Não, ainda não. Morrerá algum dia? Não sabe responder. Só sabe que vaga pelo mundo de lua em lua, à espera.

 

Nunca se lembra de nada que ocorre durante a lua cheia. Mas, as dores de cabeça desaparecem e só isso bastaria para aguardá-la com ansiedade. Esse vazio também acaba, embora ele nunca se recorde de que maneira, pois tudo se apaga de uma só vez, passada a fase lunar. Dizem que comete crimes atrozes e que é capaz de grande crueldade, no plenilúnio. Depois que termina, ele só escuta, aqui e ali, a descrição dos atos horríveis cuja autoria lhe é atribuída. Não chega nem sequer a sentir remorsos, pois não reconhece esses horrores como seus.

 

 Procuram-no. Caçam-no. Formam-se fileiras de homens armados e fardados. Nos lugarejos, homens saem em grupos portando machados, facas de cozinha e porretes. Sempre em vão, pois logo que a lua começa a esvaziar-se ele volta à sua forma comum, de velho mendigo sujo. Então recomeça a solidão profunda das montanhas e das grutas. Gostaria de saber que imagem possui, durante a lua cheia. Mas, como, se não pode ver-se no espelho, pois este se limita a lhe devolver um borrão, em lugar de um rosto?

 

 Se pudesse escolher, seria pastor de ovelhas. Utilizaria como cajado um tronco de uma árvore do cerrado, que dá flores amarelas. Sem dúvida, a coisa mais bela que já viu na sua vida comprida, de centenas de anos. Seria amoroso com as ovelhas, procuraria ocupar o papel de pai, o pai que nunca teve. Um guardador de rebanhos. Que sonho maravilhoso seria passar o tempo a segui-las, caminhando lentamente, no ritmo delas. Mandaria fazer para si um gorro de lã, que usaria para encobrir sua falta de cabelos.

 

Quando elas parassem para comer, escreveria versos. Ele, um ser de quem todos fogem, transformado em um cantor da natureza. Talvez fosse o remédio ideal e definitivo para as suas dores de cabeça. O malfeitor transformado em pastor, um irmão de Alberto Caeiro.

 

Diabo! Por que não é mais tempo de milagres? Quem pode realizar a façanha de transformá-lo em mortal, capaz de gestos delicados? Por que ser obrigado a perpetuar a maldição? Ah, a tristeza do quarto minguante ainda vai matá-lo, decerto. E que alívio seria, perder essa vida que nunca desejou para si!

 

A lua nova é a sua predileta, pois tudo está ainda por ser feito. Se pudesse influir no movimento dos astros e no ritmo das marés, o mundo ficaria parado para sempre na lua nova. Uma vida a ser preenchida, começando do marco zero. Que lindeza, a lua nova, feita só de contornos. Poderia, quem sabe, escolher um nome apropriado. Alberto, talvez. Ou Fernando. Um nome de poeta, enfim. Esqueceria para sempre os nomes próprios cheios de consoantes, talhados com rigidez. Aprecia nomes com vogais bem abertas, lúdicas, brincalhonas.

 

O quarto minguante brilha tanto que lhe ofusca os olhos, embora fechados. Em torno, tudo é silêncio, quebrado às vezes pelo canto de um pássaro ou de algum pequeno réptil correndo, furtivo, à procura de uma fenda nas pedras pontiagudas.

 

Como será que ele, esse ser de hábitos tão incomuns, chegou aos limites dessa cidade imensa? Certamente durante a lua cheia, quando deixa de ser quem é e se transforma em outro. Ou quem gostaria de ser, quem sabe.

 

Vive de restos de pão velho, de frutinhas catadas nos matagais, do líquido extraído dos caules de árvores. Só se alimenta de vegetais, provavelmente para compensar a enorme quantidade de carne que - dizem - ingere na lua cheia. Quando a comida escasseia e tudo se torna muito difícil, senta-se nas praças das cidades, atento à distância que deve manter das igrejas. Teve muita vontade de visitar algumas, em uma cidade barroca onde viveu durante duas semanas, mas a prudência e o instinto de preservação falaram mais alto.

 

O que lhe aconteceria dentro de uma igreja é um mistério que tem vontade de desvendar. Mas, toda vez que surge a oportunidade, ele a evita e corre para longe o mais depressa possível.

 

Há mais de um século um antepassado seu entrara certa vez em uma catedral gótica e todas as imagens de santos quebraram-se ao mesmo tempo, como se eles tivessem feito uma revolta geral. Enquanto o altar-mor ruía, as pessoas correram, assustadas, e o seu ancestral chorara durante todo o quarto minguante, escondido nos arredores da cidade.

 

Para os de sua linhagem, a tristeza e a rejeição sempre foram uma constante. Os que desapareceram quando ele surgiu deviam ser mais sós ainda, pois não sabiam ler. Ele sempre prestara atenção nos letreiros e nas placas e, com isso, tinha aprendido alguns idiomas. Nas últimas décadas, passara anos esmolando perto de uma livraria e, na vitrine, havia descoberto um livro de poemas. Teve tanta sorte que uma leitora esquecera um pacote de livros no café da livraria. Dentro, ele encontrou três obras de Fernando Pessoa.

 

Passou a andar com os livros durante todas as luas, exceto na cheia, quando tem início o frenesi. Nessa fase deixa-os escondidos sob alguma pedra, marcando o local para não se esquecer. Depois, durante o vazio e a melancolia do quarto minguante, recolhe o pacote e reinicia a leitura. Com Alberto Caeiro, passou a sonhar com a vida de pastor, apesar de saber que nunca poderá tê-la. 

 

Já pensou em arrumar trabalho, mas quem o empregaria, se não tem documentos, não tem morada fixa e nem mesmo um nome a apresentar? E depois, haveria sempre o problema dos estranhos sumiços durante a lua cheia. Passariam a fazer comentários, indagações. Logo descobririam a sua identidade estranha e completamente fora de moda.

 

Tem ouvido falar em funcionários fantasmas, mas conhece o idioma o suficiente para saber que se trata de uma metáfora. Mas um funcionário lobisomem? Isso não, certamente estranhariam muito.

 

As fases da lua vão mudando, enquanto ele medita sobre sua condição. Seus livros de poemas estão ensebados, alguns trazem marcas de sangue, embora ele não saiba de onde se originaram. No quarto crescente sente-se mais forte, ganha músculos. Seu corpo não lembra mais o do mendigo esquelético. À medida que seu corpo se enche de carnes, o vazio dentro dele vai diminuindo cada vez mais.

 

Então, a hora chega. Ao olharem para o céu, todos ficam admirados com a beleza e o brilho da lua cheia. O pastor quase amoroso larga o seu cajado de qualquer maneira, nas pedras, sabendo que a transformação não tardará. Logo será um outro, que não conhece. Cobre os livros, seus únicos bens, com folhas caídas das árvores. Tudo que pode fazer é esperar que estejam lá, que Caeiro não o abandone quando ele voltar exausto, esvaziado, solitário, sabe-se lá de onde, com gosto de sangue na boca.

 

 

Rosângela Vieira Rocha é jornalista, escritora, e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da FAC/UnB

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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