ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Adriano B. Espíndola Santos


Por um triz    

Chegou o dito doutor, um dia desses, pras bandas de cá, querendo botar moral no povo, se achando dono do mundo. Foi logo riscando a nossa terra sagrada. Bodejando, bodejando, com uma pistolinha na mão, inflando o peito vazio; um pombo com fel. Bradava que vinha de lá, do outro lado do rio, pra retomar as terras de seus antepassados; que era filho de Coronel Fabriciano de Carvalho e Silva, o imperador do sertão – descendente, portanto, dos primeiros nobres portugueses; que tínhamos, por sorte e benevolência, usado essas terras sem custo algum; que nos déssemos por satisfeitos; que saíssemos no prazo de vinte e quatro horas; que as terras hoje eram abençoadas, verdes e frondosas, cheias de vida, graças aos seus, os quais empreenderam esforços para aplacar anos de sequidão.

 

Na cola, dois jagunços. Julgavam, talvez, que éramos poucos, que éramos curtos de juízo; que éramos nada, ninguém. Educadamente esperei o palavreado estéril do sujeitinho, para perguntar se o “doutor” era nome próprio ou adquirido de bestagem. Na mesma hora, quando o homem deu sugestão de partir pra cima, saíram de suas tocas os quatrocentos e vinte e três caboclos – desses, os que não tinham facão, peixeira, aprumavam os canos das espingardas na mira dos três.

 

De imediato, vi a fissura de um homem frouxo, só pelo branco do olho, e as pernas bambas; uma seriema torta, descadeirada. Os jagunços abandonaram o barco rapidinho. Pensaram que era serviço mole, dinheiro fácil. Pegaram o rumo da mata, dispersos como fumaça. Uns dos nossos foram atrás. Gritei: “Deixa esses cabras pra lá. Vamo cuidar do doutorzinho aqui!”. Além de frouxo, era imundo, fedia a bosta. Quando os pequenos começaram a rir – são os primeiros a mangar –, notei o mel escorrendo pelo chão. Deu-se uma algazarra, com o insólito. Mandei arrancar as roupas, se sentar, cavar um buraco e cagar, na frente de todo mundo; que enterrasse a merda e jogasse a arma. Depois do jato d’água, com o lascado nu, de cu pra cima, pegamos e o amarramos no tronco mais grosso, no meio da comunidade. Decreto: passar um dia e uma noite ali, pra aprender a respeitar e não chegar gritando na casa dos outros.

 

No meio tempo, porque a intenção não era matar, ainda que eu desejasse, dávamos uns pedaços de bolacha e uns goles d’água, pro infeliz não murchar de vez. E olhe que fui o mais paciente, aquietando os ânimos dos irmãos. Janjão, pelo apelido já se pode perceber a largura do sujeito, com raiva, empurrou dez bolachas com água e tudo. O doutorzinho vomitou. Fez um verdadeiro show; rebolia-se todo no pau, babando e revirando os olhos. Fingiu, com a cara mais lisa, que estava desfalecendo. Foi a alegria da noite. Riam e se divertiam com o atrevimento do cidadão. Tinha mesmo jeito de picareta, ladrão.

 

Antes de soltar, comeu dobrado na minha mão e de mais uns trinta. Cada um deu, pelo menos, uma bofetada, de mão cheia. Saiu de cara inchada; já não se reconhecia mais. Disse que se arretirasse, vexado, se não ia sobrar mais pra ele, com carretel, linha e tudo. Sumiu o desgraçado. Acho que avisou aos outros. Nunca mais ninguém veio pedir a bênção. Sinto até falta da distração.

 

Hoje me peguei ruminando: um lascado daquele quer ser gente! Não se cria aqui, não, às nossas custas! O recado foi dado: não se meta a besta, pra esses lados corre sangue de lampião!

 

 

Adriano B. Espíndola Santos. Natural de Fortaleza, Ceará. Autor do livro “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora, 2018. Advogado humanista. Mestre em Direito. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Paginação:

Nuno Baptista


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