ANO 8 Edição 88 - Janeiro 2020 INÍCIO contactos

Clécio Branco


Mistério: a vagina é barroca    

É um erro confundir mistério por segredo ou, pior ainda, por enigma. Os dois últimos são recobertos - um pelo silêncio e o outro pelo “jogo” ou por uma trama a ser decifrada. Depois que o silêncio é rompido, o segredo termina, é como um desvelamento de algo por debaixo de um lençol ou atrás de uma cortina. Os segredos terminam quando o “escondido” sai da toca.

 

 E o enigma, é desvelado quando se decifra o jogo em questão, quando se desvela a trama. Uma burca é um engano, ela só esconde um segredo. Não sabem os talibãs que os segredos são para ser revelados? E serão de alguma forma. Pode haver uma politica despótica quanto ao segredo de uma mulher, mas nunca atingirão os mistérios que é de uma micropolítica. Nada poderá aprisionar a intensidade do misterioso olhar da mulher árabe por entre a fresta do manto negro.

 

O mistério não é escondido. É a imensidão de todo indecifrável, o mistério é inefável. Vou tomar o inefável do corpo feminino para usar como exemplo. Um ponto em especial, a vagina – existem muitos nomes e adjetivos para esse recôndito do corpo, alguns feios, outros engraçados, outros carregados de libido que só prestam para um estado de excitação. Vou usar “vagina” que parece ser bem aceito como “bom senso” entre todos nós.

 

No corpo de uma mulher existem segredos, enigmas e, sobretudo, mistérios. Os segredos do corpo da mulher são as marcas, as proporções geométricas dos órgãos, as características que se ocultam sob o manto da cupidez ou das roupas. Existem vaginas pequenas, maiores, profundas e menos profundas.

 

Os segredos, num jogo de sedução, podem ser o meio de chegar ao objeto dos desejos – muito embora o objeto seja sempre obscuro em meio o mistério. As curvas do corpo feminino podem ser acentuadas por um longo vestido colado ao corpo. Os seios ganham volume e exuberância num decote bem cavado. Os olhos podem ganhar proporções metafisicas com o sombreamento e o ressaltar das sobrancelhas – o caso do olhar das mulheres árabes sob o jilbab, apenas os olhos aparecem. A tirania dos poderosos não captura a intensidade de dentro dos olhos.

 

 Nas mulheres ocidentais, a boca e os lábios fazem explodir micropartículas quando ganham contornos do batom e do brilho ideal para cada ocasião.  Elas podem criar enigmas - “decifra-me ou eu te devoro”, como na esfinge de Édipo.  Num jogo de sedução, a mulher pode propor uma trama para dar em troca do deciframento de seu enigma - um beijo ou algo que ela quer dar e o amante quer receber -. Um ritual de prolongar a revelação dos segredos para mais adiante.

 

Nesse ponto os homens falham, eles confundem a velocidade com a lentidão e a intensidade por força. Seguem o movimento do pênis, como se esse fosse um flecha, que depois de ter sido alçada no arco precisa ser lançada com rapidez. Querem assim descobrir o segredo – para eles nesse momento – pode significar o vislumbre do corpo com suas partes, tamanho, curvas, como ela goza... – E nós sabemos que isso tudo é muito pouco.

 

O mistério é imanente ao corpo feminino – em todos os corpos, mas escolhi o feminino nesse momento – ele, o mistério, permanecerá intocável depois de toda exploração do corpo. Não é algo que se tem por decisão, por ter escolhido ser misteriosa. Existe a superfície do corpo, tudo o que vemos do corpo, inclusive os órgãos internos são superfície, e  existe a profundidade onde reside todo mistério. Um corpo é anímico tanto quanto o é biológico.  

 

 O órgão que vemos é superfície. Mesmo quando se encontra escondida sob as coxas que a recobre, ela está na superfície do corpo. Ou a visão de uma vagina em repouso, do corpo livre de uma mulher sonolenta, jogada na cama com uma das pernas flexionada para fora e a outra linear a extensão do corpo, mostrando assim a plasticidade graciosa desse órgão.

 

Nesse momento podemos tomar esse órgão feminino como um extraordinário artefato barroco que esconde segredos em suas dobras superficiais e, num plano mais além - lançada na profundidade, perde-se no mistério inorgânico para além de tudo que se vê. Um mistério inorgânico que confere a ela a mesma singularidade das folhas das árvores, não existindo duas iguais. Elas só se parecem pelas dobras e por estruturas que as confere a anatomia.

 

As dobras da vagina, essas que se dobram no estado de repouso, são as mesmas dobras que se desdobram quando no estado de velocidade, é apenas uma mudança de ritmo, do repouso à lentidão e a velocidade alternado num continumm – ao meu modo, uma alusão a Espinosa. Mas não se trata da velocidade dos homens. As dobras fechadas se desdobram na intensidade continuada, é mais continuidade e menos pressa.

 

Os homens ainda não aprenderam – pelo menos a maioria – que o diálogo com a vagina tem mais de continumm e menos relação com pressa. Pressa só em situações fortuitas.

 

 As ondas de continumm, que abrem as dobras em desdobras são suaves, mas contínuas, sem pressa. É uma questão de repetição entre – repouso, velocidade e lentidão. Há uma filosofia do corpo que não exclui uma metafisica, uma ontologia, uma estética e uma teoria da linguagem.

 

Assim como no barroco mais elevado, a vagina se define pela capacidade de um diálogo com o fora e o dentro – dobras para dentro e desdobra para for, a Terra e o Céu.

 

 No sentido do duplo cone, uma extremidade se abre ao infinito por onde circulam intensidade do Fora para o dentro. Mas são os afetos do aquém – do encontro com outro corpo – que desdobra a vagina fazendo da desdobra passagem de uma extremidade a outra do cone.

 

Não é a cavidade vaginal que opera como meio do cone. A passagem está em toda parte, em qualquer dobra do tecido. Ela se molha como se o fundo mais profundo fosse no fundo uma floresta encantada que oculta a nascente de um rio. Mas a nascente está por toda parte. Entramos no fundamento do mistério por esse labirinto úmido, única porta que se abre cujas chaves são da ordem de desejo agenciado num outro que nem precisa ser estabelecido no termo heterônomo do sentido restrito no binário - homem ou mulher - mas que seja outro (a).

 

Nesse plano de intensidade pura, não existe divisão binária - isso ou aquilo. Existem conexões, “e”, “e”, “e” que liga um lado do cone (finito) a outra extremidade (infinita). Nem existem valores morais de bem e de mal, apenas o que é bom ou ruim para um e outro. Pode-se clamar - “ai meu deus!” – mas não tem nenhum valor teológico. É apenas por conta de uma limitação da linguagem. As intensidades são ateias.

 

As dobras orgânicas são co-extensivas na relação com esse (a) outro (a). As dobras inorgânicas são extensivas ao lado de fora, ao cosmos. Daí as frases suspiradas em torno do orgasmo – estou no céu! Sinto que estou nas estrelas! Fui ao mais profundo dos oceanos! Fui ao infinito do cosmos! –  Não se trata do céu platônico nem do cristão.

 

As primeiras dobras se encontram ali, nessa parte visível do corpo. Mas não são elas mesmas que detém as chaves da desdobra. As primeiras que iniciam a desdobra são inorgânicas, também são elas que sustentam o estado de desdobramento. Podemos dizer que essas dobras inorgânicas se acham na alma – psique. Tudo tem início na mente. O pênis duro, os dedos, a língua, o corpo mais escultural, a “barriga tanquinho dos viciados” em academia e esteroide – nada garante a posse das chaves do mistério. As “chaves” são o mais profundo que a pele que, em sua profundidade, desdobra em superfície e, como acontecimento, permanecerá insondável. Não se compreende isso, apenas se experimenta.

 

 – O mistério que envolve o órgão sexual feminino inclui o interior e o exterior. Não se reduz o órgão genital nesse ponto. É mais significativo pensar na extensão do órgão sexual vagina, que se liga, dos dedinhos dos pés aos fios dos cabelos da cabeça – extremidade orgânica. Mas não termina ai no que se percebe. Ao modo estoico, a pele pode ser também o órgão mais profundo quando se conecta a fluxos de desejo – extremidade inorgânica do cone - a profundidade do corpo sobe à superfície da pele.

 

 É a mistura dos corpos que faz a reversão da profundidade em superfície. Essa área de nobreza extrema da mulher está na superfície, mas é a profundidade da mulher que se manifesta ali. Profundidade que nada tem a ver com o canal vaginal, como ficou demonstrado acima. Ele mesmo é superfície. A intensidade que desperta é da mistura dos corpos.  Nesse momento todo corpo é anímico. Ela esquenta, ela molha, ela dilata, dança no mesmo compasso em que a mulher geme, grita, suspira, arranha, morde, se contorce, se comprime, chora, ri e se lança no cosmos de partículas que se lhe atravessam na alma e no corpo.

 

Nisso não há nada a entender. É puro mistério. Silêncio interrompido apenas por gemidos e sussurros.

 

 Como mistério que é, toda mulher se acha subsumida nele. O desfolhar das pétalas da vagina não revela nenhum segredo, abre-se em mistérios. Cada desdobra desmensura a ilusão de um segredo.

 

O mistério transcende e atravessa o estado de repouso em dobras fechadas. Ela é o corpo inteiro, ela está no olfato, no olhar e em todos os sentidos.  Área erógena por excelência que se conecta ao sistema nervoso central e ao cosmos através dos sentidos.

 

Não há complicação alguma nesse órgão, mas é de uma complexidade. A mulher e seu órgão sexual são, ao mesmo tempo, uma complexidade. Daí, o mistério do corpo feminino e da mulher inteira.  Nesse corpo, de linhas complexas, de feitura singular algo começa em planos molares – termo usado por Félix Guattari para se referir às estruturas de grandes órgãos desde o conjunto de células.

 

A graça de uma mulher, seu gozo cercado de expressões sonoras da natureza feminina, é da ordem quântica – sons não humanos da natureza. O gozo feminino é da física pós Newton, está mais próximo do princípio da incerteza da física atual - partículas corpusculares ondulantes ao mesmo tempo.

 

Explosões atômicas, verdadeiras separações de átomos quando gozam. A energia que salta do corpo, a partir do infinito, nesse traço finito de corpo é da ordem do infinitamente pequeno - escapa e foge para os planos do mistério. Não é contável, não é estatístico. É molecular. Trata-se de uma multidão de partículas pré-formadas e invisíveis que se deslocam em velocidade infinita. Isso sim é um mistério.  Uma micropolítica que afronta as organizações de tirania. Pode-se suturar uma vagina - como nas tiranias fundamentalistas -, podem lhe encerrar em cintos de castidade, mas jamais poderão capturar o seu mistério.

 

Se o barroco é esse emaranhado de dobras em forma de concha – curvaturas de linhas flexíveis que saltam da Terra ao Céu – então, o barroco é a imitação da natureza. Uma síntese de convergência do infinito no finito, do eterno no temporal.

 

A potência é sempre dessa ordem de transvasamento, dessa capacidade de evadir-se em meio ao mundo, de fugir e de ficar ao mesmo tempo, por afetos, onde deseja.

 

 

Psicólogo, teólogo e mestre em filosofia. Clécio Branco é professor de pós-graduação em Psicologia Clínica e professor da Escola de Administração Judiciária do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, onde também coordena de Projeto de Saúde e Qualidade de Vida da Mútua dos Magistrados.

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Revista InComunidade, Edição de Janeiro de 2019


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Paginação:

Nuno Baptista


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