ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Poemas    

POEMA DA ESPERANÇA

 

Já se disseram todas as palavras de ignomínia
Já se soletraram as dúvidas
O desgaste dos silêncios abateu-se nas esferas
Já se nomearam os óleos do abandono
(os poetas quando caem do céu são esmagados em túlipas)
Já se arrancaram espelhos e ontologias
Já se identificaram roulottes de desejo e moldura
Já medraram as folhas arrancadas da dispersão e dos papeis
Já se fundiram as peles e os milénios
Agora é tempo de se iniciar o mundo nas aberturas
É tempo de peixes e de feno
É tempo de contagem de rostos que amámos
(os berlindes foram a época de infâncias perdidas)
É tempo de acender mapas e lugares
É tempo de uma pantomima
É tempo de alargar o quiosque de bocas e mãos
Resguarda-te no lume exaurido
Percorre a chama
E deita-te na estepe de um amor antigo

 

 

 

 

 

 

POEMA CAIS DE PEDRA

 

Demoro o meu olhar no cais de pedra de onde partiste
naquele dia em que trouxeste palavras e nelas devagar te guardaste
Demoro o meu olhar neste cais de derradeiras despedidas
na alcalina de um apelo às lamas das invernias
Já não escrevo aquelas cartas de abandono
Já não dito nomes e nomes de um acolhimento
Já não falo sobre os lugares e as âncoras
Já não mudo o mundo com fantasias
Já não abraço os ombros de muros
Já não me canso quando recolho pratos e sílabas
Acordo sem montanhas
Demoro o meu olhar neste cais que me fala dos teus ramos
Mas já não habito os degraus das tuas mãos
Já não durmo nos dias destas casas frias
Já não pairo nas estórias do teu mundo
Já não entardeço na camisa dos teus braços
Sou apenas um alpendre sem norte e sem sul

 

 

 

 

 

 

POEMA COMO EU GOSTARIA

 

E todavia como eu gostaria de amar o povoado onde te resguardas
E todavia no intranquilo vento desgastar o cobre de um afago
E todavia como eu gostaria de me deter em universos paralelos
E pelo lado norte recordar vielas em probabilidade
Já não há fôlegos de antemanhã
Já não há janelas nos sobressaltos e nas dunas
E todavia como eu gostaria de amar o líquen de um episódio pícaro
Sentir as vozes mansas nas calmarias
Regar os alfabetos com a desordenação dos hábitos
Estender buracos em oitavas de guitarra portuguesa
E todavia como eu gostaria de lembrar galáxias e meteoros
Entrar no casulo onde te deténs e reunir as vigílias
Dissolver as décadas e iludir o tempo
Beber cada sintonia
Mexer o gargalo
Entornar
E todavia a esperança de que haja um depois
E todavia a magia de uma imagem muito esbatida
Miopia dos sentidos
Para além dos silêncios e das estradas da filosofia
Para além de muros
Para além de veredas
Para além do tejo e do douro
Outras geografias

 

Cecília Barreira – CHAM/FCSH /UNL

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2019


FICHA TÉCNICA


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Colaboradores de Dezembro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandre Brandão, Almeida Cumbane, André Balaio, André Caramuru Aubert, André Nigri, Antônio Torres, Ascensíón Rivas Hernández, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Danyel Guerra, Demétrio Panarotto, Deusa d’África, Elísio Miambo, Fiori Esaú Ferrari, Geraldo Lima, Hermínio Prates, Irma Verolín, Rolando Revagliatti, entrevista, Jayme Reis/ Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, João Morgado, Jorge Elias Neto, José Gil, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Bacigalupo, Luís Giffoni, Marinho Lopes, Myrian Naves, Otildo Justino Guido, Ricardo Pedrosa Alves, Ricardo Ramos Filho, Taise Dourado, Viviane de Santana Paulo, Waldo Contreras López, Wanda Monteiro


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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