ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Jorge Elias Neto


Título do artigo : Poemas inéditos do futuro livro: XXI    

PAI BANCÁRIO

 

Desfia o terço de prata
e se agarra ao deus binário
- é esse o nosso contemporâneo.

 

Mas a possibilidade do espelho é a farsa
do único rosto e um número múltiplo
retido para balanço.

 

 

 

 

 

 

A VERDADE DA HISTÓRIA 

 

Quanto vale a história no mercado da poesia?”.

João Luís Barreto Guimarães

 

Eu sou o passado - leitoso - a derramar-se.
Não a farsa dos intérpretes, estudiosos do agreste,
que dizem ser um enigma o sangue do crepúsculo.

 

Eu sou uma mão espalmada, cobrindo tudo:
as mínimas expectativas e as pegadas dos sem juízo;
raiz que faz brotar a memória sem pudor.

 

Eu sou o rompante, o atropelo do que aguarda
e o tropeço do que dispara.

 

Eu sou rede de arrasto, sou bateia, sou a peneira de malhas finas 
a colher os peixes para lançá-los no desconforto da irrespirável realidade.

 

Eu sou a tragédia desperdiçada.

 

Eu sou o medo que espreita, a seiva do desassossego. 

 

Eu sou a caridade soterrada na imundície dos aterros sanitários,
o cemitério das almas virgens.

 

Eu sou a testemunha do apocalipse, do flagelo dos excomungados,
do cio das bruxas e suas vassouras a crepitar nas praças.

 

Eu sou a calma da paisagem deserta, a precisão da gravidade
atraindo os corpos inertes à fuligem do esquecimento.

 

Eu sou o tormento da palmeira do príncipe no jardim das armas.

 

Eu sou a dissolução do consenso,
a filigrana que povoa as guerras, a trapaça.

 

Eu sou o manto da corrupção lançado sobre a verdade,
a dissimulação ao sugerir enganos.

 

Eu sou a pedra sobre a pedra sobre a pedra
sobre a pedra sobre as presas do Mamute.

 

 

Eu sou a paz das naus submersas, a boçalidade das ideologias,
símbolos da miséria e da peste. 

Eu sou o elo cravado na carne,
a marca da besta nos braços dos inocentes.

Eu sou o sem paradeiro das andanças e da ambição.

Eu sou a justa trégua em nome da arte.

Eu sou o olhar dos santos.

Eu sou cálculos, aritmética e o alvo.

Eu sou o ressalto antes da queda, a pausa antes do erro, o atropelo.

Eu sou o tempo: duração do perecível papiro nos anais do Universo.

Sou pronome pessoal, sou cria do homem 
e chegarei viva ao amanhecer
do último dia.

 

 

 

 

 

 

BRUMADINHO

 

Eu não saberia dizer,
estou atordoado,
pisar o sem fundo das casas,
entrar pelos telhados na vida das pessoas,
saber os muitos tons da verdade,
que a terra engole a fala dos homens
e os aniquila com esse funil de lama
tragando o ar e a voz de Minas.

O mito é o pássaro que sobrevoa a tarde?

Não, isso é poesia,
e estou falando da morte.

 

 

 

 

 

 

 

JARDÍN NEBULOSO

 

(la más larga tarde
es la ausencia de tu nombre)

 

Cambia la hermosura,
el sentido,
el lugar de la boca,
los canteros de las delicias.

Cambia el terreno de piedra,
la revuelta de las palomas,
la botella de leche sobre
el tablero de dama,
el equilibrio en el vacío
del árbol muerto.

El sendero cambia,
cambian las actitudes y los oponentes
y el vaso se resiente del frío.

Los bordados cambian
para manos extrañas,
y los dibujos son otros,
y ya no saben decir del fruir de las horas,
y de los secretos de las siembras.

 

Guardei as fitas do arco-íris para os cabelos das crianças.

O bem é assim: cheio de luz,
e a beleza, esse beijo  indiferente
numa esquina que se diz vida e
que nada mais é que um laço apertado
de pequenas crenças e grandes tragédias.

 

 

 

 

 

 

PAISAGEM SUBMERSA 

Sobre o óleo na pele das praias brasileiras

 I

Não bastasse o açoite do Sol no lajedo,
a terra arrasada, o desconsolo,
a palma, o borrego morto,
o pau a pique e a trajetória 
salvadora da Arribaçã

Não bastasse a fuga para o Sul,
o pau de arara,
o rugido da fome,
as bonecas de ossos de minha mãe

(Não bastasse chamar de vitória 
o reconhecimento da derrota)

 

II

A nau catarineta do apocalipse
reparte o milagre:
a Severina noite,
a ironia,
o lusco-fusco da paisagem morta

 

III

(A lágrima negra só
             brota nos olhos dos homens)

 

IV

A asfixia dos peixes,
o piche escorrendo nos degraus dos arrecifes,
a miséria dos seres de sal
famintos nos berçários dos mangues,
as tatuagens nos cascos,
o visgo do óleo nas algas,
o lusco fusco de um horizonte sem promessas

 

V

Que palavra colhida nessa areia 
pode ser pura?

 

VI

O grão é inútil se não sacia a fome
e a boca seca só permite o engasgo

 

VII

O Sol sempre ferveu 
nesse sertão de Nosso Senhor Jesus Cristo,
mas na costa, a água, se não era doce,
era pura e abençoada,
e contava a história de um tempo
em que não se percebia que o vento 
movia o Mundo sobre o Atlântico

 

VIII

Essa colcha de retalhos
é a pele estendida, cerzida,
é a vela de uma jangada
que escreve o poema
na crosta,
nas negras ondas,
na consciência.

 

 

Jorge Elias Neto (1964) é capixaba, médico “eletricista do coração” , pesquisador e poeta. Livros: Verdes versos (Vitória: Flor&Cultura, 2007), Rascunhos do absurdo (Vitória: Flor&Cultura, 2010), Os ossos da baleia (Vitória: Secult–ES, 2013), Glacial (São Paulo: Patuá, 2014), Breve dicionário (poético) do boxe (São Paulo: Patuá, 2015), Cabotagem (Ilhéus: Mondrongo, 2016), Breviário dos olhos (Vitória: Edição do autor, 2017) e O ornitorrinco do pau oco (Vitória: Cousa, 2018).

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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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