ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


Os movimentos neofascistas: os onanistas da política!    

De onde vêm movimentos como o Chega ou o Zero dos polícias?

 

Vêm do que podemos designar como o Mal! Da parte do Mal que existe na natureza e que na sociedade dos humanos se opõe à Moral.

 

A noção do mal? Nas nossas línguas modernas não há um sinónimo para a palavra “mal”. Mas a palavra latina malum deriva da grega mêlon, que corresponde a maçã e a mêlas, negro.

 

Estes movimentos como o Chega e o Zero dos polícias são a maçã que, através da serpente, representa o primeiro mal bíblico, a primeira imoralidade: a traição. Eles são traidores dos valores da humanidade. Provocam a escuridão onde vale tudo. Não por acaso, os seus símbolos são predominantemente negros.

 

São portadores da mais desumana qualidade do mal: a intolerância. A intolerância que é a sua marca não é fruto da estupidez, é fruto da cobardia. Do medo do outro. Por isso a sua ação é por natureza violenta. O brasão dos cobardes.

 

Os movimentos neofascistas deste tipo representam o mal enquanto ato político. As sociedades europeias, a duras penas, desenvolveram e criaram o atual Estado-nação para promoverem as três condições propostas na Revolução Francesa: Liberdade – Igualdade – Fraternidade. E promoveram a nova noção de cidadão. Estes movimentos são contra civilização que criou a cidadania, contra o conceito de cidadão, do ser humano portador de direitos iguais a todos os outros, são contra a liberdade, são contra a ideia de Estado promotor da igualdade e de redistribuidor de recursos e bens comuns. Veja-se o programa do Chega de negação de serviços públicos, incluindo o de previdência social! São, obviamente, contra a fraternidade e a igualdade. São racistas e xenófobos.

 

Como não se assumem nem na qualidade, nem no género, iludem a violência, a xenofobia e o racismo chamando-lhes “fatores identitários”. Um travestismo até na linguagem. 

 

Estes movimentos contêm e promovem uma violência que eles querem fazer parecer como natural e o seu sucesso é obtido pela proposta encantatória da “satisfação de si”. São movimentos do tipo onanista. Apresentam-se como superadores de frustrações individuais.

 

Ao ler e ao ouvir os chefes destes movimentos é clara a ideia que tentam transmitir de superioridade. Eles afirmam-se superiores aos outros por medo de não serem como os outros. E a sua propaganda tem conseguido projetar uma imagem de força e de razão. Há cúmplices nesta mistificação do mal!

 

Em termos políticos estes movimentos também realizam uma inversão – são invertidos por natureza – pois promovem a ausência de valores enquanto atacam os valores essenciais. Os valores são substituídos pela agressão, pela recusa de qualquer relativização, ou compreensão. A razão é substituída, como nos toiros, pelo instinto: marram contra o que mexe e eles entendem tudo o que mexe à sua volta como uma ameaça.

 

À primeira vista e atendendo apenas ao modus operandi, este fenómeno de que o Chega é uma frente política e o movimento Zero a milícia armada, lembram a relação que se estabeleceu na República com a “Formiga Branca”. Tal como o movimento Zero, a Formiga Branca esteve sempre pronta para o trabalho sujo que permitisse um reforço das posições de Afonso Costa e do seu partido. Com uma diferença essencial, Afonso Costa tinha um pensamento e o partido Republicano tinha um projeto político, enquanto o Chega é um vazadouro de frustrações e o seu chefe um videirinho. O Movimento Zero, esse sim, mantem a caraterística de fornecer caceteiros de serviço da Formiga Branca.

 

Uma outra inversão do Chega é a de os seus chefes se apresentarem como defensores da Ordem, quando são eles os fatores da desordem. Um caso clássico de atribuir o mal a um outro para justificar a violência. Nada de novo. Aqui em Portugal a Inquisição praticou essa artimanha e na Alemanha e em Itália os nazis e os fascistas também.

 

Os relativistas do mal que pululam pela Comunicação Social tendem a justificar a emergência de fenómenos como o Chega ou o Movimento Zero com o descontentamento. Não. Estes movimentos não são fruto do descontentamento, são movimentos que arrebanham frustrados. Daí o sucesso que por vezes obtêm em zonas desfavorecidas que noutras circunstâncias votaram comunista, por exemplo. O aproveitamento político do antigo lúmpen proletariado é um truque também muito conhecido e com os dramáticos resultados que se sabe.

 

Os elementos das forças policiais são particularmente vulneráveis à frustração e ao aliciamento para grupos e milícias radicais. Frustração porque na sua maioria exercem a atividade fora do seu meio, seja o familiar, seja o de enquadramento, são desenraizados e buscam nestes gangues a compensação para as suas frustrações – ausência de laços familiares, afetivos, sociais, são relativamente mal pagos e sentem pouco reconhecimento social. Um terreno propício à demagogia.

 

O dramático não é a existência do Chega e do Movimento Zero, o dramático para o nosso futuro enquanto sociedade é a atitude de aparente aceitação deles, como se fosse normal promover a violência, a desigualdade, a destruição dos serviços que redistribuem bens como a educação, a saúde, a reforma, que amparam os cidadãos nos momentos de doença, de desemprego, que promovem a censura, a perseguição do outro. Há jornais e televisões, grupos de “fakenews” a lavar a cara a estas matilhas e aos seus chefes.

 

O dramático é a sociedade aceitar como normais os portadores destas taras.    

 

 

Carlos Matos Gomes

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2019


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Nuno Baptista


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