ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Jayme Reis/ Myrian Naves, pelo Conselho Editorial


O artista Jayme Reis, uma pequena retrospectiva – O Museu Bienal de Cerveira    

Vila Nova de Cerveira – Portugal
De 30 de novembro de 2019 a 8 de fevereiro de 2020

 

 

CICLO EXPOSITIVO "DO OUTRO LADO"
JAYME REIS + ZÉLIA MENDONÇA

 

“Até 8 de fevereiro de 2020 a Fundação Bienal de Arte de Cerveira convida o público a revisitar a sua Coleção, dando também a conhecer o trabalho de residência artística dos brasileiros Jayme Reis e Zélia Mendonça.

 

As exposições “Do outro lado” e “Ainda a Coleção e os seus artistas” têm a curadoria de Helena Mendes Pereira e Cabral Pinto.

 

30 de novembro de 2019 a 8 de fevereiro de 2020

 

Exposição “Do outro lado” Jayme Reis + Zélia Mendonça

 

Curadoria: Helena Mendes Pereira

 

Local: Galeria, Museu Bienal de Cerveira

 

Organização: Fundação Bienal de Arte de Cerveira

 

Apoio: Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira

 

Horário: terça a sexta-feira: 15h00 às 19h00; sábados e feriados: 10h00 às 13h00; 15h00 às 19h00

 

Inauguração: 30 de novembro, 16h00

 

HORA Novembro 30 (Sábado) 16:00 - Fevereiro 8 (Sábado) 19:00

 

LOCAL: Fórum Cultural de Cerveira

 

Avenida das Comunidades Portuguesas, Vila Nova de Cerveira. Portugal

 

ORGANIZAÇÃO: Fundação Bienal de Arte de Cerveira, F.P.
geral@bienaldecerveira.pt

 

 

A Bienal Internacional de Arte de Cerveira

 

Segundo os organizadores, a “Bienal Internacional de Arte de Cerveira é um evento dirigido à promoção da arte contemporânea, sustentado por uma notoriedade nacional e internacional erigida há 40 anos.

 

Jaime Isidoro, artista de referência nacional, recebeu o desafio de trazer a arte contemporânea até ao espaço rural, para perceber como reagiria o público rural. É assim que se decide pela organização da V Edição dos Encontros Internacionais de Arte em Vila Nova de Cerveira, sendo organizada neste âmbito a 1.ª edição do evento, no ano 1978. Hoje, passados 40 anos sobre a 1.ª edição, a Bienal Internacional de Arte de Cerveira afirma-se como um dos acontecimentos mais marcantes das artes plásticas do nosso País, promovendo a descentralização cultural, sendo a mais antiga do país e Península Ibérica em atividade.

 

O papel transfronteiriço do evento começa a ganhar relevo a partir de meados da década de 80, sendo hoje o único evento das artes em Portugal que tem espaços expositivos no Norte de Portugal e na Galiza. É difícil identificar artistas nacionais hoje consagrados que não estiveram presentes na Bienal durante a sua carreira, alguns dos quais tendo aqui a primeira oportunidade de apresentação pública do seu trabalho. Nomes como José Rodrigues, Henrique Silva, Artur Bual, Albuquerque Mendes, Fernando Lanhas, Helena Almeida, Paula Rego, Vieira da Silva, Nadir Afonso, António Quadros, Pedro Cabrita Reis, Rui Anahory, Silvestre Pestana, entre muitos outros.

 

A Bienal Internacional de Arte de Cerveira é, desde 2011, organizada pela Fundação Bienal de Arte de Cerveira, entidade que promove ao longo do ano exposições, workshops, conferências e debates, entre outras atividades multidisciplinares.”

 

http://www.bienaldecerveira.pt/

 

O artista

                            Jayme Reis

 

 

Seria uma exposição a princípio fechada em Linoleogravuras e talvez alguns desenhos.  Ela se transformou à minha revelia em uma pequena retrospectiva dos meus três anos de trabalho em Portugal. Embora não sejam três anos ininterruptos a viver por aqui. Estou muito contente com o resultado. Ver o meu primeiro objeto criado em solo português ao lado do último e intercalado com tantas outras fases e linguagens diferentes é muito gratificante. Estar entre amigos é ainda mais gratificante. Só tenho a agradecer aos deuses por tudo isso. E viva a vida!

 

A obra em exposição

 

Minha gravura nasce do desenho diletante de guardanapos na mesa do café ou do bar. Nascem em anotações em blocos de viagem, nascem sem compromisso algum, até mesmo de se transformarem  um dia em Xilogravuras ou Linoleogravuras,que é a técnica que me interessa em se tratando de imagens seriadas.

 

Esta exposição tem como mote principal e inicial essas gravuras, mas outras coisas serão expostas, visto que o período de residência artística levou-me para outras constatações e fazeres. Mas quero enaltecer este meio que tanto amo; a xilogravura (ou linoleogravura), portanto nisso mantenho meu foco.

 

Gosto da incisão, do corte rápido ou controlado. Gosto desde sempre. Simplesmente não sei como viver sem este fazer. Também amo a literatura de cordel do nordeste do Brasil e meu (pouco) desenho tem uma forte influência dos gravadores de cordel.

 

 

DIOGO CÃO.

 

Diogo Cão surgiu em minha vida assim... Do nada! Mas nada surge assim do nada.

 

O Diogo apareceu em companhia de um frango e de um esqueleto. Sua nau sempre pode ser avistada “estacionada” ao longe, mas não tão distante da praia.

 

Naquela altura logo pensei; se com um esqueleto, um frango, uma nau portuguesa e um Diogo Cão eu não conseguir criar imagens relevantes, ou bonitas, ou gratificantes é porque não sou um artista.

 

 

DIOGO CÃO NÃO MORREU.

 

Escudeiro da Casa de D. João II de Portugal, foi enviado pelo mesmo em expedições. Realizou duas viagens de descobrimento da costa sudoeste africana, entre 1482 e 1486. Chegou à foz do Zaire e avançou pelo interior do rio, tendo deixado uma inscrição comprovando a sua chegada às cataratas de Ielala, perto de Matadi. Ao chegar à foz do rio Zaire, Diogo Cão julgou ter alcançado o ponto mais ao sul do continente africano (Cabo da Boa Esperança), que na verdade foi dobrado por Bartolomeu Dias pouco tempo depois, e ao qual inicialmente chamara Cabo das Tormentas.

 

Em 1485 chegou ao Cabo da Cruz (actual Namíbia). Introduziu a utilização dos padrões de pedra, em lugar das cruzes de madeira, para assinalar a presença portuguesa nas zonas descobertas.

 

Quanto às viagens comprovadas, foi Damião Peres quem estabeleceu a cronologia geralmente seguida. A primeira destas viagens terá tido início no verão de 1482, passando a expedição por S. Jorge da Mina, dirigindo-se depois ao cabo de Santa Catarina. No decurso desta viagem terá sido descoberto o rio do Padrão (actual rio Congo), onde foi erguido o primeiro padrão de pedra. Mais a sul, no cabo do Lobo, até onde prosseguiu a expedição, foi colocado o padrão de Santo Agostinho. Os navios terão então regressado a Portugal, em Abril de 1484. Nessa altura Diogo Cão foi distinguido por D. João II, pelos serviços prestados.

 

Tudo isso é historia e toda gente sabe isso e está ai a  Wikipédia que não me deixa mentir sozinho. Mas não sei porque cargas d’água tenho eu de ficar a ver  o Cão pelas janelas de comboios. Também o vejo em companhia de Peros de Caminha e Cabrais. Por entre fábricas modernas e à beira de rodovias movimentadas lá estão os gajos que me aparecem como fogos fátuos em breves lampejos epifânicos, enquanto ao telemóvel também leio uma nova mensagem do whatsapp.

 

Diogo Cão existiu de fato, ignora-se com quem casou, mas teve geração, hoje extinta na varonia:

 

Pedro Cão, casado com Brites Figueira de Azevedo, com geração.                     

 

Manuel Cão, casado com Helena Lobo Pinheiro de Lacerda, com geração.

 

André Afonso Cão, General de Galés de Entre Douro e Minho, casado com Genebra de Magalhães, irmã de Fernão de Magalhães, com geração.

 

Isabel Cão, casada com Baltazar Gonçalves Ferreira, com geração.

 

Mas eu nunca conheci Cão algum. Nenhum Antônio Cão. Nenhum Joaquim Cão. Nenhuma Juliana Cão. Ninguém com o sobrenome Cão nem aqui nem em além mar.

 

Estarão extintos os Cães? Em minha imaginação (antes de buscar a história do Diogo Cão no Google) eles já não cá estão por culpa mesmo do Diogo, que, ao sair para descobrir novos mundos,  esqueceu-se de procriar. Ou não teve tempo para fornicar em terras lusitanas, visto que estava muito atarefado a buscar patrocínio para suas expedições. Mas eu estava errado.

 

 

 

O CÃO EM MIM

 

É preciso estar possuído para fazer arte. É preciso estar com a chama acessa. OLHA..., "eu já não faço fé nessa minha loucura..."

 

Quando de maneira quase infantil traço os contornos do Cão e sua Nau é porque estou a obedecer ao ímpeto primordial de fazer arte. E é  preciso seguir este impulso.

 

Se aparecem diante de mim desafios e situações inusitadas e atemporais por que não segui-las? E se o Diogo Cão é um fantasma que habita as brumas epifânicas de Portugal?  E se pertence à família dos fumaçoides atávicos? Que posso eu fazer? Estes fantasmas não aparecem para qualquer um? Como posso saber?

 

Sò sei que quero estar longe, muito longe da sisudez deste actual cenário das exposições de arte nestes tempos de “sociedade do espetáculo”. Quero estar longe disso. Não quero fazer parte disso.

 

E que me apareça o Cão por entre supermercados Continente e postos de gasolina gasol.

 

Amém.

 

 

 

 

 

 

Jayme Damasceno dos Reis Filho,1958; Jayme Reis, artista plástico autodidata multidisciplinar, nasceu em Itabira-MG, onde viveu até 1970, quando se mudou com a família para Belo Horizonte. Teve sua infância, ética/estética afetadas pela delapidação moral e cultural de Itabira pela atividade mineradora. Sua obra é atravessada por tais questões na forma de símbolos/signos sempre impregnados de novas contaminações a que se expõe no cotidiano das cidades em que reside, em viagens. Inicia a produção artística através da cerâmica e em 1980 realiza a primeira exposição individual; viaja em estudos à Europa, retorna a Belo Horizonte e se dedica a suas séries de gravuras e objetos. Em Blumenau e Florianópolis dá início à série dos Barcos, ainda hoje motivo\arquetipo instigante para o artista. Universo próprio, poética multifacetada, multiplicidade de temas a revelar imagens inusitadas de objetos do cotidiano e sua vertente iconoclasta evidenciam sua presença na Arte Contemporânea Brasileira. Desde 2017 divide seu tempo entre Brasil e Portugal, onde obras suas integram a Coleção Lusofonias-Perve Galeria, Lisboa. Em 2018 foi premiado pela Bienal Internacional de Arte de Cerveira.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2019


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Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Dezembro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandre Brandão, Almeida Cumbane, André Balaio, André Caramuru Aubert, André Nigri, Antônio Torres, Ascensíón Rivas Hernández, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Danyel Guerra, Demétrio Panarotto, Deusa d’África, Elísio Miambo, Fiori Esaú Ferrari, Geraldo Lima, Hermínio Prates, Irma Verolín, Rolando Revagliatti, entrevista, Jayme Reis/ Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, João Morgado, Jorge Elias Neto, José Gil, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Bacigalupo, Luís Giffoni, Marinho Lopes, Myrian Naves, Otildo Justino Guido, Ricardo Pedrosa Alves, Ricardo Ramos Filho, Taise Dourado, Viviane de Santana Paulo, Waldo Contreras López, Wanda Monteiro


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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