ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Geronimo Lobo


Poemas    

Se também soubeste beijar-lhe as asas
Um punhado de urze que me liberte

 

dá-me um punhado de urze que me liberte
um esgar de céu sem grilhetas
o repouso translúcido,
um vislumbre da tua vacuidade.


dá-me um pomar de beijos ocos
um chão de húmus virgem,
a segurança da tua mão guiando
a incerteza do meu passo
de terra opaca.


dá-me matéria a que me agarre, hesitante
profundidade mortificada
meu amor, não me deixes ir ao fundo
que não sou cavalo-alado.


ah, tu bem sabes,
que tudo eram sonâmbulas mentiras
eu só queria ser teu satélite
girar na órbita do teu mundo.


uma ampola de sangue derramado
um tampo de mesa baça, escassa de luz
uma veia pulsante gotejando
jazendo no soalho, nossa pernoita.
peço-te amor, morde-me a raiva,
marca-me a tua marca.


ah! eu era liberdade amordaçada
jugular aberta envenenada,
e tu estanque saciando
a esgana a raiva e o cio
do lobo que te devorava.

 

 

 

 

 

 

Cerveja 82

 

A cerveja 82 entontecia,
foi três anos após ter conhecido Morrison,
entontecia e era rebelde,
provocatória,
ingénua,
Enfurecia o sangue na guelra
e celebrava a doce inocência
iniciático-espermática,
Espicaçava a descoberta dos nomes e adjectivos
(e outros predicativos) que afloram a pele
e que Pound não estabeleceu
(preceituou) como poesia:
O que (desde logo)
chumba as rimas e a batida de Roadhouse Blues.

 

30 anos após
o pós é apenas um post ao consumismo,
a Ele não me vendo: ao Consumo,
pós-82 (entenda-se),
Exponho-me a rotulagens:
post-consumista
post-passado
post-qualquer coisa
de refinada opacidade interna
de resistência
alheamento
alienação externa
arriscaria: kafkiana barra camusiana
espécimen de primeiro homem
caveira de insecto
crisálida abortada
blasé (se preferirem),
Mas tal como Kerouac
(que escrevia sempre em altas rotações
e conduzia sempre sob o efeito de emoções),
também eu me estou nas tintas para juízos
alheios
e puritanas, distintas
comoções.

 

Bukowski, esse sim,
era o genuíno filho da puta,
(de indiscutível honestidade),
Mexia na merda e revolvia-a,
Grafava poemas
no verso das portas
de casas-de-banho públicas
em gasolineiras,
avulso e de cócoras,
com batons de cores berrantes
oferecidos pelas prostitutas de esquina,
Ia beber inspiração
e loucura
ao Oriente do Oriente
do Intendente
de Boulevard,
Poemas que eram setas,
letreiros,
aforismos devassando sinais de proibição:
gritos de revolta
de que falava Cummings
e com que se inauguram casas literárias,
Escrevia-os ao ritmo da badalhoquice:
sujos e repugnantes.
Bukovski era um expert a dar socos no estômago e a esmurrar narizes.
De resto, para que serve a literatura?
a poesia?
a arte?
Para esmurrar narizes,
Para esvaziar a mimética cristalizada nas paredes do estômago.
Um soco liberta.

 

Em verdade
(e em boa verdade vos digo),
Eliminando todos os parêntesis,
O que me inquieta é a felina sabedoria feminina:
Bishop
(por exemplo):
«Só um irreparável e entranhado problema de ego
leva a que os homens escrevam poesia.»

 

 

 

 

 

 

Museu de Cera

 

Berthold ergue-se do sofá cai do palco
corre o pano preto sai para a rua
apaga o cigarro e vislumbra
no cinzento do alcatrão: poças
óleo boiando à superfície da água da chuva
espirais lambidas pelos cães de asfalto
que Ruy Belo soltou com a missão de roerem os passeios.

 

Elliot surpreende-se como sempre se surpreende
quem contempla a corrente do rio
depositando pedaços podres:
madeira lixo mais óleo naftalina dejectos
o braço decepado a sangue frio
do rapaz que pede esmola
entre o último pilar da ponte greco-romana
e a margem do lado de cá,
moderna
subversiva.

 

Sawyer aprende coragem arremessando pedras às estrelas
unindo oposições à motivação em massa.
A medo o príncipe hesitante sobrevoa a cristalização flutuante
das cabeças que se escapam para frente.
Também Tarr condenou Kerr a cão de asfalto.
Ninguém se salva!
Nem mesmo o rapaz de cabelo ferrugem
do amor mais velho que o desconforta:
chapinha e dança,
despede-se,
saúda a morte em rejeição e ironia.

 

Frederico,
o Grande Eremita dos tempos vindouros,
prediz premissas
lega pequenos tomos e morre aos bocados
a cada visualização no youtube
tecendo solidão a que chamam demência
sabedoria alojada em clouds 
distribuída a rodos
avulso
em fascículos.

 

O estrangeiro de revólver na mão
recusa a cegueira na praia sem poente
da areia desenterra conchas
dispõe ordena decifra:
a fundamentação existencialista
laica
desinteressada
indiferente
niilista.

 

 

 

 

 

 

Aranha, hiena da carnificina

 

(Assustada,
A aranha foge pela parede acima,
Acabou de comer os olhos ao poeta
Que levou para cama arrastado pelos tornozelos.
Degolado,
Devorado dos restos boémios da noite vagabunda.
Hiena da carnificina.)

 

O sol condensa-se nos azulejos da cozinha.
Ela corre a persiana.
Filtrada,
A luz do dia transmigra cinzento-alma.

 

Despe-se,
A roupa caída pelo chão,
Entretanto, o soutien,
A carne balouça,
Sobe,
Desce,
Descalça-se, a caminho do duche.
A casa é pequena,
Mas cabem lá dentro todos os sonhos.
A tepidez de água lava os restos do sono.
Antecipa o dia.

 

Desço as escadas do prédio.
Vigoro-me no ranger da madeira velha.
Na rua levanto a gola do casaco e ajusto o peito ao frio.
O velho da tabacaria passa-me o maço de cigarros.
Espero-te no carro.

 

Enquanto te espero
Talvez me encontre.

 

A chuva cresce, invade os passeios,
Inunda, lava, traz lixo, entope sarjetas,
Multiplica-se
Escorre pelo vidro da frente
Bloqueia
Distorce a visão
Não dissipa
Turva-te de solidão.

 

O coração era um pêndulo de vidro.
Tu nunca irias chegar e eu cansar-me-ia de esperar,
Não por ti
(podes sempre bater-me à porta),
Mas por mim
(tenho esta necessidade premente),
Valido-me a todos os instantes.

 

Ao poeta António José Forte

 

 

 

 

 

 

Era Inverno

 

Era Inverno,
herméticos os dias depois das aulas,
no quarto entre cadernos e livros da escola por abrir
e um gira-discos portátil
desconstruindo finais de tarde riscados no vinil,
Ian Curtis à contra-luz equilibrando-se nas estrias
e nós aprendendo a morrer.

 

Ao longe o amolador avisava da chuva
e a tosse tubércula dos velhos da casa do lado
selava o nosso Inverno para sempre.
Um gato compunha o quadro no parapeito da janela defronte.
Invocativa, a matilha reunia-se,
Encerrava lamentos e abandonava os vãos de escada,
Saía para as ruas,
Galgava raiva
e desfiando o tempo antecipava o Verão
e fazia liberdade.

 

(Um dia destes li num escrito de um poeta já morto:
Que afinal o mundo não acaba
e que temos possibilidades a dobrar e a triplicar
de roçar o infinito e enterrar para sempre o absurdo
de pensarmos a nossa existência.)

 

O sol rompia de uma prece mil vezes repetida.
Na incerteza chorávamos,
não sabíamos se de alegria,
se pela doce dor amarga da separação
a que nos condenaram
e a que chamam saudade.
As tentações eram demónios que nos desafiavam,
do lado de lá do bosque.
Que fantasia vestias?
Eras duende ou a minha fada-má?

 

A desconstrução era retomada
e o castelo mágico não ruía
feito que era de sonho e entorpecimento iniciático.
Vasculhávamos remédios para a nossa cura.
Alcançávamos o oriente do oriente
e decepávamos cálices que ladeavam e ornamentavam
a estrada do nascer do sol das nossas manhãs
de sabor a hortelã-pimenta.
Ocasionalmente, cometíamos pequenos crimes.
Gizávamos o futuro
e gozávamos o vazio interminável do tempo.
Destilávamos o vermelho do poente
e decantávamos a descoberta dos corpos
nas trocas de calor de pele ensalivada
nua e febril.

 

Saldávamos contas antigas
liquidávamos a alma no saldo do deve e do haver,
e no fingimento prolongávamos o sonho.
Oficialmente, e para memória futura,
nos cadernos anotávamos registos encriptados
de teorias existenciais de curta duração,
não fosse o diabo tecê-las,
ou deus fazer-nos das suas.

 

 

 

 

 

 

Percepção

 

Percepciona um pássaro:
Agarra-o,
Não o deixes escapar,
Alimenta-o,
Dá-lhe de beber,
Ar para respirar.

 

Abre depois a palma da mão:
Solta-o.

 

Se permanecer,
Foi porque o amaste em demasia.

 

Se te fugir,
Foi porque o soubeste amar.

 

Retornará,
Se também soubeste beijar-lhe as asas.

 

 

 

 

 

 

O amor em ensaio

 

Aqui chegámos.
Neste quarto de mundo.
Restamos.
Sós.

 

Quero escrever-te um poema,
um ensaio: Amo-te!
Qualquer coisa escrevinhada num pedaço de papel
que dobras ao meio
e guardas no fundo da algibeira.

 

O amor...
É uma coisa...
Assim:
Iminente.
Não avisa à chegada.
Mente na despedida.
Não traz manual de instruções
Raramente um kit de emergência.

 

 

 

 

 

 

Da salvação do barro (ou a perdição da carne)

 

Traz-me barro.
Cegamente moldarei o teu corpo,
Tacteado,
Na intimidade dos contornos percorridos,
Definindo-te:
Carne infinita na carne,
Pele indefinida na memória da pele.

 

Traz-me sede,
Serei água saciando.
Traz-me fome,
Estarei faminto de sustento.
Traz-me silêncio,
Serei eco perpetuando.
Traz-me caos,
Serei desordem apaziguante.
Traz-me guerra,
E desenterrarei a paz que adia.

 

Traz-me o teu corpo.
Recriamo-nos no barro,
Do barro seremos cinza,
Da cinza regressamos ao pó,
E do pó renasceremos.

 

Espiritualmente não tenho salvação,
E as emoções são apenas burocracia,
Tratamos dela noutro dia,
Talvez o final.

 

Vem!
Traz-me o teu corpo.
Salva-me!
Asceticamente eleva-me,
Sou eterno condenado,
E carnalmente vais ser a minha perdição.

 

 

 

 

 

 

Deusa do Fogo

 

Vive, labareda viva,
Vive em mim.
Arde, ardentemente,
Arde sem fim.
Minha paixão dançante
No teu altar em chamas
O meu trono,
Diz-me que me amas,
Deusa do Fogo.
Sacraliza-me.
Imolo-me,
Dentro de ti.

 

 

 

 

 

 

os olhos, expurgo

 

ardem-me os olhos, expurgo
vermelho puro, sujo de sangue

 

do corpo os pés afastam a túnica
exangue, despida,
sulco arrastado,
árvore morta, caída,
plana rasura do teu jardim
de terra ressuscitada

 

sopro de enxofre,
veia bálsama
virgem
profetiza
de marfim macerado
na cova das tuas costas, jazo,
desespero,
rasgo de pele asfixiado 


carrega-me, por favor
dá-me vida,
é só mais um fôlego, meu amor
vivo
sete vezes sete metros elevado do chão
se me libertares, vôo
mas tropeço
suspendo
e tanto que eu queria
dos teus braços um berço

 

deus meu! o que venci em altitude
é agora um credo perdido de medo,
e antecedo,
fatal
na curva anunciada
curvo-me, tombo na vénia,
desfaço-me
final do acto

 

colhe da minha vertical
um pedaço
e assim me despeço,
não me chores,
que não te mereço,
talvez nem seja real,
e da minha memória apenas te reste
um parêntesis fechado
tangente de um ponto final.

 

© Geronimo Lobo (Dezembro 2019)

 

 

Geronimo Lobo, Lisboa, 1966
Pela mão do seu criador, Arnaldo Saldanha Abreu, tem poemas e pequenos contos dispersos pelas revistas digitais:  Triplov, eisFluências, Fotomanya Vip, e no audioblog Estúdio Raposa. Participou em antologias da Pastelaria Studios Editora que realizou um pequeno filme para um seu poema premiado. Publicou, em 2014, em edição de autor, o livro de poesia Transparências e outros anexos.
Escreve palavras no blog NUCONFICCIONARIUM que também partilha no Facebook.
https://nuconficcionarium.blogspot.com/
geronimo.lobo@hotmail.com

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Colaboradores de Janeiro de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alfonso Peña, Amirah Gazel, Ana Romano, António de Miranda, Antônio Torres, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Casé Lontra Marques, Cecília Barreira, Clécio Branco, Delalves Costa, Deusa d’África, Eduardo A. A. Almeida; Fernando Sousa Andrade, Eliana Mora, Francisco Marcelino, Geronimo Lobo, Helena Mendes Pereira, Hermínio Prates, Inés Aráoz, Inés Legarreta ; Rolando Revagliatti, J. R. Spinoza, José Arrabal, José Manuel Teixeira da Silva, José Petrola, José Ricardo Nunes, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Makely Ka, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Nicolas Behr, Otildo Justino Guido, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rosângela Vieira Rocha, Silas Correa Leite, Ulisses de Carvalho, Waldo Contreras López, Wil Prado


Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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