ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Lucas Perito


Poesia III    

Encontros: metamorfoses

 

Há um grande animal repartido
Entre dois países, algumas cidades e duas ruas 
Ocupa todo o espaço de um apartamento
Navega em uma cartografia nova, de locais falsos
Habitando o câncer como substituto do desejo
- Uma girafa com rosto de pintor
Seus braços crescem, tocam a ponta dos pés,
Invadem os vídeos, jornais, revistas,
O teto não dá mais conta da cabeça.
Outros moradores nem percebem essa invasão,
O papel sente a ferida -
Continua crescendo, se expandindo,
Invade a língua, o lápis, o olhar - a respiração
Se torna pesada, amassa, oprime, destroça e sobra,
Num espaço fronteiriço, apenas, um homem
Novo, olhando aquela Aurora e morrendo uma morte repetida. 

 

 

 

 

 

 

Ciclo de Caça

 

Sempre foram as distâncias, 
o nascimento dos peixes
e o relógio que me obseda.
Há muito tempo
escolhi meu sexo
e deixei aves sobrevoarem. 
Vivi no meio de ubérrimo lago 
assediando o fim da noite.

 

Modifiquei minha posição
tropecei numa cabeça 
consumei o rabo de um animal 
Vi o pássaro dormido em meu pai
Lembrei a mão que não toquei.

 

Remir - primitivamente 
assumir os passos em falso 
e tomar a dor como deleite.

 

 

 

 

 

 

Ritualístico

 “‘Je crois que nous vivons dans le rêve d’un autre
Et que c’est pour cela que nous sommes si soumis.’...
 ... ‘Je crois que ce que nous aurions de mieux à faire
Ce serait de tâcher de nous rendormir.’”
André  Gide

 

Andar em círculos
Esvaziar os bolsos dos rios e caminhar
Dispersar todas as folhas num buraco
Encontrar a ponta de uma flecha machucada
Rasgar o dorso com mãos infindas
Caçar horizontes nômades
Retornar à razão
Seguir de costas para um século já desesperado

 

 

 

 

 

 

Hagiografia
Para René

 

Contempla a si mesmo como um fruto estéril
À pele, o que há de mais profundo,
A solidão dos objetos e a forma de algo cru
Se mantém entre a vigília e o sono
Por trás da boca, a face extinta

 

 

 

 

 

 

Perpétuo

 

O inverno se despe de nós
sob a cavalgadura do tempo
um astro exato (despenca)
descreve um arco inabitado
e a extinção do silêncio.
Eu -
que precedo a mim mesmo
escolho o primitivo sonho de um sonho
uma possibilidade de existência
que a noite engole.
Nos vestígios do dia
o som percute e o tempo nos cavalga
Trocamos de corpo e Tu - 
desenha uma nova sintaxe.
Saturno troca sua guarda
a leste de mim
tudo é aparência
Sob um mesmo signo
retornam e o som responde
O inverso se detém sobre nós.

 

 

 

 

 

 

Reflexos Vagos

 

No entardecer de um astro, comove-me esse espaço entre séculos
no estender dessa distância infinita
a cortar uma linha de tempo na escuridão viva da noite.

 

Cá, disperso o eco em uma câmara de espelhos
e um som navega no timbre de uma concha 
Sopro de um reflexo de tom helicoidal
que retorna e torna a retornar num caracol a desmanchar e
remontar o rumor de regresso que parte no avesso
da casca que replica a voz que retorque um anel
e desfaz ao giro de uma sentença em espiral
que restitui a palavra original sorvida pelo nada.

 

 

 

 

 

 

***

 

Desato uma pedra da cintura,
uma lâmina a desmontar o azar.
Em um calendário romano,
me eternizo numa galáxia
Suspenso sobre o tempo,
ouço o desenrolar ruindo os passos da palavra.

 

 

 

 

 

 

Imagens Solares (Fotografia)

 

uma manga, a carne, um bloco
perfumado como sol
tateando a febre ao sul da península
entre cativos e silenciosas ondas
a interrogar o gosto das coisas

 

nascimento de algo avesso
e a medida de inumeráveis mãos,
marcado, dança o vento
um delicioso milagre
para a posteridade

 

 

 

 

 

 

Embrutecimento das Pedras

 

Meus pés percorreram todo azul do abismo manchados de terra

 

Meus pés
Percorreram todo o azul do abismo
Manchados de terra

 

Meus pés          percorreram          todo azul do abismo          manchados de terra

 

Meus pés
percorreram todo azul do abismo manchados de terra

 

Meus pés percorreram
Todo azul do abismo
Manchados de terra

 

 

 

 

 

 

Primeiros Anos

 

Eu estive quando ia à ingreja aos domingos
Quando comprava frutas com meu pai na corepativa
Pós isso, verto o errado em potes novos
[temporal]
Vi o passado e desejo o futuro
Incomensuravelmente
                                   passo

                                             desfaço.

 

 

Lucas Perito (São Paulo, 1985). Poeta. Escreveu livros ligados à história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Publicou seu primeiro livro de poemas, “38 Movimentos”, pela Lumme Editor (2018). Tem poemas publicados em algumas das principais revistas brasileiras, além de algumas revistas de Portugal, Espanha, Galícia, Colômbia, Peru e México.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2019


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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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