ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Otildo Justino Guido


Poemas    

A ASA E O VOO DO SOL

 

Sol puro rasgando o céu
onde a ave tece o seu voo

 

e enxugando a sombra
da água e da ilusão

 

E não é apenas a luz
que desce desse infinito
é também o soberbo vazio
da constelação do tempo

 

pingando nas entranhas
do silêncio das metáforas

 

nesse espaço côncavo
onde a asa germina.

 

 

 

 

 

 

KA MADAUKANE

 

Lugar absoluto da fome.
Seca germinando no mar
e sobre a terra inóspita.

 

Despendem sombras do vazio
e da saudade eterna
da última palavra da luz

 

Lugar de eco do tempo
e todos silêncios do universo

 

Não cai a palavra e o verso
e nem o desverso indizível
da partida e do abandono.

 

 

 

 

 

 

DA CASA

 

Da casa
apenas o tempo morre

 

E na dilatação da lembrança
uiva o doce leito da chuva
rastejando no dorso da mão
como lava fria e extrovertida
percorrendo a geografia do céu

 

A ave imortal e cheia de cores
que espiava o mundo pela janela
alou demais e se perdeu na nuvem

 

Não restou a ferida, o sangue
nem a cicatriz perfeita
que o pincel do tempo pintou.

 

 

 

 

 

 

DOMINGO

 

Fio de água mecânica
penetrando a nuvem escura
no dorso plangente da asa de fogo

 

Ar de lava serpenteando a casa
Dor derramada na mão do vazio

 

Tempo costurado na curvatura
do voo tremulamente denso
Indizível palavra na solidão

 

Estéreis azos raiando na lágrima
Sonho debruado na voz inútil
no eco da sombra instável
e na imobilidade da memória

 

Conflagração sobre o papel azul
limando o grito da terra líquida

 

Suor calcorreando o estatuário
infinito e longínquo soluço do verso
Abraço apalmado rasgando a alma
Dor inóspita no sombroso sol
A tarde escura, talhante e vergada
restituindo o crepúsculo da chuva

 

O silêncio sepulta a única vida
que alienígena o barulho da língua
Errante mágoa da flor espinhosa
beijada e cheirada o pólen confuso
Abelha traidora beija e cheira
e pica e desama o amor do ódio

 

Deus tranca os ouvidos e a boca
A ave furtiva sangra os joelhos
e o chão molha e inunda e morre

 

Lira do verde campo lancinante
tateando a ortografia do carvão
na fome das sementes e do sal

 

Deflectem as figuras dos deuses
encostados no ossário do relicário
de cada angústia do mercado

 

Shivan proscrito no maxilar do céu
Cor da atmosfera presa na pele
do equívoco da última ciência

 

E no pôr-do-mundo, vocifera a lua
o sol, a estrela, a palavra, a política
na intumescida réstia de sombra
do último domingo do infinito.

 

 

 

 

 

 

CAMPOS DE MARTÍRIO

 

O fogo se aferrolha no lume:
dentro de si a porta fecha
e a chave se deliquesce
como ouro na pele escura

 

No interior abrasam as trevas
e explode o sangue de pedras

 

Morrem as rotas das estrelas
mais cintilantes do planetário
e afundam palavras e silêncios
nas plantações de açúcar e sal

 

e agora, por favor me digam:
como querem que esses poetas
entendam a ciência do amor?

 

 

 

 

 

 

DESMESURABILIDADE

 

Todas as flores que aqui existem
são maiores que o mundo

 

mas, mesmo assim
cabem no colo das suas mães

 

essas mães que o mundo
nem consegue notar

 

por serem
tão pequeniníssimas.

 

OTILDO JUSTINO GUIDO, moçambicano, nascido no distrito de Maxixe, na província de Inhambane; formando em Contabilidade e Finanças; membro da Associação Cultural Xitende; co-mentor do Projecto Cultural Tindzila; é compositor de letras de música, poeta e escritor; participou no projecto “Nova Poesia Africana de Expressão Portuguesa” (2015); participou na antologia Internacional da CPLP “Entre o Samba o Fado e a Poesia” (2015), participou na antologia “Obsessões” da editora Lua de Marfim (2015); participou na colectânea de contos “O Rosto da Fome” Vol.II da Afonso Editora (2015); participou na antologia organizada pela Vonakalissas Editoras (2016); participou na antologia internacional “Em Todos os Ritmos Da Poesia” (2016); participou na antologia “Galiza-Moçambique: Numa Linguagem e Numa Sinfonia”; participou na antologia “Poemas +258” Vol.I (2019); participou em várias revistas nacionais e internacionais.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2019


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Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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