ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Francisco Marcelino


Contos    

Da sabedoria do cajueiro


A guerra começou como tantas outras, sem que ninguém soubesse quem dera o primeiro tiro.  E a guerra terminou como tantas outras, por causa do cansaço de guerrear e de beber sangue inimigo como o desjejum da manhã ou como um chá antes do sono da noite.

 

Só se sabe que quando acabou, nenhum lado tinha mais metralhadoras ou canhões. Nem munição. Apenas trincheiras cavadas como fossas. E dentro delas, homenzinhos de merda atiravam pedras de um lado ao outro do campo de batalha.

 

E quando acabou, não se sabia ainda que o motivo de tão nobre disputa desaparecera debaixo de tiros, bombas, fumaça, ódio, corpos mortos, jovens mutilados e de um tanto de desamor. A longa batalha exterminou o cajueiro, árvore natural daquela fronteira entre os dois povos. Os músculos exaustos dos soldados –vencedores ou vencidos– não poderiam mais encontrar o reconforto de um copo de suco de caju. Nem o vitorioso general celebraria sua conquista desfrutando de seu whisky acompanhado das nozes da árvore.

 

Vitoriosos e derrotados até se uniram para buscar um pé de caju perdido em algum quintal daquela fronteira. Nada. Em vão. Nem mesmo uma semente.

 

E então, os dois generais, o vencedor e o que se cansou, sentaram-se lado a lado para recordar de quando eram crianças. Era na sombra do cajueiro que se protegiam do sol para ouvir histórias fantásticas contadas pelos mais velhos. E se nem mesmo a sombra do cajueiro aplacasse o sol ardente, a árvore lhes daria seu suco.

 

Os dois generais se levantaram e olharam o campo de batalha repleto de mortos. Ouviram também os gemidos dos que ainda agonizavam debaixo das pedras. Era lá que ficavam os cajueiros.  E nesse momento de contemplação do horror é que receberam um emissário com a notícia: um desertor do exército vitorioso, foragido há mais de ano, fora preso pelas tropas inimigas a quilômetros dali. E aquele desertor não era apenas um desertor, era também um ladrão de cajus e ainda um traidor, disse o emissário. Abandonou a guerra ao ver que havia apenas um cajueiro de pé. Apanhou os frutos que pôde e adentrou o território inimigo. Só parou quando não ouvia mais tiros. Então, plantou as sementes da árvore e comeu os frutos. E lá nesse lugar, há mais de 20 mudas de cajueiro, disse o emissário.

 

O general vitorioso decidiu: o soldado será executado pelo nosso exército hoje ao meio-dia pelo crime de deserção, e as mudas serão replantadas em nosso país. Mas o general derrotado disse que não permitiria tal ato, que jamais entregaria o prisioneiro ou as mudas. O soldado havia sido preso por seus homens dentro do seu território. E os cajueiros estavam agora em seu país. Derrotado ou não na guerra, o general disse que não recuaria diante dessa nova ameaça. O soldado inimigo seria enforcado por roubo e invasão de território. E as mudas ficariam no mesmo lugar.

 

Não é preciso escrever mais para dizer que uma outra guerra começava, que mais um campo de batalha nasceria dentro em breve, mais trincheiras, e que as mudas de caju estabeleceriam uma nova fronteira entre os dois países.

 

 

 

 

 

 

Corpo de Cristo

 

Nos trópicos, tudo envelhece ainda novo. Tudo nasce já estragado, azedo. A goiaba cheia de bicho; a salada arrasada por caracóis, insetos, pássaros; a bananeira tomada pelas aranhas armadeiras; a ferrugem que se alastra pelo metal; o cupim nas portas, nos móveis, no assoalho, na madeira que sustenta a cumeeira do telhado; a pele toda fodida da moça que já virou velha. Os trópicos não poupam nem mesmo a esperança, que aqui se chama desilusão. 

 

É por isso que se reza muito nos trópicos. Em vários cantos, em várias línguas. Uma oração para pedir que a velharia pare de se alastrar por nossas tristezas.

 

Os trópicos levaram também a igreja do padre Avelino. Não toda: apenas a nave central. Como os engenheiros disseram que não havia risco de o resto da Santíssima Virgem desabar, o padre Avelino continuou celebrando suas missas por anos a fio. Ele bem que tentou reconstruir seu templo, mas a decadência da cidade de São Bernardo o impediu. Nos trópicos, até pode se ter uma vida de rico, mas sempre se nasce pobre e sempre se acaba morrendo pobre. E os pobres do bairro que um dia foi rico rezaram muito para poder voltar a ter dinheiro. Oraram tanto que as coisas começaram a melhorar um dia.

 

Casas de muros altos nasceram em cada terreno baldio, a fome diminuiu, a cidade industrial florescia para vencer os trópicos.

 

Então, os grandes, os importantes da cidade foram falar com o velho padre Avelino. Ele era a única coisa verdadeiramente velha na cidade. As outras eram novas. Só pareciam estar velhas. As rugas que varavam seu rosto sempre o acompanharam. Digamos que o velho padre Avelino sempre foi velho, mesmo quando era moço. Agora, na velhice, não parecia ter mudado muito com o tempo. A cabeça sabia ainda ler latim, hebraico, grego, francês, inglês, espanhol e tupi. Aprendeu a língua dos nossos ancestrais no seminário. Jovem, pensava que poderia ser enviado para uma diocese nos confins do Brasil para catequizar uma tribo recém descoberta. Nem pensava que seria remota a possibilidade de o grupo falar tupi. Não interessa. Ele ainda falava, lia, escrevia todas essas línguas. Vez ou outra faltava uma palavra, não achava os óculos ou as chaves do seu fusca azul-calcinha. À parte isso, a memória e o raciocínio estavam perfeitos.   

 

Tampouco havia esquecido que sua igreja, na qual agora rezava uma missa a cada dois meses, tinha apenas metade da nave central. Era disso que os grandes, os importantes da cidade queriam tratar com o padre Avelino: a reconstrução da igreja.

 

– O dinheiro voltou, padre! Acho que podemos lançar uma campanha de reconstrução da Santíssima Virgem, disse José Marchetti, o mais importante entre os importantes.

 

E assim foi lançada a campanha. Notas novinhas de cem reais, ainda ilesas dos efeitos dos trópicos, encheram as urnas de arrecadação. Em menos de um mês, as doações em dinheiro, cheque, depósitos bancários e joias cobriam o custo da reforma. Os engenheiros disseram ao padre Avelino que a Santíssima Virgem estaria reformada em menos de um ano. Um ano, um ano, repetiu o velho sacerdote para si mesmo. Um ano é quanto seu corpo deveria ainda resistir ao reumatismo, às hérnias de disco, à gota, a uma veia quase entupida, ao cansaço geral.

 

Durante aquele ano, padre Avelino deixou tudo nas mãos dos importantes, que tocaram a obra sem sustos. Enquanto isso, o homem preparava sua obra-prima: uma homilia dedicada à centena de fiéis mortos no desabamento da nave central da Santíssima Virgem. Deus não poderia se esquecer daqueles corpos soterrados pelo aço, vidro, concreto da igreja. Nem daqueles que morreram dias depois no hospital da cidade, vítimas do próprio desabamento, de erros médicos, de infecção hospitalar e, talvez, de um ou outro funcionário sádico que desligou o oxigênio. O dia mais triste de sua vida. Nunca se soube a causa do acidente. Uns dizem que o concreto tinha pouco cimento, e o aço não era espesso o suficiente; outros colocaram a culpa no vidraceiro que forneceu vidros muito grossos e pesados para compor os vitrais; por fim, muitos lembram que a igreja foi construída em cima de um charco: “faltou bater estaca’’.

 

Entre as lembranças do desabamento e a obra de reconstrução, o padre Avelino atravessou aquele ano livre das dores da velhice. Escreveu a homilia, preparou a hóstia e ele mesmo fermentou a uva para ser o sangue de Cristo. Se os importantes cuidaram da reforma, ele se ocupou da reinauguração.

 

Ele preferiu não ver como o seu templo estava ficando. Decidiu só ver a obra terminada no dia da missa. Por isso, na reabertura, entrou de olhos fechados na igreja. Só quando chegou ao presbitério é que, devagarinho, deixou a luz atravessar suas pálpebras. Depois de décadas de missa a céu aberto, era estranho ver sua igreja renovada, sem os raios solares iluminando toda a parte central. Viu também que os fiéis tomaram a casa de Deus. E do lado de fora, deveria haver o mesmo tanto de gente ou mais. Por sorte, pensou, ele havia feito vinho e hóstias suficientes para todos os fiéis da cidade. Corpo e sangue de Cristo. Eterno é Deus, disse para si mesmo.

 

A missa durou mais de duas horas. Ninguém reclamou. A homilia do padre Avelino fez toda aquela gente pensar na finitude da carne e dos bens materiais como jamais havia pensado.  A finitude da carne, a finitude dos trópicos. As oferendas. Corpo e sangue de Cristo. O padre Avelino distribuiu a hóstia que ele mesmo preparara sem saber que nos trópicos até o corpo de Cristo estraga.

 

Talvez tenha sido farinha vencida ou água contaminada. As bactérias resistiram até mesmo ao forno? Talvez, o padre Avelino tenha se esquecido de lavar a mão ou o cibório onde depositou a hóstia. Se ninguém morreu na reinauguração da Santíssima Virgem, como no dia do desabamento, os fiéis doentes lotaram o hospital da cidade da mesma forma. Nos trópicos, tudo já nasce estragado.

 

“Ite, Missa est’’.

 

 

 

 

 

 

Finados

 

A morte sempre foi algo próximo e longínquo de Mário Sérgio. Órfão de pai e mãe, abandonado pelos outros parentes como tios e avôs, sem amigos, namorada, nunca enfrentou a dor de perder alguém a quem era apegado. Talvez justamente por não ter ninguém que, no Dia de Finados, Mário Sérgio acordava cedo, tomava um café da manhã reforçado e partia em romaria pelos cemitérios de São Paulo. Ano ou outro, para variar um pouco, ele escolhia uma cidade diferente para realizar aquele seu périplo. Uma vez, foi até o Rio, mas não viu o Cristo, a Baía da Guanabara, o Pão de Açúcar, não passeou por Copacabana, Ipanema e Leblon. Seu dia na Cidade Maravilhosa se restringiu aos cemitérios de São João Batista e ao do Caju, que tanto escutara nos noticiários de televisão. Em Botafogo, levou flores para Santos Dumont, Jobim, Portinari e até para Drummond, apesar de não gostar de poesia. No Caju, Mário Sérgio pensou nos negros que ali eram enterrados antes de o local se tornar de fato um cemitério público, ainda durante o Império. Em Curitiba, no cemitério municipal, descobriu a história de Maria Bueno, chamada de Santa Prostituta por muitos. 

 

Obcecado por cemitérios, Mário Sérgio abraçou a carreira que mais lhe convinha, a de obituarista. Suas notas no jornal eram uma mescla de informação, fatos isolados e pitorescos daquelas vidas já sem vida. E claro, uma certa poesia. Quando tirava férias e o obituário ficava a cargo de algum estagiário ou plantonista descuidado, e-mails, cartas e telefonemas de reclamação acabavam com a tranquilidade dos editores do Diário do Grande ABC, jornal onde trabalhava há 20 anos. Alguns leitores contestavam as informações; outros reclamavam da falta de acontecimentos marcantes daquelas pessoas; e todos ressentiam a ausência de poesia. Mário Sérgio adorava tanto os cemitérios e os obituários, porque no fundo pensava na vida que poderia levar. Faltava-lhe a coragem para seguir os passos do palhaço Picolino, que virou professor de palhaçada, ou a presença de espírito de seu Juvêncio Alcântara ao inventar a expressão “vai tomar no cu’’. Mesmo sem a coragem desses ilustres homens, com seus obituários, Mário Sérgio tornou-os ainda mais magníficos. Na manchete sobre a morte de Juvêncio, nosso jornalista anunciou: “Morre o Inventor da Expressão Mais Libertária da Língua Portuguesa’’. O título perfeito ocupava os 66 caracteres que o diagramador lhe havia dado. Já o cu, Mário Sérgio bem que tentou contornar qualquer menção ao dito cujo usando pronomes, reticências, expressões adjetivas. Nada funcionou. O texto precisava daquele cu escrito tanto quanto a própria expressão. Rendido ao fato, ele o usou apenas uma vez entre as mil outras palavras que incluiu naquele obituário. 96 anos de vida resumidos em mil e uma palavras.

 

Com tantos e tantos cemitérios brasileiros na cabeça, os Finados de nosso jornalista passaram a alçar voos mais altos e longos. Já estava cansado de se ver diante dos restos mortais dos mais ilustres brasileiros. O primeiro destino internacional foi Buenos Aires para visitar o túmulo de Evita Perón, na Recoleta: argentinos, brasileiros, uruguaios, chilenos, alguns europeus e uns poucos americanos rezando baixo pela alma daquela mulher. Mário Sérgio pensou no que poderia ter escrito se fosse jornalista nos anos 50, quando Evita morreu. Um ano depois, e estava em Arlington, em Washington, para descobrir o mistério que cerca a morte de John Kennedy. Em meio a tantos mortos de guerra, ele depositou flores para o jovem presidente assassinado e orou por duas horas. Em Père-Lachaise, em Paris, viu jovens cabeludos e idosos com poucos fios de cabelos brancos se amontoarem diante do túmulo de Jim Morrison. Lembrou da maldição dos 27 anos que persegue os cantores de rock. Então, rumou para o túmulo de Oscar Wilde. A exemplo de Dorian Gray que não envelhecia, mas o seu retrato, Mário gostaria que apenas seus textos ganhassem rugas, e não seus biografados.

 

De tanto andar por cemitérios e cheirar os mortos, um dia o jornalista propôs ao editor de caderno de turismo um roteiro de viagens um pouco mórbido: cemitérios que valem uma visita no Dia de Finados. Obituarista respeitado, a simples assinatura de Mário Sérgio Simonsen nas matérias já atraia a curiosidade dos leitores do Diário do Grande ABC. A matéria foi um sucesso: e-mails lotaram a caixa de mensagens do editor do caderno, os diretores do jornal adoraram porque os anunciantes elogiaram... Nunca o Jardim das Colinas, cemitério privado em São Bernardo, vendeu tantos jazigos quanto naquela semana. Foi um sucesso o anúncio no Caderno de Turismo quando a matéria especial de Mário Sérgio foi publicada.

 

Porém, o sucesso às vezes traz um vazio imenso. Depois da publicação da matéria, Mário Sérgio sentiu seu coração batendo no vácuo do universo, e não dentro do peito entre pulmões, estômago, costelas, veias e outras coisas que só os médicos podem saber. Como em outras vezes na vida, tentou esquecer aquela angústia adiantando colunas. Ou melhor, preparando centenas de textos sobre personalidades que notoriamente não sobreviveriam mais um verão, a começar pelo Papa. Claro, porque papas só são papas por serem velhos, pensou. Pesquisou idade de músicos, pintores, cineastas, atores e atrizes famosos, políticos, empresários, a vida desregrada de algumas pessoas expoentes. Do Brasil aos Estados Unidos, da Europa à Ásia. Todos os dias ao terminar o obituário que sairia na edição seguinte, ele se dedicava a escrever sobre uma dessas pessoas ainda vivas, mas que poderiam morrer em breve. Aquela pilha de arquivos foi se avolumando no seu computador até que um dia a máquina parou por falta de memória. Com o prestígio que desfrutava no jornal, logo o melhor técnico, Pedro Medonho, se debruçou sobre o computador de Mário Sérgio. O caso era grave. Medonho precisaria de pelo menos dois dias para reparar o disco. Já era outubro, então, o temor de perder tudo fez Mário Sérgio cancelar o programa de Finados: uma visita ao Jardim da Colina, agora que havia se tornado garoto (ou senhor) propaganda do local.

 

E foi no Dia de Finados de 2025 que o técnico deu o veredito a Mário Sérgio: “Seu computador está agora perfeito’’. O jornalista sentou-se à mesa sem mais aquele vazio no peito. Não se sabe de quem foi a culpa, mas, ao acessar seus arquivos, o jornalista acabou publicando no site do jornal todos aqueles obituários semiacabados que havia preparado durante meses. Obviamente que os textos não traziam a causa da morte ou algum elemento se referindo à cena da morte, mas aquelas centenas de obituários se tornaram um link na chamada principal do site do jornal. Quase instantaneamente, os telefones do jornal começaram a tocar sem parar. Leitores arrasados com a morte do Papa buscavam mais informações: quem rezaria a missa no Vaticano hoje dia de finados? Outros perguntavam se seriam ressarcidos pelos ingressos do show do cantor Joel, morto não se sabe por quê. A confusão piorou porque Pedro Medonho não conseguia tirar o link do ar e porque outros sites começaram a republicar aquele erro.

 

O erro foi inusitado, mas o que se seguiu depois acabou salvando a carreira de Mário Sérgio. Alguns acharam que ele era mesmo um bruxo. Outros o viram como premonitório. Cada uma daquelas centenas de pessoas cujos obituários Mário Sérgio havia adiantado morreu minutos ou poucas horas depois da postagem. Os jornais do mundo inteiro questionavam como aquele jornal de nada havia conseguido aqueles furos e ainda publicado tão rapidamente aqueles textos. Alguns saíram horas antes de as mortes terem sido confirmadas. Foi o primeiro Finados que Mário Sérgio passou na redação trabalhando. O primeiro e último.

 

 

 

 

 

 

Orfeu

 

Foi exatamente assim que ela falou: só se for com o Diabo. Num primeiro momento, Orfeu, o produtor de O Dia Mais Quente do Ano 2, uma sequência de um grande sucesso do cinema nacional, pensou que era apenas uma manha e que ela logo voltaria à razão. Ela sempre foi assim, pensou. Desde que se tornou uma estrela do cinema e da televisão, Bethsy Pacheco, nome artístico de Elizabeth Euridice Pacheco, fazia uma exigência: durante uma época, só bebia Perrier nos sets de filmagem; houve a época vegana e depois a da dieta das proteínas animais; exigiu uma academia de pilates no meio do sertão quando foi fazer uma nova versão de Vidas Secas. E então, em algum momento, percebia que não seria possível conseguir montar uma academia no meio do agreste ou filmar durante 10 horas por dia enquanto digeria um monte de carnes e gorduras.

 

Orfeu apenas fez aquilo que aprendera com os mestres do seu ofício de produtor. Pura e simplesmente, conforme suas palavras: escutar para depois aos poucos induzir o diretor a voltar ao pensamento racional (como se pensamentos pudessem ser irracionais) e perceber que não é possível colocar 10 elefantes africanos na avenida Paulista para filmar uma cena de 1 minuto e meio de duração. A vida dele era repleta desses exemplos que acumulou em mais de 20 anos de carreira e quase 30 filmes. São artistas, e artistas têm seus gostos particulares, dizia. Por isso, quando Bethsy disse que não faria mais o filme por não ter gostado das alterações que o diretor fizera no roteiro original, Orfeu pensou que só seriam necessários dois ou três dias para mudá-la de opinião. O problema é que ela não queria mais fazer o filme mesmo. E como sabia que a sequência não seria possível sem ela, Bethsy resolveu impor uma condição impraticável. E foi assim que disse que só faria o filme se fosse com o Diabo.

 

Um dia, dois dias, três dias, uma semana, duas semanas, três semanas. Nada de Bethsy mudar de opinião. O atraso nas filmagens estava deixando Orfeu de cabelos em pé. Parte dos técnicos e do elenco reclamava que não poderia mais participar. Eles teriam outros compromissos em breve. Não dava mais para eles continuarem adiando o início das filmagens eternamente. Orfeu precisava resolver a situação de uma vez por todas. Ele sabia que, às vezes, não é possível demover uma pessoa de uma ideia insana. Era o caso agora. Com uma mochila nas costas e o melhor tênis que tinha nos pés, Orfeu atravessou o caminho que separa o nosso mundo dos infernos. Além de comida, água e uma muda de roupas, Orfeu levou um roteiro e um contrato para o Diabo assinar.

 

Depois de muito andar, chegou nas profundezas profundas do inferno, na deep web do mundo cão. A coragem de Orfeu surpreendeu o Diabo, que resolveu escutar a proposta do produtor. Sempre com a cara feia, as orelhas em pé, os chifres apontados para frente, como se estivessem prontos para espetar as entranhas do homem, o tridente em punho, o tinhoso ouviu cada uma das palavras doces, bonitas, inebriantes usadas por Orfeu para descrever aquela história de O Dia Mais Quente do Ano 2. Claro, que uma ou outra coisa soou estranha para o diabo. Essa coisa de mais quente é meio relativa, pensou o coisa ruim. “Dá sempre para esquentar um pouco mais’’.

 

Difícil entender o motivo, mas o Diabo aceitou o convite. Em parte, foi o tédio de eternamente praticar o mal. E então, por que não curar esse tédio que queimava seu coração com uma mudança, um desafio? Mas, sobretudo, foi Orfeu com seu canto de produtor de cinema que convenceu o Diabo a pegar a caneta nas mãos e assinar o contrato. Ele vendeu um mundo de mágica, de luzes, de belas mulheres e belos homens, de grandes traições, ciúmes, paisagens de rara beleza, de outras maldades e de algumas agruras humanas. Um mundo de começo, meio e fim; de apresentação, desenvolvimento, clímax e desenlace, como descreviam os roteiristas. Um mundo que começava com luz, câmera, ação e que terminava com corta. E logo recomeçava de novo, do mesmo jeito, a mesma história, mas feita de um modo melhor... ou feita de novo para ser melhor. Tão logo o Diabo assinou o contrato e lhe devolveu a caneta meio derretida, Orfeu proferiu um “vamos’’. Antes que se pusessem a caminho, o Diabo encurtou o tempo e o espaço, levando-os diretamente ao set de filmagem vazio.

 

Com as orelhas caídas para trás, o Diabo admirou o grande sol pintado numa placa de vidro ao fundo do cenário. Aquele sol parecia ser mais real que o verdadeiro sol e mais quente que o inferno onde passou toda sua vida. Os coqueiros, a areia...

 

-Falta o mar! Temos que colocar o mar aqui, disse o mais novo astro do cinema nacional.

 

Orfeu explicou que água e eletricidade não são elementos que convivem bem. Por isso, o mar seria inserido depois na cena, durante a finalização. Mostrou-lhe uma parede e um chão verde que ocupavam o espaço onde deveria estar o mar. Engenhoso, pensou o Diabo. O produtor ainda explicou que haveria figurantes, alguns seriam inseridos digitalmente, e mais vento para balançar os coqueiros e a canga de Bethsy Pacheco. Engenhoso, repetiu o Diabo para si mesmo.

 

-Mas quando começamos?

 

-Vou reunir o diretor, os técnicos, assistentes, o elenco, os figurantes, as equipes de apoio...

 

Antes de terminar sua explicação, mais uma vez o Diabo entrou em ação, fazendo Orfeu economizar saliva, telefonemas e também mensagens. A equipe surgiu do nada no meio do estúdio. O espanto foi geral. Espanto por estarem diante do Diabo; espanto por Orfeu ter cumprido a missão para apaziguar a estrela Bethsy Pacheco; espanto por que todos sabiam que o preço do Diabo é alto. O que Orfeu teria oferecido ao dissaboroso em troca? Logo, o espanto foi tomado por um senso coletivo de urgência. O produtor correu para certificar que todos sabiam o que deviam fazer. O fotógrafo e seus assistentes começaram a preparar as câmeras, testar a iluminação; o truquista se certificava que o fundo verde estava certo; o cenógrafo arrumava os últimos detalhes da sua praia paradisíaca. Nesse mar confuso de pessoas apressadas, só três delas eram incapazes de se mover. Uma delas era o diretor. O lógico seria que ele pegasse o maldito roteiro e dissesse ao seu assistente que cena filmariam, onde as câmeras deveriam ficar e, depois, se dirigisse ao elenco para expor o que ele queria. Como diabos ele poderia expor ou impor sua visão do roteiro ao novo astro? Dilema instalado.

 

A outra pessoa imóvel era a estrela Bethsy. Ela conhecia Orfeu de longa data. Fizeram mais de meia-dúzia de filmes juntos. Verdade que ele sempre conseguiu contornar os obstáculos que ela costumava lhe impor. Agora, porém, pensou ela, Orfeu se superou. Imaginou as dificuldades que teria durante as filmagens, como beijar seu par romântico, ficar nua diante desse seu novo colega de cena, acariciar o peito do seu par romântico. E o que eles farão com aquela cauda; o chifre; a pele muito vermelha; as orelhas móveis; esse calor que nos sufoca? Enquanto ela analisava a situação, o maquiador foi em direção à terceira pessoa -se é que podemos chamá-lo assim- que estava imóvel no set, o Diabo.

 

-A gente vai dar um jeito em você. Assim, o fotógrafo não vai conseguir nem te enquadrar, disse Josebal, maquiador experiente e sem papas na língua.

 

Sem pestanejar, Josebal gritou para um assistente de produção arrumar um serrote. Enquanto o rapaz procurava a ferramenta, o maquiador começou a testar diversos produtos sobre a pele do Diabo. Precisava apagar aquele vermelho doído. Ia passando os produtos e, de tanto em tanto, cortava um cacho de cabelo, aparava as sobrancelhas do tinhoso, retirava os pelos do nariz e das orelhas. Quando finalmente achou a cor ideal, o produtor chegou com o serrote.

 

-Acho que vai doer um pouquinho, mas vai ficar bem melhor, disse Josebal.

 

E logo, o homem foi serrando aqueles cornos. Teve que montar no colo do Diabo, que não se importou com a dor ou o pó que caía sobre a sua cara. O empenho do maquiador em transformar o Diabo no astro do filme conseguiu despertar o diretor Mauro da catatonia em que se encontrava. O homem se aproximou de Orfeu e soltou a única dúvida que lhe restava.

 

-E o que a gente faz com o rabo?

 

Orfeu ficou sem resposta. Na verdade, ele tinha duas. No início, bastaria fechar o quadro no Diabo, enquanto eles esperavam a solução definitiva, amputar o rabo. O problema seria descobrir quem teria coragem de fazer o que seria preciso: amputar aquela cauda longa e musculosa. E amputação já requeria uma intervenção cirúrgica. Poderia sofrer uma hemorragia, pensou Orfeu. O diretor compreendeu o silêncio do produtor. De repente, em uníssono, falaram:
-Damasceno...

 

Sim, o doutor Damasceno que trabalha em um hospital da Lapa e que já fez mais cirurgias do que qualquer médico durante a Guerra do Vietnã. O homem já tinha feito de tudo, e cinema era parte desse tudo. Consultor, basicamente. Ajudava os maquiadores a criar feridas abertas, dava palpites em cenas dentro de hospitais, quais consequências uma determinada cena poderia ter na vida de um ator ou atriz ou mesmo um dublê. Cortar o rabo do Diabo não seria nada para ele.

 

Ao chegar ao set, o médico foi logo se apresentando ao Diabo. Como tinha trabalhado em hospital público e lidado com bandidos piores do que o capeta, não se assustou ao ver o Diabo em pessoa. Claro que o Diabo já não era mais o Diabo que Orfeu buscara nas profundezas da Terra. Maquiado, engomado, vestido, chifre cerrado, sobrancelhas aparadas, nenhum tufo de pelo saindo pelas ventanas do nariz ou das orelhas, até que poderia passar por um galã, não fosse o rabo. O doutor Damasceno pediu autorização para cutucar a musculosa cauda.

 

-Mas por que você quer mexer no meu rabo? O Diabo perguntou meio ressabiado. O médico explicou que tinha sido chamado por que aquela coisa com uma setinha na ponta não pegaria bem no filme. E como era muito grande, seria difícil esconder em todas as tomadas. Por isso, o doutor Damasceno avaliava que o melhor seria amputar.

 

-Amputar? Não precisa, não. Se está incomodando, eu posso tirá-lo. Depois, coloco de volta. Esse rabo é bem feito, parece de verdade, mas é só um enfeite. Olha só.

 

Aos olhos do diretor, do produtor, do maquiador e do médico, o Diabo desfez um dos maiores mitos a seu respeito. Apesar dos chifres, o Diabo não tem rabo. Sem rabo e sem chifre para incomodar, o diretor só precisava da estrela dele, Bethsy Pacheco, e saber onde colocar a câmera. Com um barril de uísque e uma dezena de carreiras de cocaína na cachola, Bethsy entrou no set levando um lábio postiço.

 

-Não quero me queimar.

 

-Mas não queima, disse o Diabo. Eu consigo me esfriar. É que eu gosto de calor, mas se estiver incomodando, eu diminuo a temperatura. 39 está bom?

 

-Melhor 36. No máximo 37, disse Bethsy.

 

Podemos dizer que quem entrasse ali naquele set nem desconfiaria o que se passara instantes antes. Nem mesmo sentiria o calor dos infernos que tomou o estúdio assim que o Diabo apareceu. Para não dizer que tudo se passava perfeitamente, uma coisa não andava bem. Até que ele tinha um pouco de talento, mas lhe faltava experiência. Para piorar, o Diabo não conseguia entender essa coisa de filmar o fim antes do início e depois passar para uma cena no meio do roteiro porque ambas se passavam na mesma cenografia. Se na cena do fim, ele estava triste; na do meio, deveria expressar alegria. Digamos que o começo das filmagens exigiu muita paciência dos técnicos e do elenco.

 

No dia do lançamento, o próprio Diabo reconheceu isso, agradecendo a paciência de todos com ele. Agora, já um astro e mais confiante de si, fez até uma piada com aquela paciência: se algum crítico aqui falar mal da minha atuação, vai ter que regrar as contas comigo lá no inferno. Um riso nervoso tomou a plateia. Mas o Diabo garantiu que era só uma piada. O fato é que a carreira no cinema o fez tomar a decisão mais difícil de sua vida, fechar o inferno. Talvez fechar seja um pouco forte. Suspender a atividade sem prazo para reabrir seria uma definição melhor. 

 

Nem é preciso dizer que o filme foi um sucesso, e Orfeu já buscava roteiristas para uma terceira sequência. Ator aclamado, o Diabo visionava agora Hollywood, sonho que só Orfeu conseguiria ajudá-lo a concretizar.

 

Formado em cinema em 1990, Francisco Marcelino codirigiu o curta-metragem documentário Crônica com Daniela Wasserstein no mesmo ano. Durante sete anos, lecionou história do cinema e teoria do cinema na Faap, em São Paulo, o que o levou para a crítica cinematográfica no Diário do Grande ABC. Em 1997, mudou-se para Nova York, onde trabalhou como correspondente para as revistas Set e Marketing Cultural, na Rede Globo e na televisão Bloomberg até 2002, quando retornou para São Paulo pela mesma empresa. De 2002 a 2016, em meio à atividade jornalística, continuou escrevendo contos, poesias e roteiros de ficção sem tentar publicá-los ou produzi-los. Em dezembro de 2016, mudou-se para Clermont-Ferrand, na França, para dedicar-se à literatura e cinema.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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