ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Demétrio Panarotto


Meu campo de concentração privado: hoje eu sou o Mengele de mim mesmo    

acordo escovo os dentes tomo café da manhã
depois tomo as boletas que me mantém um idiota aos olhos dos demais
essas experiências se repetem diariamente
em seguida confiro as redes sociais
acho tudo uma merda sem precedentes
mas como faço parte
posto uma foto do café da manhã no facebook
ou no instagram                                                                    
ou nos dois
posto comidinhas para as pessoas acreditarem que eu como coisas naturais
depois da foto uma mensagem num box laranja
ou vermelho ou verde losna ou azul tesão
qualquer cor bem chamativa
com uma mensagem de efeito
para avisar para as pessoas que sigo vegetando
e saio pela porta do apartamento em que moro no sétimo andar
uma câmera vigia os meus passos desde que eu entro no elevador
várias câmeras me vigiam depois que saio do elevador
em reunião de condomínio o síndico falou da importância das câmeras
para nos sentirmos mais seguros
para nos sentirmos mais seguros
ouvi essa frase inúmeras vezes
para nos sentirmos mais seguros
naturalmente o valor pago no boleto foi reajustado para nos sentirmos mais seguros
do portão para fora do prédio em que moro a vigia só aumenta
quando deixo de ser visto pela câmera do meu prédio a câmera do outro me pega
e assim sucessivamente
não passo de uma imagem também para as câmeras dos moradores das redondezas
a vigia é intensa
filmam e fazem foto
depois olham se algo interessante pode ser usado contra alguém
a lógica dos dias de hoje é o refluxo das rede sociais
essa e outras
precisa-se tirar onda com alguém para garantir o sucesso virtual
e sigo colhendo os louros dessa inimizade constante
até esse momento já chequei as redes mais que uma vez
quem sabe me enviaram uma mensagem importante
é essa a paranóia
receber uma mensagem importante de alguém
um oi ou um like que seja ou um emoji
essas ferramentas que aumentam a sensação de solidão
acho que a única imunidade que adquirimos em vida
outras tantas pessoas também seguram a prótese celular conectada ao corpo
o motorista do ônibus buzina
por pouco não atropelou uma desavisada que conferia o celular
uma vovozinha simpática se descuidou do neto ao receber a cartela mimosa de bom dia dessas cartelinhas cheia de flores ou de gatinhos ou de
o neto atravessava a rua atrás do amigo imaginário
ser atropelado nessas horas também deve ser do mundo imaginário
e a vovozinha simpática corre na direção do neto com o bordão deus existe deus existe
oh palavra rançosa essa de quatro letras
ainda mais quando acompanhada por uma de seis
e deus resolve também as fragilidades virtuais
não foram os seres humanos que viraram seus semelhantes
os seres humanos escravizaram deus a eles próprios
a conexão sem fio e sem sentimento rege os encontros
as pessoas se sentem conectadas com o mundo
sinto-me conectado também
e me desespero quando o sinal de internet cai no buraco negro de uma das ruas
acho que me desespero de novo assim que ele retorna
isso acontece quando passo por um corredor de árvores entre a casa e o trabalho
o sinal ali é sempre uma resenha
mas mesmo assim a minha reação é embrutecida
e se eu receber algo
e se alguém me enviou uma mensagem importante
e essas árvores que atrapalham o sinal
é claro que devo ter recebido algo
não deixo de pensar nisso
óbvio que ninguém enviou nada
a felicidade se reestabelece no momento em que o sinal volta a funcionar
a felicidade se desfaz quando vejo que não recebi nada
e mesmo que eu tenha ficado sem sinal
as câmeras seguem me vigiando
e eu dando informações diárias àqueles que me vigiam
das minhas coisas
dos meus atos
com quem saí ontem
com quem estou me relacionando
naquilo que acredito
por aquilo que me interesso
ofereço tudo de mão beijada e recebo mensagens que compactuam com o que penso
e me encho de uma falsidade que me conecta à falsidade dos outros
acabei de chegar ao trabalho
cumprimentei os colegas por cumprimentar
trabalhei conectado com o mundo
pensando que o mundo está conectado comigo
mandei mensagens likes emogis o dia inteiro
e já estou me dirigindo de volta para casa
nem vi o dia passar
mais um
hoje bem mais tarde que ontem
faço um outro percurso
e continuo sendo vigiado
igualzinho aos outros dias
próximo de casa tenho a impressão de que alguém me observa
[me observa no sentido físico da palavra]
acelero o meu passo
meu coração dispara
por que motivo aquela pessoa não tira os olhos de mim
sinto-me incomodado
não saberia explicar
um ar de tranquilidade toma conta de mim quando vejo o portão do prédio em que moro
outro quando escuto o portão se fechar atrás de mim
um terceiro ar de tranquilidade depois que a porta do elevador se fecha
e um quarto quando tranco a porta de casa
passo duas vezes a chave e confiro todos os cadeados
olho pelo olho mágico e olho mais uma vez
vigiado chego ao aconchego do meu lar
acho que estou salvo
sento-me no sofá e posto uma mensagem para dizer como o meu dia foi lindo
posto uma selfie com o meu cachorro
[foto de arquivo]
com o meu sanduiche vegano
curto mais algumas coisas
ligo a televisão para deixar a televisão ligada no jornal nacional
sei que mais dia ou mais tarde a minha morte será por asfixia
todos vão morrer desse modo
não há outro modo
esse é o destino de quem vive nos apartamentos de concentração
ninguém tem importância a não ser enquanto consome
enquanto consome aquilo que está na ordem da vigia
por conta do cansaço dormi no sofá da sala
com o celular carregando para não ter sombra de dúvidas que estava sendo vigiado
de madrugada fui acordado por um dos sinais do celular
o rapaz que me olhava na rua acabara de me adicionar no facebook
e eu o aceito mesmo sabendo que não vou cumprimentá-lo quando o encontrar na rua
apenas para ficar tranquilo que ele a partir de agora vai continuar me vigiando
sigo para o meu quarto
coloco o meu pijama listrado
e por hora
talvez alguns minutos
descanso o corpo clamando pelo gás que não vem.

 

 

Demétrio Panarotto nasceu em Chapecó-SC, em 1969. É doutor em Literatura (UFSC) e professor universitário (UNISUL). Músico, poeta, escritor e idealizador do programa Quinta Maldita (na webrádio Desterro Cultural). Publicou, dentre outros, "Mas é isso, um acontecimento" [Editora da Casa, 2008, poemas]; "Qual Sertão, Euclides da Cunha e Tom Zé" [Lumme Editor, Móbile, 2009, livro/ensaio]; "Poema da Maria 3D" [Coleção Formas Breves, e-galáxia, 2015, e-book, conto]; "Ares-Condicionados" [Nave Editora, 2015, contos]; "A de Antônia" [Miríade, " 2016, infantil]; "No Puteiro" [Butecanis Editora Cabocla, 2016, poemas]; 'Café com Boceta' [Butecanis Editora Cabocla, 2017, poemas]; 'Blasfêmia' [Butecanis Editora Cabocla, 2018, poemas]; mais alguns discos e alguns filmes. Reside em Florianópolis-SC.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2019


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Colaboradores de Dezembro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandre Brandão, Almeida Cumbane, André Balaio, André Caramuru Aubert, André Nigri, Antônio Torres, Ascensíón Rivas Hernández, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Danyel Guerra, Demétrio Panarotto, Deusa d’África, Elísio Miambo, Fiori Esaú Ferrari, Geraldo Lima, Hermínio Prates, Irma Verolín, Rolando Revagliatti, entrevista, Jayme Reis/ Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, João Morgado, Jorge Elias Neto, José Gil, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Bacigalupo, Luís Giffoni, Marinho Lopes, Myrian Naves, Otildo Justino Guido, Ricardo Pedrosa Alves, Ricardo Ramos Filho, Taise Dourado, Viviane de Santana Paulo, Waldo Contreras López, Wanda Monteiro


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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