ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

João Morgado


Os fios intercalados da tecedeira Beatriz    

 

Ao olhar a capa deste livro, pareceu-me ver uma tapeçaria. Não era.

 


Mas o meu instinto não me atraiçoou. Quando abri o livro, e me encontrei com a colgadura dos poemas no papel, vendo como os versos medravam na horizontal da página, reconheci as tapeçarias tradicionais em que as senhoras de idade intercalavam os fios de diferentes cores e debuxavam intrincados desenhos nas teias dos teares de madeira.

 


A primeira vez que me sentei ao lado destas senhoras, fiquei abismado. Fiquei a olhar para elas, para a mestria com que mesclavam as cores. Molhavam a ponta dos dedos nos lábios e puxavam depois por um fio de uma cor e depois outra, e outra. E atavam os fios, retesavam os fios, intercalavam os fios, e a trama de lã ia crescendo rapidamente, numa mistura de traços espessos, onde se viam pontas soltas e nós.

 


Por vezes senti que era uma mescla confusa, mas… elas não davam ares de estar perdidas. Cantavam, puxavam pelos fios e seguiam a trama, fio a fio, cor a cor.

A Beatriz tecedeira pega na teia do livro para intercalar as suas palavras, e as mãos conspiram na escolha de palavras de cores diferentes, que se juntam ou se afastam, se encostam ou se dispersam…

 


São olhos “de azulpleno”, ou “faíscas mudas”, por vezes “fagulhas” ou “sílabas de espelho”…

 


Por vezes, parece que nem escreve as palavras, só lhes rouba o som, só lhes suga o ritmo.

Assim constrói a trama dos seus poemas, onde também encontramos por vezes – como nas tapeçarias – pontas soltas e nós. Talvez por isso, à primeira vista, à primeira leitura, nos pareça por vezes uma mescla confusa… mas, tal como as velhas artesãs, também ela não nos parece perdida.

 


Porque as artesãs, tal como a Beatriz, sabem que a tapeçaria se constrói a partir do avesso, e quando se vira a obra, é quando toda a paleta de cores faz sentido.

 


E quando “alguém toca os sinos na grande barca da noite”, também estas ilhas da Beatriz se viram sobre o papel em toda a sua plenitude.


Que tapeçaria nos oferece Beatriz?

Picasso não é Da Vinci, como Van Gogh não é Dali… cada um tem a sua pintura, o seu código próprio.

 


Camões não é Pessoa, como Eugénio de Andrade não é  Melo e Castro… cada um, tem igualmente, o seu código distintivo que nos permite lê-los, interpretá-los, senti-los…

 


Beatriz precisa também que a gente a leia e releia para que possamos descodificar a sua poesia, subjectiva mas vibrante, impulsiva e expressiva do seu universo.

 


Este livro é um arquipélago de emoções. Não nos é dado um continente, seguido, uno, indivisível, um caminho por onde se possa andarilhar num passo seguro, uma cor certa que nos oriente. Pelo contrário. Na sua escrita, tudo são pulos e cabriolas, pinceladas de cor, vislumbres, assobios, caramujos dispersos pelas ilhas… grandes pedras soltas no mar das ideias e das emoções.

 


É preciso virar o poema, a tapeçaria construída do avesso, para lhe descobrirmos o seu código de leitura e a beleza do arquipélago que então nos oferece.

 


Esta obra, faz jus ao que ela escreveu no seu outro livro “Peixe Papiro”, em que dizia: “…todas as palavras, todas as palavras, todas as palavras, todas as palavras… devolvi polidas!”

 


João Morgado

Livraria Barata, Lisboa

(25 de Outubro de 2019)

 

 

João Morgado (Aldeia do Carvalho, Covilhã, 1965), é poeta e romancista. É um premiado autor português. Recebeu a 13 de Junho de 2017 a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Cívico e Cultural, oficializada pela República Federativa do Brasil, pela sua investigação sobre a vida de Pedro Álvares Cabral.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Dezembro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandre Brandão, Almeida Cumbane, André Balaio, André Caramuru Aubert, André Nigri, Antônio Torres, Ascensíón Rivas Hernández, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Danyel Guerra, Demétrio Panarotto, Deusa d’África, Elísio Miambo, Fiori Esaú Ferrari, Geraldo Lima, Hermínio Prates, Irma Verolín, Rolando Revagliatti, entrevista, Jayme Reis/ Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, João Morgado, Jorge Elias Neto, José Gil, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Bacigalupo, Luís Giffoni, Marinho Lopes, Myrian Naves, Otildo Justino Guido, Ricardo Pedrosa Alves, Ricardo Ramos Filho, Taise Dourado, Viviane de Santana Paulo, Waldo Contreras López, Wanda Monteiro


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR