ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Ricardo Alfaya


2020: entrada explosiva    

O dia primeiro de janeiro de 2020 marca não apenas o início de mais um novo ano, mas também, de nova década.  A segunda deste preocupante século XXI.

 

Infelizmente, não começou bem.  Logo no segundo dia, imediatamente posterior ao Dia Mundial da Paz, data comemorada em quase todos os países, o atual presidente norte-americano, Donald Trump, resolve bombardear à distância, por meio de um caríssimo drone, dois carros blindados, que faziam parte de um comboio de veículos, no Aeroporto Internacional de Bagdá. O ataque resultou na morte de nove pessoas, conforme o “Caderno Internacional” do jornal “O Estado de São Paulo”, de 04.01.2020, cuja matéria se acha disponível na internet.
 
O alvo era o general iraniano Qassim Suleimani.  Além dele, outro líder importante foi atingido: o subcomandante Abu Madhi al-Muhandis, da Força de Mobilização Popular, grupo iraquiano pró-iraniano.  Ambos os líderes morreram na hora.

 

Como se sabe, no ataque promovido por Donald Trump, o Congresso norte-americano não foi consultado.  Trump agiu após aconselhamento de militares ligados a seu governo.  Ironicamente, tudo foi decidido enquanto o mandatário norte-americano “curtia” o início de uma segunda semana de férias num “resort”, da Flórida. 

 

Parece até cena de filme besteirol: o presidente - talvez de bermudão, camisa colorida aberta no peito e sandálias havaianas - toma seu refresco (ou algo mais forte), beliscando seus petiscos e decidindo: “Está certo, Mikey e Pluton, vocês me convenceram.  Não posso “dar mole” feito o Obama, que não retaliou o Iraque quando tinha de retaliar.  Aliás, eu não ter reagido quando o Iraque atacou nossos navios no Golfo e derrubou aquele drone (que custou os olhos da cara do Tesouro Nacional), já foi erro suficiente.  A imprensa logo caiu de pau em cima de mim.  Essas coisas tiram voto, Mikey e Pluton.  Não podem acontecer, “all-right”?  Eu tenho de garantir a reeleição, custe o que custar, doa a quem doer. Afinal, eu sou Donald, mas não sou pato.  O povo americano quer e terá um homem forte, um “macho-man”.  Não cometerei mais esse erro.  Tentaram invadir nossa Embaixada no Iraque, só porque a gente despejou uns mísseis na cabeça do povo daquela região?  Pois vão ter retaliação!  Justiçamento!  Vamos pegar esse tal líder deles aí, como é que chama mesmo, Mikey? Suleidomini, Sualeiassim, sei lá,  é um nome complicado pra memorizar!  Dizem que esse sujeito tem uns planos contra nós, de forçar a gente a sair “together” já do Oriente Médio. Onde já se viu?  Traz aí o celular, Pluton, que vou ligar agora mesmo pra nossa base “in” Nevada, para que, de lá, confortavelmente sentado numa boa poltrona, nosso custosíssimo e supertreinado piloto (que não voa) acione um drone “now”.  Vamos acabar com os motores desse general e com quem mais esteja “around him” (por perto, ao redor, em torno do rim).  Vamos lá!  “Let’s go, little boys!  Let’s go!”

 

Hoje à tarde, Dia dos Santos Reis, reparei num já tradicional cantor e guitarrista de rua, que sempre fica numa esquina próxima à praça de alimentação do bairro do Catete, no Rio.  Com seu visual que me recorda o Bob Marley, o homem  proclamava bem alto que vinha aí a Terceira Guerra e que ia morrer todo mundo: o gordo rico, o magro pobre, o alto, o baixo – ninguém escaparia.

 

Sei que tratar de um assunto desses, com certo humor, pode não parecer exatamente saudável.  Porém, vi, na semana passada, “A Primeira Tentação de Cristo”, premiado filme produzido pela também bombardeada produtora Porta dos Fundos.  De forma que, apesar de concordar com a condenação bergsoniana ao lado cruel do humor, vejo-me um tanto inclinado a tornar-me mais tolerante para o que possa provocar ou evocar o riso, de um modo geral.  E, em última análise, os produtores da película têm razão: somente é proibido aquilo que é expressamente citado em Lei.  Está na Constituição.  Assim, embora isso possa chocar algumas pessoas, não é proibido rir de Cristo (embora eu mesmo prefira rir “com” ele), mas é expressamente proibido jogar bomba em produtoras de filmes e, claro, também é proibido jogar bombas num comboio para matar alguém (pela lei daqui, de lá, e de Alá).  Nem sequer havia declaração oficial de guerra.  Portanto, foi um assassinato, pura e simplesmente.

 

Seja como for, mesmo temendo morrer de rir ou vitimado por uma bomba enquanto rio, é tanto surrealismo envolvido nessas “resortianas” decisões do mundo, que não dá para levar o caso completamente a sério. Mesmo quando se imagina que o preço dessa traquinagem eleitoreira do extremo direitista norte-americano possa vir a ser muito alto. 

 

Porém, o mais engraçado (ou o mais doloroso – qual a diferença mesmo entre os dois?) tem sido ler (até onde suporto) os comentários, abaixo das matérias na internet e nas postagens do Facebook, a respeito do assunto.  É curioso também como os eleitores do Bolsonaro, imitando seu líder, deram para apoiar descaradamente esse Donald Trump.  É incrível.

 

Por exemplo, uma dessas bolsonaristas, defensoras do Trump, é uma senhora instruída. Pois ela emitiu, em comentários no Facebook, duas frases curtas, em favor do homem que passava férias no “resort” da  Flórida.  Na primeira, ela diz: “Mas houve o ataque à Embaixada americana, se fosse o contrário eles não reagiriam?”  Na postagem seguinte, o argumento é ainda muito pior: “Desde o princípio, os homens brigam.  Desde o princípio, Caim matou Abel.”

 

A mentira mais perigosa é a verdade incompleta.  Sim, houve uma violenta tentativa de ataque à Embaixada americana por parte de ativistas iranianos dentro do Iraque.  Tentativa essa, por sua vez, reprimida também com muita violência (embora com certa demora) pelo governo iraquiano.  Mas, o que a comentarista não diz é que isso foi uma reação a uma série de bombardeios na região e pressões econômicas insuportáveis, que vinham ocorrendo, por iniciativa dos norte-americanos.  Não foi, portanto, uma ação gratuita. 

 

Quanto ao segundo argumento, totalmente risível, que tem por objetivo minimizar o problema, utilizando-se a velha tática conservadora do “sempre foi assim”,  convém dizer, a bem da verdade, que Abel não brigava com Caim.  Abel estava na dele, cuidando de suas ovelhas, tocando sua flauta, quiçá, improvisando versos para a Lua e as estrelas.  Caim é que morria de inveja da riqueza que corria no interior do irmão.  Fluxo interno esse que, Caim sabia, nunca poderia possuir, pois lhe faltavam percepção e profundidade existencial. Então, como, ainda por cima, o Deus do Antigo Testamento não se agradou da oferenda de Caim, amou apenas a oferecida por Abel, Caim resolveu assassinar o irmão poeta.  E, uma vez que ainda não havia droner, Caim foi lá com um porrete mesmo, comprado com cartão de crédito nas Lojas Havan e, pelas costas, sem que Abel sequer soubesse o que estava acontecendo, “catapluft”, explodiu o crânio do bom pastor, acabando com a Graça de Abel.  Na verdade, não acabou, pois Abel foi o primeiro mártir da história humana, a inspirar tantos outros que vieram depois. Na realidade, somente tiranos intelectualmente limitados ainda caem nessa de correr o risco de produzir “cadáveres ilustres”.  Precisa ser muito Trump para fazer isso.

 

Em relação aos muçulmanos, o que já li de Mircea Eliade e Claude Lévi-Strauss foi o suficiente para compreender que não devo incorrer num absurdo julgamento quanto às razões e motivações dos hábitos e práticas de povos de uma cultura inteiramente diversa da nossa.  Mas o que se revela inquestionável é que, se existe um invasor nessa história, esse invasor é o Estado norte-americano.  São sempre os EUA que se acham no direito de capitanear e submeter todas as demais nações aos interesses políticos, econômicos e culturais deles.  Portanto, todos os atos perpetrados pelos povos do Oriente Médio contra os EUA têm sido de natureza defensiva, tentativas de resposta e repúdio a abusados invasores.

 

 

Ricardo Alfaya, Rio de Janeiro, Brasil. Escritor, revisor e livreiro virtual, com 38 anos de atividade literária, cinco livros de poesia publicados e inúmeros textos em prosa, nos mais diversos periódicos impressos e virtuais.  Contato: alfayalivreiro@gmail.com

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