ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

André Nigri


Resenha: Reflexões sobre um guardanapo    

( Resenha do conto “Escrito num guardanapo”, Sérgio Sant’Anna http://www.incomunidade.com/v86/art.php?art=346 )

 

 

Existe uma fotografia em que se vê Sérgio Sant’Anna sentado em uma cadeira de balanço com uma caneta na mão, uma prancheta sobre a perna cruzada e ao fundo uma estante cheia de livros. Embora tirada para ilustrar alguma matéria sobre o escritor carioca, a foto é reveladora. O gesto é vagaroso, a expressão do perfil é calma e, com um pequeno esforço de imaginação, é possível ver a escrita se esboçar lentamente, as palavras se encadeando na página e as pausas hesitantes de angústia diante da linguagem fugidia, numa procura faminta de significado.

 

A literatura, como escreveu Ricardo Piglia, é a arte da microscopia, da perspectiva e do espaço.  Mas não somente os pintores se ocupam dos espaços. Conheço poucos escritores para quem a questão pictórica e espacial seja tão cara quanto para Sérgio Sant’Anna. Sua confessa admiração por Marcel Duchamp está no centro de sua ideia de ficção. A influência, convém dizer, é a de se colocar em total liberdade diante do texto. Daí a pluralidade de uma obra cujos gêneros se infiltram uns nos outros.    

 

Sérgio nunca se fixou numa forma. Se é reconhecidamente um dos maiores contistas da literatura brasileira, sua ficção se desdobra em outros formatos com igual potência. Formatos onde se misturam teatro, romance, memória e ensaio. Para ilustrar a ideia de um escritor retiniano – em oposição à atitude literária de Duchamp -, Sérgio compôs várias narrativas nas quais examina artistas plásticos, como Balthus, por exemplo. Na extraordinária novela “Um Crime Delicado”, a pintura ou visualidade opera como uma obra em progresso ao longo da história cuja aparência e revestimento é a do desvendamento de um delito. 

 

Essas breves considerações sobre a arte de Sérgio talvez ajudem a compreender o conto “Escrito num Guardanapo”. O que chama atenção logo de cara é o fato de ter sido publicado incialmente no Facebook. O suporte digital, a rede social na qual milhões de textos se atropelam em posts, comentários e imagens, que tão logo surgem mergulham na anomia, não poderia parecer mais hostil a uma peça de ficção com quase 600 palavras escrita por um perfeccionista. Mas Sérgio Sant’Anna tem personalidade inquieta e irreverente. Sua obra mergulha no humor sombrio, às vezes escandaloso, e na ironia. O conto que o leitor tem em mãos, ou em tela – aqui não há como não ver uma piscadela duchampiana no uso de um suporte tão descartável, um ready made virtual– é surpreendente até mesmo para seus leitores mais fiéis, como é o meu caso.

 

Nessa curtíssima narrativa se encontram também algumas das melhores qualidades de um escritor cuja carreira de cinco décadas não dá sinais de esgotamento e repetição, conquanto o texto apresente temas obsessivamente perseguidos pelo autor em seus livros mais recentes.  

 

Toda escrita de Sérgio Sant’Anna obedece a um princípio de delicadeza. Isso se deve, no meu juízo, à paixão do autor pela, na falta de um termo mais justo, arte conceitual. O artista que não fala. E quando o faz é do modo mais conciso possível. Não à toa, John Cage aparece no célebre O concerto de João Gilberto no Rio. O músico que não toca. O próprio João Gilberto é o cantor do silêncio. Sérgio também escreve pouco, e escreve o mínimo. Em sua forma breve, o máximo deve ser dito com o mínimo.

 

A forma delicada e a leveza da escrita, contudo, não escondem o conteúdo violento da história, formando um paradoxo. Por que, o que se escreve sobre um guardanapo? Num bar ou restaurante, escreve-se a uma mulher à guisa de flerte. Um poema, um convite, algo gracioso, um número de telefone, um convite, um chiste.  Mas no guardanapo-transparência de Sérgio escreve-se sobre a dor causada por uma perda amorosa. Uma perda dupla e tanto mais violenta porque a mulher fora assassinada pelo amante sucessor. E numa brevidade surpreendente, o narrador, enquanto o álcool ainda não o encharca (a frase paira flutuante como um parágrafo inteiro feito pórtico), lembra de uma preta velha meio feiticeira afirmando poder a alma se encarnar até num inseto.

 

Os insetos são uma das obsessões referidas acima. Eles aparecem ora como uma bruxa a invadir o quarto do autor (A bruxa, do volume “Conto zero”), ora como uma barata oriental sendo engolida por uma embaixatriz (As antenas da raça, do livro “Homem-Mulher”). Em sua obra mais recente, “Anjo Noturno”, publicado em 2017, no conto de abertura a mulher imagina que possa haver uma subjetividade ignorada por nós nos crustáceos, nos peixes, como “unidades autônomas de vida”

 

No guardanapo, quem escreve é autorreflexivo e sente a esmagadora imensidão do universo, mas percebe como há uma comunhão entre eles. Aliança traçada numa frase de condensação temática só vista em grandes poetas: “Não valho nada, mas sou todo o universo.”

 

É como um parêntese ou respiro antes da explosão. Essa primeiro vem de fora, com tiros, os quais, no entanto, ninguém dentro do bar fétido onde o personagem escreve e afoga seu sofrimento na bebida dá a mínima. Essa invasão de fora e a indiferença provocada revelam a normatização da brutalidade brasileira, do estágio de retrocesso de um país onde mais de trinta mil pessoas são assassinadas anualmente. A brevidade dessa frase é um pequeno milagre de compreensão da realidade: “Lá fora dois tiros, mas ninguém se importa.” Resume toda uma sociedade a bocejar diante da violência, como boceja o dono do botequim, responsável também por servir as mesas. Em uma dessas mesas, três homens e uma mulher falam alto, contam piadas sujas e atrapalham o tango de Gardel ouvido pelo narrador. Como nada é gratuito numa narrativa de Sérgio, creio valer a pena transcrever a letra da canção:

 

Por Una Cabeza

Por una cabeza

 

De un noble potrillo

Que justo en la raya

Afloja al llegar

Y que al regresar

Parece decir

No olvidés, hermano

Vos sabés, no hay que jugar

Por una cabeza

Metejón de un día

De aquella coqueta

Y risueña mujer

Que al jurar sonriendo

El amor que está mintiendo

Quema en una hoguera

Todo mi querer

Por una cabeza

Todas las locuras

Su boca que besa

Borra la tristeza

Calma la amargura

Por una cabeza

Si ella me olvida

Qué importa perderme

Mil veces la vida

Para qué vivir

Cuantos desengaños

Por una cabeza

Yo juré mil veces

No vuelvo a insistir

Pero si un mirar

Me hiere al pasar

Su boca de fuego

Otra vez quiero besar

Basta de carreras

Se acabó la timba

¡Un final reñido

Yo no vuelvo a ver!

Pero si algún pingo

Llega a ser fija el domingo

Yo me juego entero

¡Qué le voy a hacer!

 

 

Por Uma Cabeça

 

Por uma cabeça

De um nobre potro

Que justo na raia

Afrouxa ao chegar

E que ao regressar

Parece dizer

Não esqueças, irmão

Você sabe, não há que jogar

Por uma cabeça

Paquera de um dia

Daquela fútil

E falsa mulher

Que, ao jurar sorrindo

O amor que está mentindo

Queime em uma fogueira

Todo o meu querer

Por uma cabeça

Todas as loucuras

Sua boca que beija

Apaga a tristeza

Acalma a amargura

Por uma cabeça

Se ela me esquece

Que me importa perder

Mil vezes a vida

Para que viver?

Quantos desenganos

Por uma cabeça

Eu joguei mil vezes

Não volto a insistir

Mas se um olhar

Me atinge ao passar

Seus lábios de fogo

Outra vez quero beijar

Chega de corridas

Acabou o tesão

Um final renhido

Já não volto a ver!

Mas se algum matungo

É barbada para o domingo

Jogo tudo que tenho

Que vou fazer!

 

A música, como se vê, reforça e adensa a curtíssima ficção. Não quero privar o leitor da fruição desse conto extraordinário com uma exegese cansativa. A melhor maneira de apreciá-lo é lendo-o, assim como toda a obra de um escritor único em seu modo de expressão.

 

Por último, quero dizer que tenho mantido com Sérgio Sant’Anna uma amizade e interlocução intensa, por meio de trocas de e-mail e esparsas visitas em sua casa no Rio de Janeiro. Curiosamente, não me recordo de uma única vez termos tocado na razão de se escrever em um país com um número ínfimo de leitores e cujo espaço público não é ocupado pela literatura.

 

Entre inúmeras possíveis respostas, talvez uma delas esteja no magnífico conto “Augusta”: “escreve-se para dar uma realidade maior a tudo o que existe e se passa em torno de mim”. Ou talvez Sérgio Sant’Anna escreva para se salvar, e com isso salvar a nós também.           

 

 

André Nigri é jornalista e autor do romance “Paralisia” (Reformatório, 2018). Assina o posfácio da reedição de “Amazona”, de Sérgio Sant’Anna (Companhia das Letras, 2019), romance de 1986.

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Paginação:

Nuno Baptista


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