ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

José Arrabal


A presença da morte    

A morte? A morte tem hora e vez de chegar. Não duvido e não duvido mais desde o que aconteceu comigo há três anos, fato que não esqueço, basta contar para arrepiar, não de medo, mais por dúvidas, pois sempre restam dúvidas em tudo, muito mais diante da morte.

 

Imagine só. Estava eu em leito de hospital, operado de úlcera perfurada. Foi, sim. Na hora, despertava da anestesia aos pouquinhos, devagar, só, no quarto, tonto e turbado.

 

Olhos abertos, via tudo nublado. Eis que então na porta do quarto vi um vulto magro, alto, envolto em pano cinza.

 

Seu corpo inteiro, ventava forte em torno de seu corpo inteiro, e ele segurava uma espécie de bastão com estandarte metálico e curvo na ponta do cabo longo, o que mais me pareceu ser uma estranha foice. Coisa que hoje imagino melhor, com nitidez, sendo mesmo o que era, uma grande foice.

 

Foi, sim, por mais que digam a mim, quando conto, feito agora, que tudo não passou de fantasia minha, delírio devido à anestesia. O que sequer importa, pois fosse ou não fantasia, foi o que foi...

 

....por mais que me digam:
- Esquece! Esquece disso, Seu Nascimento! Pensa no porvir, meu amigo! É o que mais vale na vida! – dizem para mim, quando conto esse acontecido...

 

...ora, o porvir! Que porvir? Tem sempre um fim! Assim é sempre... o seu engodo, sempre!   

 

Além, mais pressenti que o vulto na porta do quarto me enxergava com sua atenção insegura. Mirava assim, disposto, porém desconfiado. Bem notei. Tinha o olhar de quem duvida e confere.

 

Por mais que digam a mim, quando conto, que tudo não passou de um sonho, o que sequer importa, pois fosse ou não, sonho, foi o que foi:  aquele vulto alto, lá, com uma grande foice, na porta do quarto de meu leito no hospital. E, se ventava forte, só ventava em torno dele, do corpo inteiro dele, o vento agitando os panos, o manto cinza que envolvia seu corpo, um vulto com a dúvida no olhar, mais sua grande foice em pé numa de suas mãos.

 

Creio que vi, crendo ou descrendo no que via na porta do quarto. Detido em meu susto ao ver, deveras até hoje estranho essa visita incerta, comigo entregue também à duvida...  do medo.

 

Sim, porque diante da morte nunca temos certeza do medo que sentimos. Com certeza... se é que sentimos medo nessa hora, pois quem há de saber se o medo de então é medo mesmo? Ou é alívio, o que sentimos? Diante da morte...

 

...justo alívio por certa bem aventurança devida, com a liberdade prenunciada pela presença da morte. Livre estando então quem morre, por não mais se encontrar detido nas restrições do tempo que corrói a vida. Quem sabe? Diante da morte, na frente do fim da vida, quem sabe é assim? Sendo alívio em vez de medo, o que sentimos na hora.

 

Aí! Houve o que houve! Tudo porque perguntei a hora. Não mais do que isso.  Por lhe perguntar a hora. Ao vulto.

 

Ele? Não era de ter voz rouca. Nem grave. Nem soturna. Sequer aguda. Nada disso. Tinha voz de quem seduz, com tempero e temperatura precisas, a voz da morte, sim.

 

Apenas respondeu, mais conforme quem diz somente para si, respondeu na hora:
- Ora, a hora de agora? Não! Não é ainda a sua hora! – sussurrou seguro, um tanto a contragosto.

 

Disto desapareceu contrariado, o vulto, creio que sim.

 

Quanto a mim? Confesso e juro...

 

...abandonado por aquele vulto fora de hora, nunca me senti tão só, embora vivo.

 

X00X

 

 

JOSÉ ARRABAL é professor, jornalista e escritor, autor de contos, novelas e romances. Entre suas obras, sobressaem “O Nacional e o Popular Na Cultura Brasileira – Teatro” (Editora Brasiliense), “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras - Vol 1/Vol. 2”, “Histórias do Brasil”, “Cacuí, O Curumim Encantado”, “As Aventuras de El Cid Campeador”, “Romeu e Julieta”, “Da Vinci das Crianças”, “O Terrível Gosmakente”, “Lazarilho das Crianças”, “A Chave e Além da Chave” (Paulinas Editora), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço” (Editora FTD), “Histórias do Japão”, “O Lobisomem da Paulista...” (Editora Peirópolis), “Contos Brasileiros” (Editora Expressão Popular), “Sherlocks On The Rocks Nas Diretas Já”, “A Sociedade de Todos os Povos” (Editora Manole) e “Anos 70 – Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora), “Nouvelles Brésil” (Éditions Reflets d’Ailleurs - /França/2014). Blog: http://josearrabal.blogspot.com.br/ 

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Janeiro de 2019:

Henrique Dória, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Alfonso Peña, Amirah Gazel, Ana Romano, António de Miranda, Antônio Torres, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Casé Lontra Marques, Cecília Barreira, Clécio Branco, Delalves Costa, Deusa d’África, Eduardo A. A. Almeida; Fernando Sousa Andrade, Eliana Mora, Francisco Marcelino, Geronimo Lobo, Helena Mendes Pereira, Hermínio Prates, Inés Aráoz, Inés Legarreta ; Rolando Revagliatti, J. R. Spinoza, José Arrabal, José Manuel Teixeira da Silva, José Petrola, José Ricardo Nunes, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Makely Ka, Marinho Lopes, Matheus Guménin Barreto, Moisés Cárdenas, Nicolas Behr, Otildo Justino Guido, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rosângela Vieira Rocha, Silas Correa Leite, Ulisses de Carvalho, Waldo Contreras López, Wil Prado


Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR