ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

André Caramuru Aubert


Poemas III    

viver o dia

 

cozinha vazia, penumbra, a casa vazia
buscando ânimo para preparar um café.
na mente, não sei explicar: lembranças
de vastos horizontes, de estradas, de céus e nuvens e montanhas desaparecendo ao longe,
imagens do cerrado, de amores perdidos, de outros tempos.
ligar a cafeteira, pegar o pó, o filtro de papel, viver o dia.

 

 

 

 

 

 

o garoto

And I’m one too many mornings
An’ a thousand miles behind

Bob Dylan, “One Too Many Mornings”

 

me lembrei agora há pouco do garoto, da imagem que faço dele
numa manhã que já vai um pouco longe no tempo, uma manhã de muito sol,
carregando nas mãos seu toca-fitas tijolinho
(alimentado por duas pilhas médias)
tocando no volume mais alto possível (que não era assim tão alto),
enquanto caminhava por trilhas subidas descidas de terra e de pedras,
sandálias havaianas nos pés, calção de surf, sem boné ou camiseta.
lá embaixo, e acima, nos horizontes, quando se abria um espaço entre as árvores,
surgiam o céu e o mar e a costeira. e as cores do mar e da costeira, e do céu, e das nuvens, das flores, das árvores e das plantas menores (mas não menos densas) eram
as mesmas cores (os muitos tons de verde, marrom e azul), e os mesmos volumes, ele reconhecia, que seu pai pintara umas duas décadas antes, numas telas que o garoto não tinha, mas agora tem, penduradas nas paredes de sua casa.
era um garoto solitário, tímido, cabeludo e um pouco desajustado (adolescente,
afinal de contas), e ia ouvindo o toca-fitas enquanto caminhava. me lembrei não sei porquê, o que sei é que
estou no carro, parado no trânsito desta quinta-feira chuvosa e paulistana, indo atrás de trabalho, de dinheiro, e começou a tocar one too many mornings, do bob dylan, do disco gravado ao vivo, hard rain, cujo LP o garoto tinha e havia gravado numa fita, e eu me lembrei, eu soube
que esta era a música que o garoto ouvia no toca-fitas tijolinho, naquela manhã, no sobe e desce da trilha, no meio da mata atlântica.
e, que curioso, de repente me lembrei até mesmo no que o garoto pensava naquele dia, me lembrei das angústias que sentia, das meninas que amava sem ser correspondido, da temperatura, do ar, dos cheiros que inundavam suas narinas e até mesmo do zumbido dos insetos e dos sons que vinham da mata e se contrapunham à música do toca-fitas que ele carregava.
isso faz muito tempo, milhares de manhãs se passaram,
mas me lembrei agora do garoto naquela manhã, naquela específica manhã,
me lembrei de tudo.

 

 

 

 

 

 

o sonho que tive na noite de 14 para 15 de agosto de 2019

 

foi um sonho em que sonhei que morria.
havia pessoas em volta, elas conversavam aquela conversa de sussurros
típica de quem está em volta do leito na penumbra do quarto de um moribundo.
elas sabiam que eu estava morrendo, e eu
também sabia. mas estava tão exausto que não sentia medo nem qualquer tipo de incômodo com a ideia de morrer.
eu sabia que, logo mais, as luzes se apagariam e aquilo tudo terminaria.
e as luzes se apagaram.

 

 

 

 

 

 

pôr do sol

 

nós dois aqui sentados olhando, e você bem sabe que
em mais alguns minutos, o sol,
aquele sol vermelho enorme lá longe, no oeste (sol que nesta hora
já mal nos aquece) vai sumir
por detrás da cidade, trazendo
a noite. e vai levar embora um milhão de segredos,
das tantas cenas que ele viu hoje,
que viu e que não contou pra ninguém.

 

 

André Caramuru Aubert nasceu em São Paulo em 1961. Bacharel e mestre em História pela Universidade de São Paulo, é editor, tradutor e escritor. Já colaborou com publicações como O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. Atualmente é colunista da revista Ponto e colaborador do jornal Rascunho, para o qual mensalmente seleciona e traduz algum poeta estrangeiro. Publicou, pela editora Patuá, os livros de poemas Outubro/Dezembro, As cores refletidas nas lentes dos seus óculos escuros e Se/o que eu vi. E pela editora Descaminhos os romances A Vida nas MontanhasA Cultura dos Sambaquis, Cemitérios e Só uma estranha luz como pensamento. Pela SEPSI-SP Editora publicou o romance Poesia chinesa.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2019


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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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