ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Fiori Esaú Ferrari


Poemas II    

Está chovendo lá fora

 

É cedo e, enquanto a chuva
branda começa seu lamento,
protejo os alvos do dia.

 

A manta bem me cobre
alguma hesitação
e escuto o rorejar de tudo,
um tempo de escoras
e infiltrações.

 

-Está chovendo lá fora.
Diz a ameixeira.
-Está chovendo lá fora.
Diz o vento.
-Está chovendo lá fora.
Diz o passarinho.

 

O adeus na manhã,
um café bom,
a estranha solidão.

 

As gotas de chuva tabulam
na calha
a longa história
da minha infância.


 

 

 

 

 

Não lhe dou a mão

 

Não lhe dou a mão.
Não faço o próximo poema.
O poema não salva o mundo.
O poema não salva o mundo.
O poema não salva o mundo.

 

O poema só diminui um pouco a sua culpa.

 

Às vezes um poema de cunho social
pra que durma em paz.

 

Às vezes um poema de paixão extrema
pra que sinta comiseração.

 

Às vezes um poema sarcástico
pra que erija o falo de sua inteligência.

 

(E você sabe que tudo se dissipa)

 

Não lhe dou a mão.
Detesto.

 

O poema não salva o mundo.
O poema está frio e está ferido
igual um leão envelhecido no circo
sem entender o que é a savana.

 

Quando o mercado inventou o poema,
quando o poema se tornou o fetiche
e tudo amanheceu esquecido
e houve a separação
e houve o choro no escuro,
algum ranger de dentes,
quando o mercado inventou o poema,
o mercado matou o poema.

 

Não lhe dou a mão,                                     
não faço a mínima questão,
não encontro a poesia,
não faço a esperança,
mas é sábado,
19 de outubro,
e, se me acuso,
adianto os olhos
pro Morro Vermelho
em Itapetininga.

 

Pra mais além dele,
um campo azul.

 

De memória,
eu me lembro
de poucas
canções da minha infância.

 

Coisa mais cabotina
ter nascido.


 

 

 

 

 

A névoa acolhe este silêncio

 

A névoa acolhe este silêncio.

 

Por trás da coluna,
alguns pássaros
assumem tortuosos
movimentos,
Laocoonte,
retorcidos os filhos,
a serpente.

 

O pavor de continuar a manhã,
o lastro de certo posicionamento
do olhar
quando se prolonga o infinito
até à rua.

 

Passo a lâmina no rosto.
Gritos fascistas
vão sumindo por entre as casas
e eu canto a resistência
como um óbolo dado
nas mãos
de minha avó
que amealha com as sombras
a exatidão da lágrima.

 

A paz imposta antes do meio dia.

 

Eu ouço Debussy e um samba do Cartola.


 

 

 

 

 

Antimanicomial

 

Eu, submerso nessas terras,
fico raiz imantada,
o vento cheio de folhas,
a troca das flores
quando morrem as pétalas
e elas ficam nuas.

 

Mas mostro o tempo
na falha das asas,
na canção.

 

Uma borboleta é uma pétala que enlouqueceu.


 

 

 

 

 

Sudan

 

Sudan morreu ontem.
Acalmo meus olhos e o vejo
paquiderme,
a pele interminável
sobre o Quênia,
Sudan sobre nossas cabeças.

 

Arquiestátua do meu pensamento,
seu corpo esmagava seu corpo.

 

Sudan morreu ontem
e a savana
lhe tomará o sumo,
o extrato de terra morta.

 

Máquinas nascem de perfil
e decadência.

 

À sombra inadequada
da pálpebra de um rinoceronte
que não olha mais,
pesa o crime.

 

O Quênia é a raiz do monte Fuji.

 

Paquiderme branco, clava de lua.

 

O samurai vê.
A carcaça sobre a terra.
As flores virão.


 

 

 

 

 

Três

 

O tempo no exílio.
A folha e a casca partida.
O pássaro nasce.

 

***

 

A palavra é pouca.
O vento pousa no abeto.
Aceno pro inverno.

 

***

 

Os pardais e os peixes
envelhecem nas histórias.
Ler na solidão.


 

 

 

 

 

Hora de partir

 

A teia encanta
sob o peso
do orvalho,
a estrutura
dessa complexa
lágrima.

 

Um pequeno jardim
é o porto pro exílio.

 

Minhas mãos afetam
a terra num gozo
fértil,
porém o chão não reconhece
mais
o meu nascimento.

 

A capa está sobre o ombro.
O facão na bainha.

 

Nunca reconheci fronteiras
e estudo os meios
de saber as escrituras dos rios,
o registro das flores,
as atas das cascatas.

 

O carimbo da propriedade
desta vez
é o moto-contínuo
do rumo qualquer.

 

Tem um cartório de autenticar
a firma das manhãs,
a boca da neblina chama.

 

Tem um jeito de não estar mais
em lugar algum.

 

Este país azedou.


 

 

 

 

 

Fico        

 

Fico, mas sei que nada mais fica.

 

A voz cansada de existir,
os dias florais,
as alternativas entre a xícara
e a boca,
(qual mundo é ainda possível?)
o perfume cair numa falha temporal
e nos descobrirmos nus,
ausentes de cultura
e violentos como as tempestades
cósmicas.

 

Fico, mas sei que nada mais se repara.

 

O outono não é mera constatação
e hoje, quando repousei nos segundos
diante da desconstrução da árvore,
vi um ninho de pássaros
se equilibrando
à beira do abismo.


 

 

 

 

 

Cena

 

Toco a pétala
com a ponta
dos meus dedos.

 

Sinto a tenaz
emancipação
dos sentidos.

 

Esse vento.

 

Uma breve sonata
de elementos
mal partidos

 

avança sobre mim.

 

A mobilidade do tempo,
as renúncias,
o sabor insosso
da ave sobre a mesa,
a fruta corrompida.

 

A cada dia,
me vou
na inesperada paisagem,
matéria de brumas,

 

me vou
como se eu vencesse seguir
a nuca, as costas, o desaparecimento.

 

As concentrações místicas
do perfume deixado
em minhas mãos

 

traduzem uma insígnia.
Ela está tatuada no meu peito,
onde tenho coragem,

 

onde ramagens me protegem,
onde a escuridão me filia,
onde amo estar só.

 

Fito minha distância
e eu me findo na curva
mais serena da estrada.

 

A flor que arranquei mora longe.


 

 

 

 

 

Ítaca

 

A Grécia infinita
e um recorte de jornal
atravessado do vento
que entrou pela porta.

 

A linha preenchida
da longa lã da espera.

 

Os cães ladram esperando.
A haste curvada da flor esperando.
Grande e belos urubus esperando.

 

Retiro a casca da tartaruga
que me cobre de tempo
e ladrilhos,
sinto a brisa sobre a pele viva.

 

Ajax morto e a palavra escoando,
Aquiles morto e a palavra escoando,
Heitor morto e a palavra escoando.

 

Itapetininga embrulha na névoa.

 

Ulisses porto.


 

 

 

 

 

Extradição

 

Eu extraditei uma pedra, uma flor,
um filamento de destino.
Extraditei o interior do tempo,
estou no ancoradouro
pousado como pássaro
e são minha companhia
os seixos deixados na areia
como em país estranho.

 

Eu lia Os Filhos da Ferrovia
e fazia
da linha da narrativa
um fio de me amotinar,
amava as crianças e o trem
e o homem que partiu em fuga
sem deixar notícias.

 

Minha família sabia
ser a solidão a coluna
que eu erigia nos meus rins,
minha família sabia a minha invenção
de línguas.

 

Em qualquer tarde daquelas,
eu perdi.
Perdi vilmente.
Perdi com uma liberdade
que me condenou
eternamente.
Eu sou o particípio das flores.

 

Eu extrapolei as pedras,
o riozinho,
eu me vinguei
e um dourado de plena
ternura me fez
retroceder e falar
aos bichos pela primeira vez,
um tamanduá cortando
o coração
da Entrada do Mato.

 

O homem no nevoeiro,
o homem na estação,
eu queria pegar pela mão,
eu devia dizer : seus filhos aí estão,
eles salvaram o trem,
suas filhas aí estão,
elas salvaram um trem todo
que é como salvar o mundo
e eu sou,
eu sou,
eu sou
o que leu
a particular tristeza
de uma tarde inteira.

 

Eu extraditei uma nação imensa,
seus gigantes e seus vales,
suas fadas e o gosto amargo
que fica depois do pertencimento
que é nascer.
Minha família são tantos que me acenam.

 

Mas caramujo
de costas aplastadas
eu fico na estação.

 

Um homem chega,
é só o maquinista
que nasceu da noite.

 

 

 

 

 

Mais que nunca

 

Mais que nunca
é preciso
lembrar
o que só querem
no esquecimento.

 

Mais que nunca
é preciso
lembrar
o que só querem
na tumba.

 

O ventre da terra
deve ser rasgado,
os veios de pequenos
vermes,
os caminhos das raízes.

 

Mais que nunca
é preciso
apresentar, sobre o espectro
do silêncio
e da linha reta,
a boca de encaracolar
direções,
o dedo torto
que aponta o absoluto,
é preciso
estabelecer o mundo
dos diversos
caminhos,
a incisão da festa
na uniformidade
do pensamento.

 

Mais que nunca
é preciso
lembrar
as crianças,
que foram proibidas de crescer,
as mulheres,
que foram proibidas de crescer,
as peles negras,
que foram proibidas de crescer,
as reuniões na mata,
que foram proibidas de crescer,
o grito, o grito
da chuva,
dos ventos,
dos pássaros recolhidos,
dos papéis em ponto de brasa e cinza,
é preciso lembrar os sapatos empilhados
no silêncio
e no horror.

 

Mais que nunca,
meu amor,
teremos que lembrar
o que só querem calar,
no meio das plantações de trigo
ou nas reuniões dos condomínios,
nos eixos fúnebres,
que nos tiram a história,
nas celebrações,
que nos impõem danças
e exibem os corpos
como conquista
e teimosia.

 

Mais que nunca
teremos que lembrar
o que só entristece,
o mau destino,
as roupas antigas que se assumem
nos varais uma tentativa de sangue
e crepúsculo,
o que não insiste em apodrecer
mas que toma o ar
de ânsia e agonia,
o pus das horas,
as canções de medo,
os intestinos que foram cobertos
e agora exigem a exposição.

 

É da ordem desses dias.

 

A vazão dos açudes,
a extração do mel,
a morte plena das abelhas.

 

É da ordem desses dias
acolher a loucura
e fazer dela
o discurso mais lúcido.

É preciso lembrar
a mão que fecha a janela
mansamente
como quem
jaz
no quarto,
um vaso de flor vencida,
o tempo da tortura,
meu amor,
façamos
poesia
pra enlouquecer.


 

 

 

 

 

Meu poema

 

Me disseram que meu poema é triste
e tem umas palavras difíceis.
Fiquei lá olhando meu poema
tristíssimo
com umas palavras difíceis.
Fiquei também vendo as pedras
esturricadas
ao sol
e as manchas dos pinheiros do Paraná
chamando pro abraço.
Fui mergulhar na vida.
Meu poema tristíssimo
com umas palavras difíceis
deixei
na mesa de madeira,
nos aviamentos da costura,
sozinho,
como uma canção de amor.

 

 

Fiori Esaú Ferrari nasceu em Itapetininga. É professor de Literatura pela Uneafro – União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora – e professor efetivo de Língua Portuguesa pelo município de São Paulo. Publicou três livros de poemas. “Variações do Exílio” (2018), Editora Penalux, é o último deles.

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Paginação:

Nuno Baptista


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