ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Almeida Cumbane


Conto e poema    

GUEST HOUSE

 

Conheci o Titos na festa de casamento da minha irmã. Não consigo explicar direito o que aconteceu quando meu primo me apresentou a ele como seu colega de escola. De repente derreti e perdi o controlo do meu corpo. Era como se a presença dele com aquele corpo atlético me roubasse o ar. Fiquei muda e virei criança porque teve que ser meu primo a intimar-me para responder aquele “prazer em conhecê-la Érica”.

 

   ― Prazer Titos. ― Respondi tímida e atónita admirando ainda o moço e buscando compreender o que se passava comigo. Nunca tinha tido uma sensação igual. Fiquei sem saber se ele teria visto os inúmeros coraçõezinhos vermelhos que saíram dos meus olhos quando fitei-lhe. Concluí: Estou apaixonada.

 

Fingi ter uma tarefa urgente na cozinha para escapar. Quando lá cheguei sentei-me e respirei fundo. O sangue e as águas que me ferviam por dentro começaram a arrefecer e fui reencontrando o equilíbrio. Titos, Titos, Titos. O nome teimava em fazer eco na cozinha do salão. Mais tarde descobri que não era na cozinha mas nos meus ouvidos porque o eco perseguia-me por todo o canto.

 

Em meio à festa, convidou-me para um passo de dança e anui. Balançamos e suámos porque o calor era horripilante. Saímos então para apanhar o ar fresco no corredor contemplando o jardim em frente ao salão de festas. Trocámos números e voltei a fingir qualquer coisa para não ficarmos muito tempo sozinhos. Dificultei tudo até a festa terminar. Eu queria que ele saísse apenas com o meu número e nenhum outro sinal. Preferia investigar melhor o moço.

 

Esperei ansiosamente por um toque ou uma mensagem em pouco tempo. Tinha certeza que ele daria sinal ainda naquela noite. Passaram-se horas e embora o sono não pedia licença o corpo estava cansado e precisava acordar cedo para os preparativos da ida ao Xiguiane1. Ah. Deve ter exagerado no álcool. Pensei. Logo cedo me liga. Dormi pensando nele, sonhei com ele e acordei pensando nele.

 

Quando acordei havia uma mensagem e uma chamada perdida. Era o número do meu primo. Meu Deus, afinal havia dormido com o cel no silêncio! Droga! Só pode ter sido o Titos usando o cel do primo. Estava decidida a ligar-lhe e pedir desculpas por não ter atendido mas quando abri a mensagem o texto dizia: “oi prima, já deves estar na cama mas ligava só para recordar-lhe que deixei a prenda dos primos no carro do mano Zeito”. Passou-se mais um dia, mais outro e mais outro sem sinal do Titos. E eu, no meu orgulho de mulher de família não podia ser a primeira mas quase ao cabo de uma semana decidi pegar no telefone de uma colega e simular uma falha de destinatário. Disquei o 84 4567909 e do outro lado uma voz meiga respondeu: “o número para o qual ligou está temporariamente fora de serviço…”

 

De repente, sem ter consumido álcool, fiquei embriagada. Decidi quebrar o gelo, esqueci os princípios, venci a vergonha e liguei para o primo para pedir notícias mas quando o telefone tocava decidi inventar uma mentira.

 

― Primo, é que ele me prometeu algo… e não há sinal.

 

― Certo. Ele vai-te ligar em breve, é que quando ia a casa no dia do casamento foi assaltado e roubaram-lhe os telefones. Não se preocupe priminha. ― Parece que não me saí bem na mentirinha e o primo preferiu ajudar-me sem se importar com as minhas justificações. Ele era adulto e certamente tinha percebido a química lá na festa.

 

Em menos de 30 minutos Titos me ligou com o número da mãe. Disse que já tinha comprado telefone e estava na carga. Contou que quis tanto ligar mas receou pedir o número ao meu primo porque não sabia qual seria a reacção. Marcamos um encontro e depois outro. Já não sei como foi mas em pouco tempo éramos namorados. Felizes da vida. Descuidámo-nos e cedo engravidei. Foi difícil mas nosso amor era muito forte. Ele conseguiu um emprego como promotor de vendas, saiu um noivado e fomos viver juntos. Mais tarde eu comecei a trabalhar na caixa da loja de peças de viatura do meu cunhado e a renda familiar melhorou muito.

 

Arrisco-me a dizer que éramos o casal mais feliz da história da humanidade. Ele sempre foi manso. Levava-me para passear. Nós não tínhamos tanto dinheiro assim mas conheci lugares paradisíacos. Não sei se os lugares é que eram paradisíacos ou era porque ia com um anjo. Nossas famílias ficaram uma só. Unidas por este laço de amor. Eu amava as minhas cunhadas e sogros e sentia que eles também me amavam. Talvez porque ele era o único filho. Eu pensava que perfeição era coisa de novelas mas aquele amor era assim e mais alguma coisa. Ele dizia as coisas sempre de um jeito especial mesmo que fosse para tirar defeito. Quando eu cozinhasse mal ele dizia com uma voz apaixonada: “Baby, hoje cozinhaste diferente”. Quando enchia sal dizia: “ poderias ter colocado menos sal”. Em fim, era um mar de emoções e experiências indescritíveis. Pouco tempo depois, nossa Melissa nasceu. Que linda menina! A chegada dela aumentou nossa paixão e passamos de perfeito para perfeitíssimo. Aos mal-amados só causávamos inveja.

 

Volvidos alguns anos ele precisou se esforçar mais para ganhar dinheiro e vezes sem conta chegava tarde e cansado dos seus negócios. Eu também aproveitava as noites e os finais de semana para fazer bolos e salgados. Era um “corre corre” próprio da modernidade. Quando me dei conta, já não tínhamos tempo para os nossos passeios, falávamos pouco ao telefone e nossas intimidades na cama diminuíram. Já não rebolávamos no chão com a Melissa passando de mão em mão. Já tínhamos cada vez mais dinheiro mas já não sabia por que precisávamos daquele dinheiro. A relação esfriou e a gota de água foi quando meses depois descobri que ele tinha amantes. Chorei profundamente até me faltarem lágrimas. Conversamos e perdoei mas ele não abandonou as amantes e nossa vida piorava. Pacientei. Um dia bateu em mim, meti queixa na esquadra. Ficou preso apenas por dois dias até conseguir pagar a multa. Foram apenas dois dias mas lição suficiente para nunca mais bater em mim. Daí a relação piorou ainda mais e a família dividiu-se entre os que apoiaram a minha queixa e os que acharam uma loucura.

 

Ao fim de algum tempo cansei-me de lutar sozinha por um amor para dois. Eu não podia amar por mim e por ele. Não havia mais esforço da parte dele. Todos me aconselharam a aguentar, suportar menos a minha amiga Celsa. Ela era a única pessoa que me compreendia, vivia minhas angústias, meu porto seguro. Quando decidi sair de casa abriu-me as portas da sua casa para morar. Fui para lá e consolou-me bastante. Ajudou-me a superar a dor e a cuidar da minha filhinha querida. Ele tinha o direito de ver a nossa filha mas eu não queria mais lhe ver na minha frente. Então pedia sempre a Celsa para levar a Melissa até ele e depois ir buscar-lhe. Por vezes vinha me contar que lhe encontrou nos braços de uma mulher. Era duro mas preferia que ela fosse verdadeira do que esconder. Ela confirmou-me inclusive algumas dúvidas sobre relações entre Titos e algumas vizinhas.

 

Tive que procurar imediatamente uma casa para arrendar porque ela, gentilmente e com antecedência falou-me que ia receber uma sobrinha já adolescente e continuar a partilhar aquele quarto e sala seria complicado. Era compreensível e até me ajudou a encontrar a casa que só lamentei por estar distante. Mas falávamos muito ao telefone e sempre ia visitar-lhe aos finais de semana até que informou-me que conseguiu emprego numa Guest House e quase que ia viver lá e era distante. Sendo assim, a vinda da sobrinha já estava complicada. Ofereci-me a viver com a sobrinha já que era órfã e precisava de estudar e ela ficou por pensar no assunto.

 

Prometi visitar-lhe no Guest House assim que se estabelecesse devidamente mas continuámos a manter vivamente a comunicação e a trocar confidências até que passou a ser difícil, comunicávamos entre cortes porque, segundo ela, a rede ali já oscilava porque a antena da operadora estava avariada e o patrão controlava muito. Ela não devia atender telefonemas enquanto trabalhava. Um dia tentei ligar e o telefone encontrava-se desligado. Passaram dois meses e a preocupação crescia mas não tinha ideia de como chegar ao Guest House.

 

Quando consegui falar com a prima dela disse-me que eu não poderia ter-lhe procurado no melhor dia. Era o noivado da Celsa e a cerimónia seria em casa dos pais. Explicou-me como chegar porque eu só podia ir mais tarde. Lembrei-me então que nas nossas últimas conversas ela falava encabulada de um amor que crescia com um funcionário lá da Guest House. Fiquei muito nervosa porque achei que ela deveria ter arranjado uma forma de me informar mas mesmo assim preferi ir para matar a saudade e alegrar minha melhor amiga no melhor dia da vida.

 

Quando cheguei ela estava no quarto e esperava-se o noivo porque as famílias já se tinham entendido. Quando ela saiu do quarto, quase que não lhe reconhecia. Estava linda. Simplesmente deslumbrante. Sorria enquanto cantavam para ela ir receber o noivo na porta. Fitámo-nos. Mandei um sorriso e acenei mas ela perdeu a beleza e o sorriso. O noivo entrou. Era o Titos. Então a Guest House é a minha casa.

 

Nota
1 Xiguiane: cerimónia na qual a família da recém-casada dirige-se à família do genro para entregar bens para apoiar o novo lar.

 

 

 

 

 

 

POESIA

 

Paz

 

Há uma chuva que quer cair
É preciso tirar os guarda-chuvas
Que cobrem o coração
E deixar a mágoa sair
De que vale o aperto de mão
Se nela tivermos luvas
Como prometer vinho
Escondendo uvas
E barricando o caminho
Não podes falar de paz
E viver um tanto faz
Segure a esperança Moçambique
Para que toda criança brinque.

 

 

Almeida Cumbane nasceu na cidade de Maputo. É co-autor de peças de teatro e de rádio novelas. É autor do romance Ilusão à Primeira Vista (Prémio Literário TDM 2016). Licenciado em Ensino de Filosofia e Mestrando em Ciências de Educação, é actualmente técnico pedagógico no Distrito de Guijá. Leccionou no Ensino Secundário e Superior.

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MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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