ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

André Balaio


Eu sou o filho do homem    

Irineu surgiu entre as máquinas de prancheta em punho, observando a moenda esmagar a cana e a moega cuspir açúcar nos sacos de ráfia. Mestre Evaldo cutucou o moendeiro.

 

– Olha ele. Esse Doutor Irineu parece um pavão desfilando por aqui. Eita cabra doido. Tu sabia que antes da Revolução, quando Arraes ainda era governador, o pessoal das ligas camponesas tentou parar a usina? Pois ele juntou os capangas, pegou a espingarda doze e foi lá pra frente peitar os comunistas. Num instante eles se amofinaram, saíram com o rabo entre as pernas.

 

– Tás falando que nem ele. Não é Arraes, tenha respeito, é Doutor Arraes.

 

– Deixei de ser besta. Eu ajudo quem me ajuda. O homem é chato mas paga meu salário. Lá vem ele, faz de conta que a gente tá conversando de outra coisa.

 

– Bom dia, Evaldo. Como está a produção?

 

– A cana está de primeira, doutor. Tem tempo que não vejo uma safra assim.

 

– A gente tem que bater a meta de duas mil toneladas, viu?

 

– Sim, senhor. Vamos conseguir, se Deus quiser. E o herdeiro nasce quando?

 

– Semana que vem. É mais uma meta de produção batida com sucesso – e deu uma gargalhada, seguida pelos risos forçados do mestre de açúcar.

 

Na casa grande, a barriga enorme de Lenita não a impedia de observar cada detalhe do almoço ou a poeira sobre a mesa que apontava com voz baixa para os empregados. Nascida na capital, não chegou a conhecer o pai e passou fome na infância. Estudou para ser professora e veio ensinar na escola da vila. Adaptou-se tão bem que muitos juravam ser natural da região. Gostava de escutar o povo do lugarejo, tentava atender os pedidos das mulheres e dos velhos funcionários da usina. Conheceu Doutor Irineu quando Mestre Evaldo decidiu se alfabetizar e matriculou-se no turno da noite. O coronel ficou incomodado: o empregado agora reclamava de horas extras, insegurança, insalubridade. Teve uma hora que Irineu foi à escola reclamar. A professorinha magra de rosto afilado e cabelos loiros recebeu o usineiro na porta da sala e sentiu um arrepio quando o homem de bigode espesso e cabelos revoltos apertou sua mão. Prometeu conversar com Evaldo, explicar que nem tudo era perfeito e a usina era um bom lugar para trabalhar. Em pouco tempo, o mestre de açúcar deixou de bancar o sabido e passou a elogiar o emprego.

 

Casaram em menos de um ano. Lenita queria viver no velho casarão, apesar de Irineu preferir que ela ficasse no Recife, na mansão da família com a sogra viúva. Para engravidar, tentou simpatias com as mulheres da região, ervas milagrosas, rezas e benzeduras que não funcionaram e acabou fazendo tratamento em uma clínica da capital. Olavinho nasceu e o pai não estava presente, soube quando ligaram para a usina. Ao chegar à maternidade, teve que passar por um corredor de amigos e funcionários dando tapinhas nas costas. Parabéns, coronel! Olavo, igual ao avô? Nome forte.

 

No galpão, roupa amassada, rosto constrito, Irineu entrou cabisbaixo, ficou parado na frente do caldo turvo que escorria da moenda. Evaldo observava.

 

– O menino nasce e ele já está aqui. Esse homem gosta mais de açúcar do que da família?

 

Não saíam da cabeça de Irineu os olhos puxados e o rosto inchado do menino. Pobre diabo, era doente e nunca iria sarar, um peso morto que carregaria enquanto vida tivesse. Ainda latejava na cabeça o momento em que o médico chamou no canto.

 

– O senhor notou que o garoto tem um problema?

 

– Não entendi, doutor. Troque em nota de mil-réis.

 

– Ele é mongoloide. Vai precisar muito do senhor. Seja forte.

 

Chovia fino quando o carro da usina parou em frente à casa grande. Lenita desceu com Olavinho nos braços. Flutuava de orgulho. A cozinheira correu pra porta. O filho do caseiro veio do quintal.

 

– Toinho, vá chamar o coronel na produção. Diga que já cheguei com o menino dele.

 

Irineu ouviu e caminhou. Caminhou, mas não chegou. Arrodeou, arrumou motivo pra ver de novo a produção, o pensamento-cana na moenda do juízo. O que eu faço agora? Com que cara eu vou olhar as pessoas quando perceberem que o menino é mongol? O dono da venda estranhou o usineiro parar e pedir uma garrafa de cachaça, aquele homem nunca tinha ido lá antes.

 

Olavinho no berço, Lenita na cadeira de balanço, o relógio de parede, as cigarras cantando, a mesa posta, a noite caindo e nada de Irineu. Ele sempre quis um herdeiro, por que o sumiço?

 

Oito da noite. Lenita sentiu o cheiro de cachaça quando ele beijou o rosto e deitou sem ver o filho.

 

– Por que você está assim, homem? Achei que ficaria feliz.

 

– Lenita, o menino é doente.

 

– Doente como? Quem lhe disse isso?

 

– Você não percebe? Olhe a cara dele. Nunca vai ser ninguém, entendeu?

 

Adormeceu na cadeira de balanço tragando o resto da cachaça. No meio da noite caminhou tropeçando e deitou ao lado da esposa.  De manhã viu um travesseiro no chão perto do berço. O filho estava quieto, olhos virados, um choro que não veio e nunca virá. Lenita acordou em seguida. Olavinho!

 

Durante o dia, chegou gente para olhar o corpo apertado num pequeno caixão de mogno no meio da sala. Lenita não desgrudava do menino, a mão passeando na testa pequena, nos olhos puxados e bochechas gordas. Irineu sem forças, a mente nublada, matei meu filho? Da cadeira de balanço viu o caixão sair numa rota silenciosa.

 

Lenita recebia a pequena multidão que foi se espremendo na capela da usina. Logo, o buchicho: Cadê o homem? Não vai acompanhar a missa do filho? Ficou na casa grande. Endoidou de vez.

 

As frases bonitas que Lenita ouviu no enterro foram minguando à medida que parentes e amigos se despediam. Na casa, ficou o silêncio de Irineu e o prenúncio da solidão a dois. A mulher deitou-se.

 

– Meu marido, venha cá. Não tem mais nada a fazer. Voltamos à vida de antes. Eu amo você.

 

Ele entrou no quarto. O berço ainda estava lá. Não devia. Irineu se aproximou para tirá-lo dali, carregar para longe, o mais longe possível. Viu uma luz e algo que se movia dentro do berço, era o bebê de olhos puxados e cara gorda. Não pode ser. Deus me perdoe. O revólver na gaveta. Pegou. Não, não é para ela ver isso. Lá fora, nos fundos da casa, o cano na boca. Uma ave negra pousa nos ouvidos de Lenita, ela ouve o estampido, solta um grito e corre para os fundos da casa. O corpo caído contra a parede espalha sangue fresco na cal. Lenita agarra-se a ele e mela o rosto de sangue.

 

– Por que isso agora, se fiz por você? Fui eu, meu amor, fui eu!

 

 

André Balaio, brasileiro, natural do Recife, Pernambuco, é escritor e roteirista de quadrinhos. Desde 2000 edita o site “O Recife Assombrado” (orecifassombrado.com). Com diversas histórias em quadrinhos publicadas e participações em várias coletâneas literárias, adaptou o livro “Assombrações do Recife Velho” de Gilberto Freyre para quadrinhos pela Global Editora. Venceu o prêmio literário internacional Off Flip 2016 com a história de fantasmas “O lado de lá”. "Quebranto", seu primeiro de livro de contos, foi finalista das prêmios literários brasileiros SESC e CEPE e venceu o prêmio Vânia Souto de Carvalho da Academia Pernambucana de Letras como melhor obra de ficção de 2018.

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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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