ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Luís Giffoni


Crônica: Estatística Diabólica    

A estatística se tornou a arte de impregnar a sisudez dos números com a necessidade de cada um. Virou terreno fértil para a manipulação. Por exemplo, um grande jornal de São Paulo, a fim de criticar uma administração estadual, anunciou que 15% da população condenavam determinado governante. Em outras palavras, tentava encobrir uma aprovação de 85%. Nessa linha de raciocínio, posso afirmar que algumas eleições presidenciais norte-americanas tiveram fraude das grossas. Foi tanta bandalheira que, certa vez, eles conviveram com quatro presidentes em meia hora.

 

Acho um primor a informação de que, todos os dias, são extintas no Brasil 0,02% das espécies vegetais ainda não catalogadas. Veja como é interessante essa constatação: as espécies nem foram descobertas, e já não existem. Quem revelou esse número merece aquele prêmio milionário dado a quem resolve problemas matemáticos insolúveis.

 

As dietas tampouco escapam da estatística. Se você quiser ter 50% menos chance de contrair câncer de estômago, deverá ingerir alho todos os dias, à vontade. Alho produz um pequeno efeito colateral. Em poucos meses, você terá 100% de probabilidade de perder os amigos. Por falar em cheiro, uma de minhas estatísticas prediletas é a de que o brasileiro usa 300% menos sabonete do que o norte-americano. Não precisamos ficar ofendidos. Os parentes do tio Sam ingerem 400% a mais de calorias que a média brasileira, portanto devem possuir uma superfície corporal pelo menos 400% maior que a nossa, donde se deduz que gastamos o dobro deles em sabonete. Sugiro banir a importação do produto.

 

Ouvi que 70% dos alunos colam em provas. Alvíssaras! Jurava que eram 99,999%. Não devemos reclamar apenas da garotada. Dizem que 33,33% das faculdades colam nas provas que o Ministério da Educação aplica nelas, forjando instalações, alugando livros, maquiando equipamentos, inventando contratados. A onda contaminou Brasília, onde se revelou que 100% dos partidos fraudam a contabilidade do financiamento das campanhas e, como o crime é coletivo, todos se julgam isentos de punição. Isso é 100% de cretinice.

 

Como escritor, sou o segundo maior best seller do Brasil, logo atrás do Paulo Coelho com seus cem milhões de exemplares comercializados. Minha lógica é impecável. Se somarmos a venda de meus livros à do Paulo Coelho, teremos os mesmos cem milhões. Na média, cinquenta milhões para cada um. Sou ou não sou o segundo maior best seller?

 

De todos os percentuais divulgados, meu favoritíssimo aborda extraterrestres: 78,25% das civilizações alienígenas que nos visitam vêm de fora da Via Láctea. Depois dessa precisão alienígena, eu que vivia fora de órbita ando agora 78,25% mais à Terra.

 

Com tanta gente estranha por aqui, acredito que a confusão estatística é coisa de ET. Ou do diabo. Tenho 66,6% de certeza.

 

 

Luís Giffoni (nome completo: Luís Ângelo da Silva Giffoni), nasceu em Baependi, Minas Gerais, em 1949, onde cursou as quatro primeiras séries do ensino básico. Continuou sua formação em Belo Horizonte, para onde veio em 1960, até se graduar em 1972 em engenharia civil pela UFMG – Universidade Federal de Minas Gerais. Também cursou astronomia na UFMG e literatura norte-americana no ICBEU-BH – Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos. Tem 21 livros publicados, entre romances, contos, crônicas, ensaios e novelas juvenis. Essas obras receberam diversas premiações, além de estudos, traduções e adaptações no Brasil e no exterior. Sua peça In Memoriam foi encenada pelo Oficinão do Grupo Galpão, em 2004. É palestrante em todo o Brasil, bem como nos Estados Unidos e Europa. Mora em Belo Horizonte. Tem 3 filhos.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2019


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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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