ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Deusa d’África


Poemas    

Gato-preto

 

O gato-preto não tem cor
tem águas frias com mau odor
pêlos eriçados no que perpassa       
tem infortúnios por onde passa
e a quem cruza quando passa
tem os escombros da noite no seu olhar
que fita as sombras despedaçadas em praça
tem o telhado de todas as casas no seu calcanhar
os muros do bairro entrelaçam-se nas suas axilas
tem um raio Auréolo no olhar com linguagem
que dissemina os códigos da metalinguagem
tem um vaso sem terra no focinho que cabem guelras.
O gato-preto tem unhas longas e afiadas que roçam o destino.

 

 

 

 

 

 

Embarcações


Atracam-se na boca do cão
um quilate de clamor bucólico
joalheiro dos parcos utensílios
sob o fogo brando que dá forma
a todos os inducteis berros caninos
que se tornam humanos no fonógrafo
interpretando a voz do céu, fotógrafo da terra
onde correm os lábios nus do ânus atrás do nó
atado no umbigo de odor perfurante das minas do corpo
que jaz na latoaria adelgando a urina que entre as pernas do solo
se faz cachoeira sobre o arrozal com que se garante o celeiro da nação.

 

 

 

 

 

 

Sol Ajoelhado ao Chão da Panela


Plantam-se feijões ao solo da panela
sola exaurida pelo tempo na longa caminhada
-Vai, vai, vai, ele vai. Grita o calçado que calcava.
A sola seca o solo semi-árido e os anjos voadores
que atravessam o deserto e queima os pássaros sobre o feijão.
A chuva insossa deita-se aos joelhos da fome nos sarcófagos
uma mulher denunciada pela secura do capim sobre a cabeça
vestida como titã escala os ardilosos degraus da Morte em pleno dia na baixa.
A população pede apenas um punhado de ponte até aos portões da Morte em pleno dia.
Ela despe os cadáveres e vasculha o céu agulha-por-agulha e veste suas roupas negras
porque sonha ser a desgraça do mundo incendiando uma bola por um cristal no baile
para prender Deus numa panela de barro e encerrar o céu preso numa panela matinal
veem-se nuvens espreitando afora e um arrombamento nos portões do céu da Panela
- É o conclave e a eleição de uma beatificada morte num solo esquecido pela vida.

 

 

 

 

 

 

Procissão


Descem pelo riacho
túnicas ígneas em postas de luz.
Toca o sino dos corais no recife
um tubarão brame na estação oceânica,
- Graças a Deus! Responde o coro em viva voz.
Prossegue a leitura no vagão bucólico com gente
que crê no que lê ainda que não veja a lâmina flutuante
com que se afia a balaustrada crença do indómito corista
que faz a orquestra da igreja na adoração em Santa missa.

 

 

 

 

 

 

Razão


Vende-se nos bazares.
Carros correm à corrida do tempo
compram gravatas para remendar a camisa
que cobre o corpo de uma terra na sala de cirurgia.
Adia-se o presente para que venha apenas o futuro
que máquina do tempo poderá servir o café expresso
na língua de homens fustigados pelo barman na Santa ceia?!
Sirenes gritam sobre a estrada do céu e escoltam o vento viril
qual homem prostrar-se-à na caravana do silêncio e da mágoa?
A natureza fita a desgraça dos homens sobre a janela do tempo
que sentença maior que a prisão perpétua a que se nos sujeita
poderá anular a bala perdida do ciclone no corpo de um país?!

 

 

Deusa d’África nasceu aos 05 de Julho de 1988 em Moçambique, é mestre em Contabilidade e Auditoria e actualmente é professora na Universidade Pedagógica e na Universidade Politécnica. É Gestora Financeira do Projecto Global Fund – Malária. Começou a escrever poesia em 1999. A autora é representada pela agência literária “Capítulo Oriental”. Possui várias obras (prosa e poesia) publicadas na imprensa como é o caso de "Jornal Notícias”, “O País”, “Pirâmide”, “Diário de Moçambique”, em revistas tais como “Xitende” e “Varal do Brasil”, foi antologiada pela “Colectânea Veríssimos” editada em 2012 por Alpas XXI, Antologia Brasileira “Mil Poemas para Gonçalves Dias” em 2013, pela Academia de Letras e Artes Luso – Suíça “Caravelas em Viagem” em 2016.
Viu alguns dos seus trabalhos traduzidos para sueco. É Coordenadora Geral da Associação Cultural Xitende, é palestrante, activista cultural, promotora do direito à leitura e mentora do projecto Círculo de leitores. É colunista do Jornal “Correio da Palavra”.
 
É autora de obras como “A Voz das Minhas Entranhas” (poesia) editado pelo Fundac em 2014, o romance “Equidade no Reino Celestial” e “Ao Encontro da Vida ou da Morte” (poesia) pela Editora de letras de Angola em 2016. Coordenou a Antologia poética “Vozes do Hiterland” publicando escritores de Gaza e Niassa, editada pela Editora de Letras de Angola em 2016. Em 2016 foi Coordenadora para Moçambique da Antologia editada em Galiza “Galiza-Moçambique: Numa Linguagem e Numa Sinfonia” sob coordenação geral do escritor José Estevez publicando escritores de Moçambique e Galiza.
Foi distinguida pelo Governo Provincial de Gaza como Personalidade do ano 2016 em reconhecimento do seu patriotismo e pela sua contribuição no desenvolvimento e promoção das artes e cultura. Foi premiada como vencedora absoluta na modalidade de poesia e foi vencedora do segundo lugar em contos nos Concursos Literários Internacionais lançados na República Federativa do Brasil por Alpas XXI em 2012. Em Março de 2017 representou Moçambique no Festival Literário de Macau. Em 2018 foi antologiada pelo Festival Literário de Macau “Seis em ponto, contos e outros escritos VI”, traduzido em inglês “Six on the dot, short stories and other writings VI” e depois traduzido em chinês. Ainda em 2017 foi antologiada em “À Margem da Literatura” pela UCCLA. Foi antologiada em Macau no “Rio das Pérolas” livro de poesia em 2019.
Em Julho de 2019 participou no Festival Internacional Poetas d´Alma em Maputo.
 
Participou no primeiro encontro realizado em África e em Moçambique, de Poetas del Mundo em Outubro de 2019, como Embaixadora do Movimento Poetas del Mundo para Gaza.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


FICHA TÉCNICA


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Colaboradores de Janeiro de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alfonso Peña, Amirah Gazel, Ana Romano, António de Miranda, Antônio Torres, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Casé Lontra Marques, Cecília Barreira, Clécio Branco, Delalves Costa, Deusa d’África, Eduardo A. A. Almeida; Fernando Sousa Andrade, Eliana Mora, Francisco Marcelino, Geronimo Lobo, Helena Mendes Pereira, Hermínio Prates, Inés Aráoz, Inés Legarreta ; Rolando Revagliatti, J. R. Spinoza, José Arrabal, José Manuel Teixeira da Silva, José Petrola, José Ricardo Nunes, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Makely Ka, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Nicolas Behr, Otildo Justino Guido, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rosângela Vieira Rocha, Silas Correa Leite, Ulisses de Carvalho, Waldo Contreras López, Wil Prado


Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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