ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


A beata e a força da fé    

A mulher acordou com o canto do galo e seguiu a rotina: abriu a janela do quarto e viu uma rolinha na cor do caldo de feijão tecendo diminutos galhos na feitura do ninho. Mais um milagre de Deus, pensou a solitária de tantos anos. Desde menina os dias sempre começavam iguais; abria a janela e respirava o ar puro vindo da mangueira, tão antiga quanto ela. Ainda na janela rezou em silêncio, arrematou com uma cruz nos lábios, outra no peito magro e arrastou os chinelos pelo longo corredor, até à cozinha. Pingou gotas de álcool nos tocos de madeira, acendeu o fogo e cuidou dos apetrechos de coar café. Em minutos a água ferveu e o líquido quente fez exalar do pó escuro o cheiro com sabor de saudade. Lembranças da mãe, sempre calada e com um terço entre os dedos para as muitas rezas em favor do marido, dos pais e dos filhos, até dos que não vingaram.

 

Mercês, Maria das Mercês Salgueiro, passou manteiga no pão dormido e mastigou saudades das irmãs, meninas alegres que riam  o tempo todo, mesmo que o carrancudo pai estivesse por perto.  Ele pouco falava, demonstrava amor no olhar, às vezes fixo nas filhas, geralmente perdido em não se sabe onde. Era um homem bom, afeito ao trabalho, que soube gerenciar os bens herdados e até os aumentou, permitindo à família uma vida de quase conforto, onde nada faltava.

 

O tempo tornou as irmãs em moças com seios e idades de casar;  cada uma, todas, uma de cada vez, namorou, noivou e casou, deixando mais vazio o mundo de Mercês. Com a morte do pai, ainda novo, vitimado pelo excesso de fumo, mãe e filha se sentiram miúdas naquela casa de tantos quartos vazios e salas sem a alegria das irmãs, agora senhoras do lar, com muitos filhos para criar. Ela não casou, nem sequer pensou nisso, uns dizem que por falta de interessados, outros para ficar ao lado da mãe, definhando na tristeza e com uma tosse seca e insistente, que a fazia sacudir o peito sugado por mal incurável. Chás, tônicos, pílulas apenas amenizavam, mas sem nenhuma eficiência na cura. E ela se foi em tarde sombria, com ameaça de aguaceiro.

 

Naquela noite, com o silêncio das ausências, imaginou o que poderia ter sido a sua vida, se deveria ter se casado também, mas quem cuidaria dos pais, idosos, doentes e cada vez mais dependentes dela? Uma vez, quando ainda era mocinha, percebeu os insistentes olhares de um rapaz, o Jeremias, filho de fazendeiro de boas posses; mas a fama dele não recomendava: diziam ser pai de filhos sem nome, frutos de sedução de mocinhas da roça. E pior: era enrabichado com uma tal Eudorita, a Dorinha de vida devassa. À lembrança da mulher de decote oferecido e proceder na perdição, Mercês se benzeu, jogando na vala do esquecimento um improvável casamento com o imaginário pretendente. E concluiu, após a última prece antes de dormir: recebera uma missão divina e sabia estar nas graças do Senhor, amém.

 

Todos os dias de infindáveis semanas, meses e anos, Mercês media a solidão em passadas pelos corredores, quartos e salas da casa tão antiga quanto as lembranças. Saía apenas para ir à missa e às pequenas compras. Não tinha luxos, os aluguéis que recebia dos imóveis que o pai deixara eram mais do que suficientes para sua vida regrada e metódica. Uma vez por semana ia ao cemitério, levava flores e rezava diante das sepulturas dos pais. E nem se esquecia da irmã, morta ainda anjinho, que nem aguardara a água santa para o batismo. O nome dela seria Lucélia, a raspinha do tacho, como se dizia.

 

Uma manhã, dona Edelzuíta, a vizinha da direita, aguardou na janela dos dizem que foi assim, a aproximação de Mercês e a interceptou com algo nos braços balofos. Era uma cachorrinha, tão branca como a pureza das virgens:
 - Mercês, minha cadela deu crias e separei essa especialmente pra você.

 

 - Nunca tive nenhum cachorro, prefiro o canto dos passarinhos no quintal.

 

 - Ora, menina. Passarinho canta, mas fica de longe. Um animalzinho como esse é companheiro o tempo todo.

 

Mercês talvez não devesse ter feito o que fez, mas olhou nos olhos da cria e se enterneceu; assumiu a maternidade.  Pureza, esse o nome escolhido, se revelou uma parceira alegre, buliçosa, sempre disposta a brincar. E até rompeu barreiras nunca imaginadas por Mercês: o animalzinho pulou sobre a cama, poluiu com as patinhas a limpeza dos lençóis e se assenhoreou de afagos e ternuras inimagináveis até então. A mulher solitária e triste passou a rir como nunca o fizera antes. Pureza, tão linda e miudinha...

 

Mas o relógio dos humanos difere do que marca o tempo dos animais. Pureza cresceu, ganhou corpo e ficou mais inquieta, saltava pelas janelas, arranhava o portão, parecia exigir liberdade. O que seria aquilo?

 

A vizinha explicou que era o cio; a fêmea exigia macho. Mercês corou e concluiu: só podia ser obra do demônio! Os animais nada sabiam das safadezas do mundo. Foi aos pés do padre Nivaldo; após a genuflexão diante do altar e três nervosas cruzes no arfante peito, quis saber se a cadelinha Pureza fora possuída pelo diabo. 

 

Ora, o padre já fora jovem e homem e consta que... não importa. Ele ouviu, “riu à socapa”, por ser apreciador das obras de Machado de Assis e esclareceu que não havia com que se preocupar, pois o demônio não se interessava pela inexistente alma dos animais e sim nas dos filhos de Deus. Dessa forma – foi didático – havia duas opções; castrar a fêmea ou permitir que a natureza seguisse seu curso.

 

 Deus meu – pensou a beata – será que o que dizem do padre Nivaldo é verdade?

 

Não sabia e nem desejava saber. Mercês, sem qualquer motivo, se lembrou de uma procissão de anos passados. Após a longa caminhada atrás do andor com a santa padroeira da cidade, houve uma quermesse para arrecadar fundos necessários para trocar o telhado da igreja e ela pensou em arrematar uma ou duas prendas para ajudar. Estava no meio do povo, atenta aos doces, bolos e biscoitos ofertados e aos lances que faziam, quando o terço escapou de seus trêmulos dedos e caiu no chão. Imediatamente se abaixou e sentiu algo que a cutucou em local indevido. Imaginou que fosse alguém distraído com uma vela nas mãos; e seria uma daquelas velas grossas, que dizem ser de sete dias. Para seu espanto e indignação, não havia vela nenhuma, apenas o sapateiro Gumercindo com olhar safado e indecente volume sob a braguilha. Deus meu! Se benzeu repetidas vezes e saiu às pressas, não sem antes ouvir o risinho do sujeito, acompanhado de  indecorosa oferta. Se precisar de consolo, pode me chamar, disse o maldito! 

 

 Talvez por isso, naquela noite, já na cama e antes da última oração, comparou a inquietação da cachorra com os calores que sentira tantos anos antes, em noites de lua cheia, quando se dizia que lobisomens arrombavam portas e janelas e rompiam virtudes de donzelas sonhadoras. Será? Na dúvida, beijou o crucifixo pendurado no rosário e iniciou longa reza implorando a proteção de Santa Catarina de Alexandria, a padroeira das solteiras. E para não cair em tentação reforçou com peditório de amparo à beata Emelina, outra defensora das virtudes femininas.

 

*Jornalista
herminioprates@gmail.com

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda - Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico) e A Amante de Drummond (contos).

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Janeiro de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alfonso Peña, Amirah Gazel, Ana Romano, António de Miranda, Antônio Torres, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Casé Lontra Marques, Cecília Barreira, Clécio Branco, Delalves Costa, Deusa d’África, Eduardo A. A. Almeida; Fernando Sousa Andrade, Eliana Mora, Francisco Marcelino, Geronimo Lobo, Helena Mendes Pereira, Hermínio Prates, Inés Aráoz, Inés Legarreta ; Rolando Revagliatti, J. R. Spinoza, José Arrabal, José Manuel Teixeira da Silva, José Petrola, José Ricardo Nunes, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Makely Ka, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Nicolas Behr, Otildo Justino Guido, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rosângela Vieira Rocha, Silas Correa Leite, Ulisses de Carvalho, Waldo Contreras López, Wil Prado


Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR