ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Myrian Naves


Crônica: Palimpsesto    

Exerci e descartei profissões díspares, não digo que a atividade que realizo no dia de hoje _ como leitora, seria o melhor trabalho do mundo, pareceria exagero, mas alguns já souberam essa licença poética. Leituras me navegam em direção a um porto, ao som do Zimbo Trio na Baiuca, e seguem, diferentes roteiros sonoros texto afora. Após, ao som de um tango de Gardel, o preferido; e vêm em diálogo entre seus dois textos, dois escritores-leitores embarcados, mesma nau. Agora é uma canção de Toninho Horta que me alcança, vem desde o porto, vindo de mais um narrador multimídia. Divido parte do trajeto com vocês; a caminho.
Foi esse o texto que postei em minha página nas redes sociais no momento de minhas leituras. Os culpados, a InComunidade, autores desta edição, a trilha sonora dos textos. No post, link para Zimbo Trio - Zimbo Trio (1964), culminando com essa maravilha que é “Nanã”, parte da trilha sonora do texto de Antônio Torres, no Porto e com saudades do Brasil, em meio a um jantar opíparo e regado a vinho verde.


Não pensaria tal opção, não como digitadora num terminal DE Olivetti do Centro de Processamento de Dados da CEMIG, final da década de 70, após curso, concurso e digitando perante uma tela, ora branca, ora preta, leituras quase sempre numéricas e sem me comunicar com ninguém. Sete horas por dia, de segunda a sábado. Vivenciando as maravilhas do primeiro emprego com quinze salários anuais e benefícios mil. Sim, o melhor emprego para a primeira anotação na carteira de trabalho de uma iniciante sob normas quase extintas foi em uma empresa que excedia as obrigações da CLT. Um dia caminhei até a perfuradora e, dramática, tentei poema sobre a vida impossível. Isso num cartão perfurado. A profissão absurda não existe mais, hoje somos todos operadores de nossos terminais de computação. Cada um em seu espaço. Caso haja escolha, a pessoa pode não caber em si, escrever, compor ou o que valha o mesmo e dividir com sua rede o momento de leitura. Uma das poucas e verdadeiras delícias da nova forma de trabalhar em que, aqueles que apelam ao seu charme de “velhos escribas” e até escritores que recém escolheram ser leitores vida afora, se põem a trabalhar ao ritmo do texto. Editores, jornalistas, tradutores, produtores, pesquisadores, bibliotecários, professores, uma tribo inteira de viciados não em funcionar, mas em ler, escrever e pensar.  Exercem suas leituras enquanto se deixam disponíveis on line e se permitem dividir momento & vício com a tribo, ao ritmo do momento vivido on line.


André Nigri responde em e-mail, e acrescenta, “..., mas como se trata de digital, pode-se colocar um link com a gravação, porque a letra dele e a melodia se encaixam muito bem com a história, é sua atmosfera.” Na mosca. O Nigri navega o texto de Sérgio Sant’Anna, os dois em diálogo, escritores-leitores embarcados na mesma nau ao sabor da letra e ao som de um tango de Gardel que atravessa autores e textos. Cenário, narrador, personagem, leitor; espaço e tempo.


Na rede, Antônio Torres continua o diálogo: “Ah, o Zimbo! Convivi com Luiz Chaves, o baixista, Rubens Barsotti, o baterista, e Hamilton Godoy, o pianista. Ouvi-os muito da Baiúca, em Sampa, a Porto Alegre, e Porto e Lisboa.” Eu já me lembrando do ambiente de casa, “... matei saudades dos meus pais ouvindo essa série musical, ensaiando uns passos de dança, cantarolando pela casa. Tanta gente boa ligada ao Zimbo Trio.” O Antônio Torres coincide a lembrança – nos últimos tempos, retorno sempre ao ano, 76, à década. “... caríssima: você agora me fez lembrar, com grande emoção, do lançamento do "Essa Terra" em São Paulo (1976), quando chegou um amigo com 4 exemplares nas mãos, e disse que um era para ele. o outro para Luiz Chaves e etc. E que eles não tinham ido porque iam se apresentar dali a pouco numa casa de shows na Rua da Consolação, e que mandavam me convidar para ir assisti-los, assim que a minha noite de autógrafos terminasse. E assim fiz, acompanhado de dois amigos do Rio. E lá, entre uma música e outra, o Hamilton Godoy levantou-se do piano, foi ao microfone, de livro na mão, para falar do lançamento dele e saudar a minha presença ali. Os meus amigos que vieram do Rio ficaram de queixo caído. Menina, eu vivi um tempo de arte e beleza por trás do chumbo grosso da ditadura militar.” Eu digo cá, “Quem não ficaria de queixo caído? O Zimbo Trio, o Hamilton Godoy, que história. O ano de 76 foi especial para mim também. A trilha sonora dos anos 70, real e ainda hoje inacreditável em meio àquele chumbo grosso.”
Belchior, Paulo César Pinheiro, Raul Seixas e Paulo Coelho, Chico Buarque. O samba, o semba. Caminhávamos ao final dos anos 70, eu no último carnaval antes de entrar no mundo do trabalho, em Barbacena éramos mais de dez dançarinas do Fantástico. Férias em BH e a mocinha foi parar sozinha em seu primeiro evento literário – O I ENA – Encontro Nacional das Artes, e Festival de Inverno da UFMG, talvez tenha feito ali minha opção para Letras e Jornalismo. Os autores lidos estavam naquela sala imensa da FAFICH. A Melânia Silva de Aguiar coordenava, Osman Lins dava um curso sobre O fiel e a Pedra. Escritores, jornalistas, poetas brasileiros; lembro nomes, penso em confirmar. Estava ali o Ignácio de Loyola Brandão. Os autores dos meus livros sobre a História da Literatura Brasileira, desde o ginásio, agora no científico, entre eles reconhecia o Ministro de Estado da Educação, Cultura e Desportos que ainda não estava ministro, o Eduardo Portella. Pelo Campus eram exposições, as Artes Plásticas, o muralismo; à noite, aos shows e ao teatro, ao Giramundo, ao Álvaro Apocalipse. Na Abertura, íamos enfrentando ainda alguns desastres. Evoluíamos ouvindo João Bosco e Aldir Blanc. João Bosco que está em Belo Horizonte para um show. Luiz Melodia, Violeta Parra. A América Latina. Cartola. Elis. Os anos 70 reverberam e atravessam não só a mim.

 

A CEMIG deverá ser vendida. O preço de estar citada como a melhor empresa energética do país, talvez por isso. A revolução digital modifica a Cultura. As editoras, os jornais, a música, as artes e os saberes daquele que escreve se modificam, revolução após revolução. A Língua Portuguesa oficial ainda tenta diluir diferenças delicadas, mas filigranas deliciosas na escrita e da dicção insistem em diferir, mesmo tentativa após tentativa de adequação e inadequação. As Lusofonias. A memória músical, a leitura visual, os sabores, os sotaques vêm à literatura que se encarrega de trazer a atmosfera até mesmo às telas, ao vídeo, ao teclado. Enredados ao som das experiências diversas, tempo e espaço, tudo corre a tela e chega ao mesmo tempo a tribos nem sempre informadas de contextos históricos próximos ou distantes. Tempo e espaço, tudo paira, ainda reberverando acessos. Agora a salvo, o texto navega até o porto em um clic. É dezembro, 2019, e estamos vivos.

 

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2019


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Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Dezembro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandre Brandão, Almeida Cumbane, André Balaio, André Caramuru Aubert, André Nigri, Antônio Torres, Ascensíón Rivas Hernández, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Danyel Guerra, Demétrio Panarotto, Deusa d’África, Elísio Miambo, Fiori Esaú Ferrari, Geraldo Lima, Hermínio Prates, Irma Verolín, Rolando Revagliatti, entrevista, Jayme Reis/ Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, João Morgado, Jorge Elias Neto, José Gil, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Bacigalupo, Luís Giffoni, Marinho Lopes, Myrian Naves, Otildo Justino Guido, Ricardo Pedrosa Alves, Ricardo Ramos Filho, Taise Dourado, Viviane de Santana Paulo, Waldo Contreras López, Wanda Monteiro


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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