ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Taise Dourado


O desvelar lírico do não-dito    

“Como se tece o amor, este manto fino?” É assim que se inicia o poema “Ausência” da poeta Lívia Natália e assim se inicia também esse texto. Afinal de contas, o manejo do não-dito começa-se pelo questionamento dele mesmo. A tangência a este aspecto particular do verso inicialmente citado, o não-dito, se dá para que aqui possa ser realizada a intervenção cruzada de um outro texto nesse e deste em outro, isto é: o poema “Dia de São Tomé” da poeta Matilde Campilho.

 

Campilho é poeta do nosso tempo, nascida em Portugal. Viveu no Rio de Janeiro entre os anos de 2010 e 2013. Nesse período, produziu textos poéticos nos quais podemos sentir a cidade nos atravessando pelas imagens ali suscitadas. Estes textos compuseram, mais tarde, já de volta a Portugal, o seu primeiro livro publicado, “Jóquei” – que saiu em 2014 pela editora Tinta-da-China. Em 2015 o livro é publicado pela editora 34 aqui no Brasil e, desse livro, foi extraído o poema tratado nesse trabalho. Lívia Natália é poeta soteropolitana. Nascida, crescida e estabelecida até os dias atuais em Salvador, na Bahia, a poeta descortina a vida com seu lirismo. Desde 2011, quando lançou ao mundo pela primeira vez seus poemas, Natália experimenta a intensidade do trânsito textual no que diz respeito a esta via de mãos-múltiplas entre o produzir e o publicar. O poema “Ausência”, abordado nesse diálogo, está no livro “Água Negra e Outras Águas” (Caramurê, 2016).

 

Falar de linhagem é falar de segmento – é o que se supõe de imediato, ao realizar tal abordagem analítica. Esse não é um acontecimento isolado nas áreas de leitura literária. Ao contrário, abrange toda a escala de manifestações artístico-culturais. Aqui, para esse recorte, é necessário tecer a seguinte crítica em relação ao referido olhar para o texto: associar textos – com ênfase para os literários, destacando o gênero lírico – de forma direta e única a concepções já elaboradas de representação de identidades, realidades e ideias, é, inegavelmente, um dos vastos modos de limitação no que se aponta às potencialidades dos textos e às forças consagradas pelo tempo de tais produções.

 

Engatilhar para essa conversa a ideia de tempo nos permite abranger a discussão acerca dos alinhamentos textuais quando direcionados ao sentido construtivo das linhagens. E o tempo evocado aqui, cronologicamente falando, corresponde à contemporaneidade. É indispensável, contudo, atentar para o acontecimento de que o próprio termo "contemporâneo" cai num cruzamento de ideias. Não quer mais somente dizer de um momento compartilhado por vários, quer dizer de um tempo fugaz demais para a própria partilha. O contemporâneo para nós de agora-nesse-exato-instante deixa de ter o efeito​ de​ um período sincrônico que possa ser aludido ou mencionado e​m outra​​ situação ​– ​inclusive, diacronicamente – e se aproxima em entendimento​ de algo mais raro. ​E é possível dizer com isso que remeter o que quer que seja ao contemporâneo aqui, agora, é mais que uma questão de atualização de informações, coisas, plataformas, pessoas: ​é mexer​ ​nos processos de uma atualização contínua e incidente​ que desconhece os limites de uma dimensão única ou dupla​. O contemporâneo é um botão "f5" funcionando no modo automático e não precisa mais sequer ser acionado para trabalhar, pois em sua própria natureza funciona sob a perspectiva de que, em dado intervalo de tempo, é preciso chamar objetos, traçar correlações e, não somente isto, como também, apresentar resultados​ múltiplos, distintos. Os movimentos expressivos da percepção do contemporâneo parecem ir de encontro ao que tange os sentidos restritivos do tempo para ultrapassá-lo. No mais, hoje tudo acontece dispersa e continuamente em numerosas dimensões. E essa sequência de pensamentos​ seguida se põe para anunciar a seta que aponta sem deixar escape ao que precisa ser dito: a relação do tempo em que vivemos com a encruzilhada de ações nesse (entre) lugar da escrita. Sobretudo a relação dita por vozes ativas nesse gingado esperto, meio vida, meio arte, que emerge de um período de rasgos nas metrificadas elocuções, para a respiração acelerada do tempo urgente: escrever hoje.

 

De modo particular, nesse segmento de tempo e produção literária escolhido, são trazidas a lume duas poetas contemporâneas provindas de diferentes lugares no mundo e, portanto, diferentes meios de vida e modos de conduzir o viver. O que nos interessa em toda essa composição contextual são as intersecções que podem ser observadas e lidas nesses dois lugares, distintos em muitos aspectos: dar zoom, ver em que ponto eles se relacionam e o que esse encontro permite dizer de si.

 

Em seus poemas, “Dia de São Tomé” e “Ausência”, Campilho e Natália não estão falando de outra coisa senão da pungente falta de um corpo acionado por seus respectivos eu-líricos. Isto é, através dos versos, estes sujeitos-líricos estão falando de algo a que se presume o silêncio e a falta. Em face desse angustiante buscar-e-não-achar, vê-se essas vozes se apoiarem em algo que, a partir de então, deixa de ser só-palavra e começa a ser palavra-corpo, invólucro de uma presença ansiada; a palavra-disparo como o gozo ontem de um amanhã que não veio. Quer dizer: a palavra encosta no tempo que não pertence a ninguém nem a lugar nenhum. Eco que desemboca no “instante ungido com uma luz especial” e que “foi consagrado pela poesia, no melhor sentido da palavra consagração” (PAZ, 1996). Assim, podemos ler o instante poético como fenômeno do tempo e da linguagem. Tal fenômeno pode ser constatado nos seguintes versos de Dia de São Tomé:

 

Escrever o teu nome / repetidamente / primeiro em linhas verticais / depois horizontais / e mais tarde transversais / Como quem espera / algum dia ser o vencedor / do Four in a Row / de forma alguma substitui / o ruído aquático que sucedia / no interior de minha boca / quando a palavra Tu / reverberava entre palato / e água do mar / Batia em meus dentes / e ia parar no furo / de alguma rocha (CAMPILHO, 2015, p.65-66)

 

Falta quer dizer presença de espectros. Em seu poema “Ausência”, Lívia Natália (2016, p.103) nos apresenta um eu-lírico que tange bem isto que nos se apresenta como falta, espaço oco que restou daquilo que não veio e que não virá:

 

Que fazer dos dedos feridos pelo gesto repetido de amar? / quarenta dias acordaram para o vazio, / quarenta noites abrigaram silêncios. / Nenhum barco atracava, nenhum trazia você. // Sua alma dura. // Meus dedos finos, de carne e sangue vivos / os olhos secos: lágrimas impossíveis.

 

O não saber lidar com a angústia é uma das questões mais presentes nesse verso que é traduzido pela imagem de dedos feridos pela constante tentativa do amar. As lágrimas impossíveis revelam a complexidade no processo de elaboração de tal sentimento. Sua concepção, para o eu-lírico, é tão embaraçosa ainda que sequer pode se expressar em pranto; mesmo o ato de chorar torna-se estranho, desconhecido, impraticável. Nisso devemos considerar que o choro é, normalmente, nossa primeira atitude no mundo: mesmo um frágil recém-nascido não sente dificuldade em chorar.

 

Assim, na mesma imagem, no mesmo corpo e no mesmo gesto, podemos descobrir duas coisas muito diferentes que, no entanto, coexistem: um luto (lamentar tristemente a perda de alguém) e um desejo (querer loucamente a presença de alguém) (DIDI-HUBERMAN, 2016, p.35)

 

Os excertos parecem rumar juntos para o ponto em que se encostam um no outro. Com isto, pretende-se dizer que se coadunam em tratar de saudade. E falar de saudade como chave de leitura para os dois poemas listados, quer dizer abrir o campo de estudo para receber, à luz do sentir-poético, o entendimento deles por suas origens mais remotas, anteriores às concepções de nação e identidade nacional. Com isto posto, é possível acessar tal acionamento pensando, à princípio, a criação mítica em torno da “saudade portuguesa”.

 

Faz-se conhecida a construção do imaginário patriótico português à base de recordações dolentes e incuráveis quando, por exemplo, sobre este assunto, Eduardo Lourenço (2003) remonta que, para se manter diante das frustrações políticas vivenciadas no contexto europeu dos séculos passados, o país precisou reconstruir a si mesmo ao longo desse percurso, “fiando a sua teia da força do presente, orientando-se nessa época para um futuro de antemão utópico pela mediação primordial, obsessiva, do passado”.

 

Já para pensar as tendências à linhagem do povo brasileiro e, por consequência, de sua literatura, como um todo alegre, divertido, esperançoso e fraterno, pode-se traçar as seguintes pontes – de acordo com Marilena Chauí (2000, p.5) em seu Mito fundador e sociedade autoritária:

 

Se indagarmos de onde proveio essa representação e de onde ela tira sua força sempre renovada, seremos levados em direção ao mito fundador do Brasil, cujas raízes foram fincadas em 1500.

 

Ao falarmos em mito, nós o tomamos não apenas no sentido etimológico de narração pública de feitos lendários da comunidade (isto é, no sentido grego da palavra mythos), mas também no sentido antropológico, no qual essa narrativa é a solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade. (Grifos da autora)

 

É nesse formato que o pensamento massificado em relação à identidade nacional se expande, ramificando-se em conceitos convencionais sobre si mesmo.

 

Tendo isso em leque, podemos acionar o pensamento de relação entre a formação do imaginário das nações mencionadas e o papel da saudade em suas narrativas. Para o antropólogo Roberto DaMatta (1993), a saudade é inerente ao espírito humano e se caracteriza por sua composição luso-brasileira de certos valores e ideologias. Um sentimento que se constitui na transição da memória coletiva em processo individualmente realizado em seus percursos de perda, nostalgia, melancolia e, enfim, saudade. Tal constatação colabora com o seguimento da proposta em reduzir os focos simbólicos presentes na concepção geral da saudade para tratá-los em dimensão particular, relativizando-os para os contextos pretendidos. Esse movimento, por vezes, é chamado por “antropologia da saudade” – ou seja, espaço em que as histórias particulares de determinada sociedade são enfatizadas em detrimento das histórias globais ou gerais em que estão inseridas. Dessa forma é possível compreender a relação entre simbolismo e contexto.

 

A história nos narra fatos resgatados de tempos remotos. A história nos rememora acontecimentos, situações, lugares, pessoas. Por outro lado, como nos aponta Staiger (1977, p.21) em seus estudos sobre o estilo lírico: “quando falamos na poesia lírica, por essa razão, em imagens, não podemos lembrar absolutamente de pinturas, mas no máximo visões que surgem e se desfazem novamente, despreocupadas com as relações de espaço e tempo”.

 

No que se trata dos poemas, “Dia de São Tomé” parece chegar de forma branda arrancando portas e derrubando paredes à pertinência da saudade cantada. E aqui, apesar de o poema trazer consigo elementos da tradição natal da autora deste eu-lírico, seus versos lidam com um sentimento muito particular: a perda de alguém amado. Neste poema, a saudade desse corpo evocado resulta da falência final dele, o oco deste alguém a quem se dedicou amor:

 

Poderia escrever teu nome 70 vezes seguidas / Mas isso não espantaria / a saudade que sinto / de dizer o teu nome / entre sal e dentes / Isso em nada iria melhorar / a falta que faz teu corpo / dentro da sombra invisível / que diariamente se senta / a meu lado no restaurante / às 11 horas da manhã / Ou no lugar direito do automóvel / quando dirijo até a repartição / pública das finanças do estado / O tal Estado escavacado / e tão sobrevalorizado (CAMPILHO, 2015, p.65)

 

 

REFERÊNCIAS


CAMPILHO, Matilde. Dia de São Tomé. In: ______________. Jóquei. São Paulo: Editora 34, 2015. p.65-67.

 

CHAUÍ, Marilena. Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Perseu Abramo, 2000.

 

DAMATTA, Roberto. Conta de mentiroso: sete ensaios de antropologia brasileira. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

 

DIDI-HUBERMAN, Georges. Que emoção! Que emoção? São Paulo: Editora 34, 2016. p.35.

 

LOURENÇO, Eduardo. O labirinto da saudade: psicanálise mítica do destino português. Lisboa: Tinta-da-China, 2016.

 

NATÁLIA, Lívia. Ausência. In: ________________. Água Negra e Outras Águas. Salvador: Caramurê, 2016. p.103.

 

PAZ, Octavio. A imagem. In: ________________. Signos em rotação. São Paulo: Perspectiva, 1996. p.37-50.

 

STAIGER, Emil. Estilo lírico: A recordação. In: ______________. Conceitos fundamentais da poética. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1977. p.6-38.

 

 

Taise Dourado é co-fundadora da PANTIM Coletivo & Edições. Informações: www.pantim.art.br | taisedrd@gmail.com

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