ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Deusa d’África


Duas crónicas e quatro poemas    

CRÓNICAS

 

O Medo

 

Era grande a mansão do medo, numa gigantesca área erguia-se o castelo adornado por um mobiliário sumptuoso, cheio de vida e pintado de cores pardas para que não chamasse a atenção ao olhar humano.

 

Cada sentada confundia-se com a força com que a agulha espeta a epiderme, o grito e o pulsar da vítima diante do incidente, confundindo-se o grito humano com o sino de uma catedral nas manhãs silenciosas e frias de Abril em cada tinir que anuncia a hora da missa na santa igreja.

 

Podia pensar que se tratasse do alarido com que um cidadão coloca-se em fuga diante de um casaco flutuando fora do corpo e procurando um corpo para se apossar tal como acontecia no bairro da Mocita ao anoitecer em que confundiam-se os vivos com os mortos e os troncos de diversos cajueiros abatidos confundiam-se com as serpentes que abundavam na região tornando-a numa região temida por todos sobretudo nas noites. Também falava-se de uma carcaça de viatura em que alguns diziam dormir adentro a serpente que tornara o lugar sombrio e temido.

 

As casas de banho edificadas, sobretudo na periferia e zonas rurais, eram externas, feitas de caniço e arame e com alguns metros de distância com a casa onde morava a família para manter a higiene e evitar a propagação de odores pestilentos para dentro da casa. Regularmente a cinza devia ser aspergida nas latrinas para que o cheiro fosse amortizado e eliminasse a poluição ambiental propensa a inundar a casa.

 

Homens barrigudos e cheios de virilidade quando relatassem os encontros com o famoso casaco voador borrifavam o seu rosto de terror com que se lembravam dos tristíssimos episódios que faziam com que as crianças urinassem sobre os cobertores por medo de sair da cama,  aterrorizados pelo historial de casacos e serpentes flutuando nas regiões vizinhas. As casas de banho ao anoitecer comutavam-se nas carcaças usadas como ninharia de serpentes diante de crianças terrificadas.

 

De dia, todo o mundo era livre e cheio de heroicidade para circular na região proibida, carregando crianças, velhos e mulheres que buscavam a lenha entre os troncos que, de dia eram troncos e de noite eram serpentes, mas de noite o território era privado e não podia ser frequentado por qualquer pessoa como ocorria de dia, a liberdade de trânsito era reduzida.

 

O medo circulava revestido de paletós, casacos longos e de peles de animais que até o frio não ousava penetrar sobre a carne. O medo rebolava entre a cama e rangia os dentes como se o gelo congelasse as gengivas para que o sorriso ficasse preso nas grades da felicidade e o reino do medo continuasse com sua hegemonia no território.

 

Moçambique

 

 

 

 

 

 

Modernidade

 

A modernidade no seu mais belíssimo campo de actuação tem veiculado abordagens que quando interpretadas pelos usuários ou cidadãos desta época, resume-se na resignação de tudo o que perfaz aos valores culturais do cidadão, desconstruindo tudo à sua volta.

 

O questionamento de modelos pré-concebidos não pode constituir um problema, entretanto, torna-se um imbróglio quando fazemos do questionamento um posicionamento que embora baseado nas dissonâncias portadas, tornam-se uma sombra para albergar a nossa falta de esclarecimento e falta de atenção para compreender minuciosamente os factos que norteiam o nosso meio social.

 

O tempo pode mudar a estrutura arquitectónica das cidades e rostos de suas gentes, mas não pode mudar o que nela há de mais belo, a essência.

 

O género social faz com que a urbanização e cidadania sejam movidos pelos conceitos gerados no tempo em que foram emanados, sem oferecer a oportunidade de escolha a quem não possuiu capacidade de comparação do que a modelagem apresenta em detrimento de auto reprovar o que a antecede.

 

Julga-se insuficientemente a forma como implementam-se as políticas de mudança conceptual que mexe com as bases das famílias construídas assentes ao modelo conservador, ainda que o tempo justifique equitativamente a necessidade de erupção de certas práticas que não se adequam ao período moderno no qual vivemos.

 

Há factos que nem com o tempo se alteram, tal como o olhar genuíno de uma pessoa para com a outra que gera o amor, o olhar colérico que revela o ódio, sentimentos como a ganância desmedida, a ofensa e o perdão, todos estes complementos são a base da sobrevivência dos homens e constituem um sistema de defesa que fá-los robustos de tal forma que se protejam uns dos outros malefícios.

 

As riquezas como o petróleo sempre foram alvo de muita matança e perseguição dos povos, uma maldição dos países portadores, o mesmo prevalece, nem a modernidade consegue alterar tais factos, fazendo com que países como Moçambique sejam alvos de ataques de alshaababs e assim como tem sido, os países vizinhos vitimando gente inocente que mal usufrui de tais supostos benefícios ou riquezas naturais que seu país possui.

 

 

 

 

 

 

POESIA

 

Frio Matinal

 

Faz frio nas manhãs
flores frias acobertam os jardins
ruas frias abrem o sol congelado na algibeira
casas frias despertam gente indisposta na fileira pelo pão
rios frios cruzam pontes com travessias frias para gente que vai ao labor
mares frios resignam-se a abandonar a terra côncava ferida pela enxada
beijos frios aquecem as camas frias e desoladas acasalando a solidão dos lençóis.

 

 

 

 

 

 

Imposto

 

Imposto um lobolo a um cadáver
imposta uma taxa de multa pela morosidade
imposta a taxa pela conservação da finada
imposta a taxa pela demora do velório na igreja
imposta a taxa pela contravenção na morte insana
imposta a taxa pelos filhos gerados embora não consentidos
imposta uma taxa por cada noite dormida mesmo que indolente
imposto cada sorriso desabrochado sem unção do padre nem do vigário.
 

 

 

 

 

 

Pipas de Sangue

 

Voam em pequena e grande circulação
fazem do âmago um céu abanado pelo ateador
inspira o ar a cria e voa a pipa adentrada no fogo
expira o ar a cria e cai a pipa na árvore genealógica
pendura-se em bronquites, diabetes e outros ramos hereditários a pipa
ainda que doce o voo de tristeza ela voa entre os ramalhos regenerando-se
e procurando um destino com liberdade sem celas para que o céu seja seu.

 

 

 

 

 

 

Tapetes de Vidro

 

Cacos de vidro
areia na pá
barata morta
insecticida usado
vassoura quebrada
expiro solto sobre o tapete
agulha espetando a carne
vasilhame do tempo amolgado
mandriice é tudo num domingo saturado
e a verdade não publicada em jornais não impressos
pela avaria da máquina da verdade e da mentira argumentadas.

 

 

Deusa d’África nasceu aos 05 de Julho de 1988 em Moçambique, é mestre em Contabilidade e Auditoria e actualmente é professora na Universidade Pedagógica e na Universidade Politécnica. É Gestora Financeira do Projecto Global Fund – Malária. Começou a escrever poesia em 1999. A autora é representada pela agência literária “Capítulo Oriental”. Possui várias obras (prosa e poesia) publicadas na imprensa como é o caso de "Jornal Notícias”, “O País”, “Pirâmide”, “Diário de Moçambique”, em revistas tais como “Xitende” e “Varal do Brasil”, foi antologiada pela “Colectânea Veríssimos” editada em 2012 por Alpas XXI, Antologia Brasileira “Mil Poemas para Gonçalves Dias” em 2013, pela Academia de Letras e Artes Luso – Suíça “Caravelas em Viagem” em 2016.

Viu alguns dos seus trabalhos traduzidos para sueco. É Coordenadora Geral da Associação Cultural Xitende, é palestrante, activista cultural, promotora do direito à leitura e mentora do projecto Círculo de leitores. É colunista do Jornal “Correio da Palavra”.

É autora de obras como “A Voz das Minhas Entranhas” (poesia) editado pelo Fundac em 2014, o romance “Equidade no Reino Celestial” e “Ao Encontro da Vida ou da Morte” (poesia) pela Editora de letras de Angola em 2016. Coordenou a Antologia poética “Vozes do Hiterland” publicando escritores de Gaza e Niassa, editada pela Editora de Letras de Angola em 2016. Em 2016 foi Coordenadora para Moçambique da Antologia editada em Galiza “Galiza-Moçambique: Numa Linguagem e Numa Sinfonia” sob coordenação geral do escritor José Estevez publicando escritores de Moçambique e Galiza.

Foi distinguida pelo Governo Provincial de Gaza como Personalidade do ano 2016 em reconhecimento do seu patriotismo e pela sua contribuição no desenvolvimento e promoção das artes e cultura. Foi premiada como vencedora absoluta na modalidade de poesia e foi vencedora do segundo lugar em contos nos Concursos Literários Internacionais lançados na República Federativa do Brasil por Alpas XXI em 2012. Em Março de 2017 representou Moçambique no Festival Literário de Macau. Em 2018 foi antologiada pelo Festival Literário de Macau “Seis em ponto, contos e outros escritos VI”, traduzido em inglês “Six on the dot, short stories and other writings VI” e depois traduzido em chinês. Ainda em 2017 foi antologiada em “À Margem da Literatura” pela UCCLA. Foi antologiada em Macau no “Rio das Pérolas” livro de poesia em 2019.

Em Julho de 2019 participou no Festival Internacional Poetas d´Alma em Maputo.

Participou no primeiro encontro realizado em África e em Moçambique, de Poetas del Mundo em Outubro de 2019, como Embaixadora do Movimento Poetas del Mundo para Gaza.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2019


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Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandre Brandão, Almeida Cumbane, André Balaio, André Caramuru Aubert, André Nigri, Antônio Torres, Ascensíón Rivas Hernández, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Danyel Guerra, Demétrio Panarotto, Deusa d’África, Elísio Miambo, Fiori Esaú Ferrari, Geraldo Lima, Hermínio Prates, Irma Verolín, Rolando Revagliatti, entrevista, Jayme Reis/ Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, João Morgado, Jorge Elias Neto, José Gil, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Bacigalupo, Luís Giffoni, Marinho Lopes, Myrian Naves, Otildo Justino Guido, Ricardo Pedrosa Alves, Ricardo Ramos Filho, Taise Dourado, Viviane de Santana Paulo, Waldo Contreras López, Wanda Monteiro


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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