ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

José Manuel Teixeira da Silva


Poemas    

Súbito
a mão
para lá da
luva prespontada
aqui influi o sangue
langue o corpo exangue
dói
pelo empapado tecido opaco
enquanto duram os
mecanismos perfurantes
Mas súbito
a mão

 

Súbito a mão, Fac. Letras Universidade do Porto, 1983

 

 

 

 

 

 

A CHUVA NA PISCINA

 

No ardor da natação
investem as nuvens
o denso balanço do lugar
corrente para o centro da água
e em água revestido
Só assim se sustenta
a tão suave penetração
e revertem dos gestos fundos
as ondas cadentes,  a chuva do lugar
em lugares torrenciais ensimesmado

 

 

 

 

 

 

CARAVAGGIO, OLHANDO OS BARCOS EM VALLETTA

 

Prefiro o modelo das ondas à fímbria da distância
enquanto sigo a determinação inquieta
destes barcos na barra, os olhos frontais das proas
Lembro-me, o clarão da cidade é o primeiro dos assaltos
labirinto de escadinhas, gente demasiado próxima
veludos, canela, peixe frito, o cheiro picante da pobreza
Não esquecer, luzes no palácio dos governadores
Alguém sempre me persegue
não perdoam as roupas extravagantes
as tintas que se limitam à inspiração da ilha
modesta sagração dos dias que me cabem
Como ocultar o extenso furor do mundo
rodas humanas de choro e riso
a malta do mercado, cortesãs, tantos músicos ambulantes?
Protejo-os com focos de divina glória
os mesmos lumes que aprendi do oceano
e brilham no vasto tema das figuras degoladas
Apenas sei rezar a uma Virgem que conheça
assim com os pés de fora do seu último leito
o ventre claramente inchado
Pescaram-na do Tibre e fê-la Deus repousar
do esplendor fácil dos seus dias

 

Resta-me partir, ilha a quem abandono os olhos
perseguido por alguém que não conheço
e vou talvez morrer num outro porto, decerto por engano
Não te trairei com as saudades
mas devolvo-te o pecado fervilhante do sagrado
e de mim, na despedida, a gula da confissão
que só a estes barcos eu confio

 

 

 

 

 

 

LISBOA, RUA DOS DOURADORES

 

Os habitantes vão polindo o ar
o grão em suspensão dos gestos
tão raro o comércio da luz na luz
se transparecem os ofícios
nos balcões assim expostos
Demoram com a tarde, atravessam
portas de penumbra, imenso pó deposto
Deslumbram, passo a passo
a  troca mais lenta do olhar

 

Se durando espelha o ferro
em todo o fulgor da noite
dias e dias sombrios
dessa luz se transmutando

 

As Súbitas Permanências, Quasi, 2001

 

 

 

 

 

 

O QUARTO DOS BRINQUEDOS

 

                                                             para o David

 

Os meninos seguem na ventania dos quartos
não sabem apenas brincar, como lhes pedem
Onde estamos, ao acordar de coração no breu
que tempo, que vida, que caminho para a mãe?

 

De onde vem a luz que arromba as portas?
Como abrem para o escuro? O que fica no vazio?
Levam-nos por mares salgados, florestas silvestres
buracos rupestres de grutas, metrópoles desdobradas

 

Alguns exemplos da vida verdadeira
crocodilo com indígena e coqueiro, trenó do pólo
um carro que depressa distribui todo o correio

 

Ou o capitão sombrio, navio que incendeia a costa
aranhiços suspensos das estrelas, boneca que chora e ri
mil e um riquexós do sol nascente, vaga-lumes amestrados

 

 

 

 

 

 

AGUACEIROS

 

                  (em memória de Bernardete Ferreira
                   e Alice Machado, na chuva do tempo)

 

Ela levou-nos
com os cabelos lustrosos de chuva
ao lugar da mulher que morria
Abria portas atrás de portas
chamava quanto restava do dia
e era apenas o mundo
Velhas, novíssimas vozes
pelos nós sobrepostos da água
bátegas como se fossem
o próprio corpo, o fim do corpo

 

Podíamos cantar cada tristeza
quando tudo respira ou termina
à luz assim de tais trovões
Guiava uma criança pela mão
corria, apenas corria
entre todos os primeiros aguaceiros

 

Mas alguém se afastava
começando a jogar às escondidas
enquanto, distraídos, chorávamos
chuvas passadas
imagens do maior esquecimento
E morreu depois a mulher saudável

 

Quem fica para contar estas histórias
alegoria rouca que encharca os ossos
afunda a vida inteira?
Quem está por aí?
Quem vai fechar a porta?

 

Canção tão extrema
dizia outro, num outro tempo
mas talvez chovendo
canção tão destemperada
a quem há-de chegar, extinta
a tua voz?
Pudesses apenas nada repetir
senão o ardor da dor
como vivo aguaceiro
respirando, em cada dia
do princípio ao fim do mundo

 

 

 

 

 

 

PASSAGEIROS DO METROPOLITANO
DE NOVA IORQUE, SURPREENDIDOS POR W. EVANS

 

Este é um poema incompetente
para a temática em causa
que, só por mero acaso, somos nós
Na verdade, não nos surpreenderam
porque desconhecemos essas fotografias
e temos dúvidas se fomos realmente chamados
Many are called?
Estamos aqui com nem sequer sabida ignorância
anónimo sono, o ânimo da morte
Soldados da vida ou super-heróis
somos tão só, na metrópole famosa
a colecção dos olhares que nos olharam
por exemplo em 7th. Ave. Local / South Ferry
145th St. Lenox Ave., como vemos escrito
Apenas encostar a cabeça ao mundo que nos cabe
as mãos cruzadas como as últimas
e nada saber dos outros passageiros
lá vão eles naquele comboio
justamente em sentido contrário
Quem vive agora a sua vida
no mesmo dia lá em cima
o que fazem eles, falarão também de nós?
Para que eterno festim somos convidados
quando saltam os carris ou é maior a chiadeira
do ferro no ferro, contra o lenho
se esquecemos a impecável veste nupcial
e nos ficamos por flores na lapela
golas de marta, a roupa que calhou?
Chegaremos a casa a horas?
Será a última estação o prometido deslumbramento?
Esperam-nos clarões angelicais
iluminando de néon as multidões?
Ou ficarão nossas frontes coroadas de espinhos
entre chapas fumegantes, retorcidas
choro e ranger de dentes
viva notícia num jornal como este
onde nos caem os olhos
um título como se fosse um verso perfeito
Pal Tells How Gungirl killed?

 

Música de Anónimo [poesia, 2001-2009], Companhia das Ilhas, 2015

 

 

 

 

 

 

Há nas vidas a vida das batatas
o que sempre assim fica por rimar
deposição, mesas, anatomia
sem harmonia nem melancolia
cozinhas negras, furnas e fuligens
a surda floração de cada tempo
coisas só cesura, e dor, precipitadas

 

                            *

 

Haveria a casa de luz ou sombra
para soltar batatas e batatas
ver chegar mil e uma borboletas
em quartos que de quartos se trespassem
sobre varandas que dão para um rio
voos, peixes, diversas natações
e não saberíamos, é abismo ou céu

 

Anima [a partir de ilustrações de Ana Abreu], Língua Morta, 2011

 

 

 

 

 

 

CAPELA DOS OSSOS EM LAGOS

 

É um anexo da morada branca
para lá da sucessão das naves
Em rigor, errámos apenas de transparência
em transparência, até às cúpulas quebradas de cristal
Há mudanças de horários, atrasos nos semáforos
uma ou outra metáfora
ondulações, voos espaçados
Recomeçaram obras de conservação ou de restauro
e assim se adiam as visitas
O estilo é gracioso, com ossinhos delicados
simetrias que o acaso desenhou
para quase nada
e só o pensamento agora edificou
Pendem as maçãs de ouro, no fundo do jardim
como se fossem já maduras

 

Ampliações e reconstruções
os nomes que imitam, como sempre, a natureza
estragos causados por um terramoto antigo
a imagem de uma santa dando à costa num caixão
e que alguém vai recolher, após naufrágio

 

Lento, o labor do sal e da luz nessa capela

 

 

 

 

 

 

COSMORAMAS INSTRUÍDOS PELO TEMPO

 

O teu olhar, o do teu pai
mesmo em frente das traseiras
arrabaldes, muitos poços da cidade
vêem o mundo quase igual

 

Nitidez desencontrada, cataratas da luz
que se divide em duas vidas
e fica no orvalho pelas paredes
em crostas de diversa transparência

 

As casas moram em sua suspensão
aguardam com nervuras de ferrugem
e claridade, paciente, dos estuques
há um nó que se desata, de repente
em chuvadas pelos fundos

 

Roldanas invisíveis, guindastes
um pouco recuados, alavancas
transferem os cenários do lugar
os pátios que dão para outros pátios
a volúvel quietude da montanha e do rio

 

Antigas, regressam as crianças
aquelas que respiram no silêncio
são correrias loucas, avançam
e recuam, atordoam corredores em paralelo
espalham lápis afiados
abalam a mesa onde alguém escreverá
apenas sobre brinquedos e paisagens

 

 

 

 

 

 

HEMORRAGIAS, ENTUPIMENTOS

 

Acontecem hemorragias
entupimentos nas artérias
acelerações do que muito circula
coagulando, lentamente

 

Tarde o sabemos, nas nossas casas
os lugares dão uns para os outros
apagam-se longe as luzes
acendem-nos agora
como se fosse de repente

 

Quando a mãe nos olha
e a mão acena apenas
por dentro de si própria
a perna que tanto hesita
caminha entre árvores cansadas
corredores batidos pela água
grandes vidros fixando o calor
até aos quartos mais antigos

 

Nem sempre se diz coisa com coisa
porque os sítios vivem entre si
entre si caem nos escuros desvãos
lá onde ficam as canções de embalar
abrindo para o jardim
e há pássaros suspensos
animais que se aninham
muito ao fundo

 

O Lugar que Muda o Lugar, Língua Morta, 2013

 

 

José Manuel Teixeira da Silva nasceu no Porto, em Dezembro de 1959. Vive em Vila Nova de Gaia, onde é professor. Escreve poesia, alguma prosa, faz fotografia. Principais publicações: poesia- Música de Anónimo (poesia, 2001-2009), Companhia das Ilhas, 2015; O Lugar que Muda o Lugar, Língua Morta, 2013; Anima (com ilustrações de Ana Abreu), Língua Morta, 2011; As Súbitas Permanências, Quasi edições, 2001; Súbito a mão, Fac.de Letras da Univ. do Porto, 1983|ficção- Sombramar (ilustrações de Ana Abreu), Companhia das Ilhas, 2019 |fotografia- Ver. - 59 anotações fotográficas, ed. autor/Blurb, 2012 |organização de edições- AA.VV., A Garganta Inflamada - antologia de poemas publicados na Companhia das Ilhas- 2012-2018 (selecção, organização e nota prévia), Companhia das Ilhas, 2019; Inês Lourenço, O Segundo Olhar - poemas escolhidos (selecção, organização e posfácio), Companhia das Ilhas, 2015. Página pessoal- https://josemanuelteixeiradasilva.weebly.com/

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Foto de capa:

J. M. W. TURNER, 'Fishermen at sea', 1796. || FRANCISCO DE GOYA, 'La nevada', 1786-1787.


Paginação:

Nuno Baptista


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