ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Danyel Guerra


Um réveillon muito quente    

  “C’est l’enfer, l’éternelle peine!
                                                                           Voyez comme le feu se relève!
                                                       
                                                                          Je brûle comme il faut. Va, démon!” 

 

                                                                                       Arthur Rimbaud

 

         Na memória ainda vivaz e lúcida da Virgem de Vandoma não há lembrança de um dia tão gelidamente  irado na sua cidade . Fustigado pela algidez do clima, possuído pela agilidade da chita, um cavaleiro sobe a íngreme rua de Ceuta, como se estivesse voltando a 1415. E só para em frente de um edifício de consultórios, onde entra ajustando o elmo, em que um puma estilizado esboça o bote.

 

         No saguão, aguarda a chegada do elevador que está no quinto andar. Num átimo, duas damas se aproximam, vestidas com elegância, muito aprumadas, fina estampa, aroma de mulher acentuando a aura de frescor de quem acabou de tomar banho com sais de rosas imarcescíveis. Tangendo os 60, uma delas, trajando um vestido tango, calidamente flamboyant, lança um olhar enviesado para ele, que estaria trajado de negro da cabeça aos pés, não fosse o tom azul turquesa da camisa.

 

         Elas devem ter consulta com a Drª Gina, a.., imagina, enquanto  se apercebe do sorriso irônico do porteiro. O elevador chega e ele, despindo o elmo, abre, cortês, a porta.

 

         Façam o favor!, convida. Obrigada, cavalheiro, mas nós vamos descer, informa a mais velha, halo de altivez na voz, um tanto rouca.

 

         Ele entra e aciona a subida. Ao relançar os olhos para os botões de comando, fica atônito.

 

         Nós vamos descer! Descer? Que jogada é essa, madame?!
 

 

 

 

         Chegando ao sétimo piso, intrigado, ele decide ficar de butuca*, impelido pelo insólito episódio. Ato contínuo, o elevador desce direto ao rés do chão. Em instantes, é acionada nova viagem. Mas para que andar?, interroga-se, cada vez mais enredado. No painel de controle não se acendem as luzinhas de cor rubi, que assinalam o percurso até ao andar de destino. Num assomo frenético, chama o ascensor, quando disponível, que na subida volta a ter o trajeto sinalizado pelas luzinhas. Na caixa sente-se ainda o Balenciaga Paris, que perfumava a menos nova. Ao descer, seu propósito é o de inquirir o porteiro sobre a inusitada acontecência.

 

         Por favor, reparou para que andar subiram aquelas duas senhoras?  O senhor parece muito interessado nelas… bem, suponho que subiram para o sétimo. A Madame e a pupila têm uma consulta médica, responde formal q.b.. 

 

         Para o sétimo? Não é possível. Eu estava à porta do elevador e não as vi  sair, replica, ciente da clareza da sua verdade.

 

         Na cabeça do cavaleiro, desprovida do dourado que banha o elmo belicoso, ateia-se agora o fogo fulvo da dúvida. Voltando a carga, persiste com perguntas que demandam respostas apaziguadoras.

 

         Este prédio tem pisos no subsolo? São acessíveis através de elevador?, interroga intimando certezas.       

 

         Enigmático, êmulo de uma sibila, o porteiro dispõe de serenidade bastante para dar uma resposta eivada de ambiguidade.

 

         Que eu saiba, não tem…mas neste mundo, meu amigo, só há uma certeza, a de que quase todos nós vamos descer pelo menos sete palmos de terra.    

 

         Quem se recusa a descer é a curiosidade quase patológica do guerreiro. Sem demora, ele cavalga novamente para o sétimo andar. Lesto, dirige-se ao consultório da ginecologista. Na sala de espera, duas senhoras aguardam a vez, folheando bovinamente  as inefáveis revistas cor-de-rosa. Mas não são elas. Bem, podem estar já em consulta, admite.
 
         Nada convencido, pergunta a recepcionista se tinha visto entrar duas senhoras de porte elegante, altivo até. E a resposta não poderia ser mais sibilina. Todas as tardes entram nesta sala, senhoras com essa cara..terística.

 

         A pergunta sem réplica plausível, na prática, nocauteia o inquérito.  Lembra-se de referir que a mais velha traja um vestido tango cor de fogo. Mesmo assim, a recepcionista continua sendo protocolar. Cavalheiro, não faz parte das minhas funções reparar no que vestem ou despem as “clientes”! 

 

         O cavaleiro agradece, sai, tendo tempo de reparar numa senhora que entra portando um exemplar de ‘O Castelo’ de Franz Kafka nas mãos. Porém, não abandona o campo de batalha. Como não tem nenhuma lide iminente, resolve ficar algum tempo de sentinela no patamar, à porta do castelo, isto é, do consultório. Aguarda quase meia-hora e delas nem indícios do perfume, muito menos do senhoril porte. Se estivessem em consulta, já teriam tempo de terminá-la e sair. Muito bem, vou tratar do assunto que me trouxe aqui, decide em tom de renúncia.              
  

 

 

 

         Concluída a diligência, ele continua, todavia, sendo desafiado pelo mistério do sumiço e do paradeiro das dondocas*. Apesar de não estar armado com a lança, uma ansiedade lancinante insiste em alfinetá-lo. Chegando à portaria no único elevador do edifício, insta uma confirmação final ao porteiro.

 

         Então, a Madame e a pupila já sairam? Parece que se evaporaram!, ironiza. Deve ser um fenômeno para(a)normal.

 

         Parece, talvez seja e vossa excelência continua parecendo pretender passar o ano aqui metido… realmente é estranho, muito estranho. O consultório já fechou e elas não passaram pela portaria. E este edifício só tem essa saída, conclui, acometido por repentina estupefação.   

 

         Entre o burlesco e o pícaro, o cavaleiro lança mão da espada e desfere um golpe de misericórdia no entrecho deste entremez absurdo.

 

         O senhor deve ter escutado. Elas não disseram que iam descer! Só podem ter ido festejar o réveillon no Inferno com o demo. Uma comemoração  muito caliente…Quero participar.

 

         Expedida com o selo de uma presunçosa intuição, toldada por umas gotículas de sarcasmo, a solução da charada consegue a façanha de arrancar o fleumático porteiro da cadeira de burocrática neutralidade. Nutrindo-se de uma dose letal de mordacidade, ele insinua uma dissolução.  

 

Olhe, o elevador está no rés do chão. A senha para acionar a descida é “jogo de damas”. O Tártaro fica no quinto piso subterrâneo. Mas cuidado com o cão, o Cérbero. Se o senhor entrar, ele não o vai deixar sair.

 

Agradeço o alerta, mas eu já tomei as devidas  precauções, replica em tom desafiador, enquanto sobreveste a tamkappe*  que ganhou de Alberich. Resoluto, o cavaleiro acelera o passo, em direção à descida ao mundo inferior. 

 

*Glossário

 

 Ficar de butuca- ficar vigiando, atento ao que acontece

 

Dondoca- mulher fútil, metida a rica, que aprecia alardear ostentação  e extravagância no vestir.

 

Tamkappe- capa que tornava invisível Alberich, personagem de ‘Nibelungenlied’, poema épico, escrito durante o século XIII, na Alemanha.

 

 

Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu em São Sebastião do Rio de Janeiro, no Brasil, num dia de Vênus  do mês de novembro, sob o signo de Escorpião. No ano em que Agustina Bessa-Luís publicava ‘A Sibila’. Guerra tem uma licenciatura em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

São de sua autoria os livros ‘Em Busca da Musa Clio’ (2004), ‘Amor, Città Aperta’ (2008), ‘O Céu sobre Berlin’ (2009), ‘Excitações Klimtorianas’ (2012), ‘O Apojo das Ninfas’ (2014), ‘Oito e demy’ (2014), ‘O Português do Cinemoda’ (2015) e ‘Os Homens da Minha Vida’ (2017).

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Colaboradores de Dezembro de 2019:

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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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