ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Meu encontro com o Tinhoso    

Embora seja ateu, desacredite veementemente em vida após a morte, pense muito pouco no meu último suspiro, até pelo fato de assustar-me bastante com a ideia do provável passamento, como qualquer mortal sou capaz de me pegar às vezes imaginando algum tipo de continuação. Para qual plaga a indesejada das gentes me levará? Tentar adivinhar um futuro para depois do final da existência é mais ou menos como jogar na megasena, a gente sabe da improbabilidade de ganhar, mas vez ou outra gasta uns trocados para poder ficar imaginado como aproveitaríamos os milhões. Na verdade, estamos comprando sonhos. Imagina-se um céu cheio de virgens ou poder viajar o ano inteiro sem compromisso algum.


Fui criado em uma casa quase católica. Difícil definir, mas foi a melhor forma encontrada para explicar meu ambiente familiar. Apesar de meus pais estarem abandonando a religião, ainda traziam dos mais antigos um pouco de suas formações, na época um tipo de coisa mais no sentido de obedecer às expectativas dos mais velhos, manter algumas tradições religiosas para não magoar avós e tios idosos. Obviamente acabamos sendo criados dentro de um modelo judaico-cristão, o os ecos de tal formação ainda persistem. Fomos batizados, fizemos primeira comunhão. Mas éramos também de esquerda, muito, havia grande antagonismo entre os dois pensamentos. Espírito e matéria são como água e óleo, não se misturam.


Enfim, acabei prestando atenção nos dez mandamentos da lei de Deus, impressionei-me quando menino com as metas, difícil obedecê-las em conjunto, todas, para poder alcançar o reino do Senhor. E quando aprendemos coisas muito cedo, dificilmente esquecemos. Os neurônios estão fresquinhos, zero quilômetro, prontos para colar bem coladinhas as informações. Sei até hoje, como em uma ladainha repetida, os segredos para podermos alcançar a paz celestial. Exatamente como sou capaz, também, nunca fiz feio, de declamar o poema Pasárgada, do Bandeira. Mais ou menos na mesma época resolvi memorizar, achava bonito declarar ser amigo do rei. 


Sendo considerado por muitos idoso, embora esteja longe de me sentir assim, não consigo deixar de fazer em alguns momentos mais difíceis do cotidiano, quando quase desejo encerrar meu ciclo terreno, certa contabilidade. Vejo então com amargura o desastre de minha existência. Se algum dia morrer, ainda não estou perfeitamente certo disso, tenho passagem comprada e confirmada para as profundezas subterrâneas onde habitam aqueles maus elementos em vida.


Não fui capaz de amar a Deus sobre todas as coisas. Aliás, não sei se cheguei a ter algum amor assim incondicional, talvez apenas por minha mulher, na maior parte do tempo. Vivo usando o nome Dele em vão, difícil afastar o Senhor das interjeições. Nunca entendi direito o negócio de santificar as festas. Para mim normalmente foram oportunidades de encher a cara, dançar, fazer todas as loucuras possíveis.


Esforcei-me por honrar papai e mamãe, mas devo ter pisado na bola em algumas ocasiões, não sou um filho assim tão perfeito. Não matei ninguém, embora vontade não tenha me faltado. Em pensamento cometi os maiores assassinatos, com toda criatividade possível em termos de crueldade. Vale? Mesmo sem saber direito definir atos impuros, devo ter cometido muitos. Torcer contra o governo é ato impuro?


E agora é o momento de confessar aqui, em público, um pecado grande: roubei. Quando menino surrupiava balas de um supermercado. Era hábil, nunca me pegaram. Hoje considero viável a possibilidade de terem feito vistas grossas. Mais tarde, um pouco mais jovem, no tempo em que usávamos aquelas bolsas fedidas de couro de bode, moda meio hippie, não resisti e guardei dentro dela um livro discretamente, foi difícil não pegar mais da livraria. Cansei de ver trocos errados ao meu favor e ficar quieto. Não tenho mesmo salvação com relação a tal mandamento.


Menti muito. Fui preposto em um banco onde trabalhei, a função do preposto basicamente é faltar com a verdade para ajudar a instituição em que trabalha. Só por isso merecia uns dez infernos. Além disso sou autor de vários livros. Não há como deixar de considerar ficção um tipo de mentira.


 Pensamentos e desejos impuros tenho o tempo todo, quem é capaz de controlar o pensamento? Duvido!


 E cobiço bens alheios sempre e muito. Casas com piscina, carros conversíveis, e canetas. Talvez por ser escritor tenha fixação em canetas, principalmente as tinteiro, não posso ver uma sem pensar em como seria bom se o dono a esquecesse em cima da mesa.


Como o amigo leitor pode ver, ofendo quase diariamente a maioria dos dez mandamentos da lei divina. Há um calor infernal me aguardando caso um dia parta dessa para pior. Imagino eu chegando no inferno:


- Licença, Seu Demo!


- Pode entrar, Ricardo, você não precisa pedir licença. 

DEZ/2019

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior. Professor de Literatura na FMU.  Mestre e doutorando em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Paginação:

Nuno Baptista


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