ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Viviane de Santana Paulo


Com leite e sem acúcar    

I

 

João Santana Flug, estudante eterno de direito na Universidade Humboldt, de trinta e muitos anos, estatura baixa, calvo, depressivo, dependente dos remédios, segue, de vez em quando, no encalço de um livro na biblioteca distante e desconhecida, porque o livro que ele procura não está disponível nas bibliotecas próximas de sua casa ou do seu trabalho. Ele descobre assim novas bibliotecas e regiões diferentes em Berlim.

 

Ao sair do metrô U5, na estação Frankfurter Tor, identificou os vestígios da antiga Alemanha Oriental impregnados nas manchas dos azulejos (ainda não tinham sido limpos, depois de vinte e sete anos de reunificação), mas apenas nesta parte da estação, o restante do interior fora inteiramente renovado. Subiu as escadas e chegou à calçada da larga alameda Frankfurter Allee, que se chamava Alameda de Stalin. Neste trecho, as construções são dos anos cinquenta, do famoso arquiteto Henselmann, estilo conhecido como Zuckerbäckerstil, como os bolos de noiva repletos de glacê de flores e folhas. As fachadas são peculiares e chamam a atenção, as sacadas com os estuques, os pátios e as pilastras que dão para espaços interiores com área verde, jardins, pequenas escadarias, parquinhos… o mato cresce nos canteiros e nas passarelas, as árvores obesas farfalham com o vento. Os novos moradores se misturam com os antigos, são jovens casais internacionais e alemães, estudantes e trabalhadores.

 

A biblioteca Pablo Neruda, na próxima esquina, foi reformada, pode-se ver pela fachada moderna de madeira. Há um café dentro da biblioteca com uma ampla janela de vidro que dá para o jardim na retaguarda: gramado, árvores, arbustos, bancos e espreguiçadeiras de madeira lustrosa, parquinho à frente, quadra de beisebol ao lado.

 

Ele pegou o livro de Julia Franck, Lagerfeuer, no qual ela narra sua experiência em um asilo de refugiados, em Marienfelde, onde passou nove meses. Em 1978, sua mãe a as três irmãs emigraram da antiga Alemanha comunista para a Alemanha ocidental. As experiências de uma refugiada alemã, em seu próprio país, é mais um registro da situação de determinadas pessoas neste estranho mundo político.

 

Ao regressar, João se sentou em um café, na calçada, na esquina do cruzamento da Frankfurter Allee e Warschauer Strasse, para apreciar o cinza claro e a melancolia de uma garoa simulada. Mas o sol resplandeceu e começou a incomodar ardendo na pele. Com o brilho fortalecido do sol parece que não somente o ruído aumentou, mas o trânsito, os transeuntes, até a voz dos dois homens conversando em inglês, à mesa ao lado, e a fumaça de cigarro invadindo seu nariz intensificaram-se.

 

Agora, escafedeu-se de vez a suavidade do cinza claro e úmido no final da tarde de uma sexta-feira. Sem óculos escuros João espremia os olhos para ver que a próxima nuvem significativa ficou emperrada atrás do edifício à sua esquerda. Decidiu pedir a conta, precisava passar no correio, mas antes entrou para ir ao banheiro e observou de relance o ambiente convidativo no interior do café. No banheiro, mijou sentado por causa da plaquinha escrita à mão com um desenho art naif advertindo para não mijar de pé. Ao voltar, resolveu se sentar no interior do café, próximo à janela, de onde possuía a mesma visão de antes, e pediu uma cerveja pequena. 

 

O café é turco, a mesa é oriental, de metal dourado forjado com arabescos, e balança quando João faz as suas anotações no papel, um tremor incontrolável! Pelo menos ele se sente protegido da euforia do sol! E observa o movimento da rua. Mais tarde, pretende pegar o bonde e não o metrô cujo percurso já conhece. Com o bonde deseja ver aonde vai dar o seu destino trilhado. Desistiu de ir ao correio. Antes de deixar o local, João fez as seguintes anotações: já falei das inúmeras bicicletas? Do corvo pegando uma pita de cigarro na calçada? Da pomba caminhando apressada? Do casal de estudantes que se sentou à mesa na sua frente e a menina de cabelos azuis? Do cachorro de língua de fora e seu dono vestido de calça surrada de exército, camiseta preta, barba por fazer, relaxado e envelhecido, com a paz tatuada no pescoço? Da canção boba tocando na rádio? Dos passantes decididos atravessando o cruzamento? Dos passageiros parados esperando o bonde no ponto? Do bonde amarelo passando no trilho, no meio da avenida? Da minha paciência que está acabando, mas a cerveja ainda está pela metade?

 

 

 

 

 

 

II

 

João Santana Flug preferiu uma mesa no interior do café, em vez de alguma na calçada. A rua em frente ao café do museu de fotografia CǀO Berlin é bastante traficada. O barulho incomoda, são carros, ônibus, pequenos caminhões passando auferindo a tranquilidade, e a ferida de uma obra na calçada arde na paisagem. Escolheu o conforto e o desabitado do lado de dentro, onde um jazz ambiente exala-se no recinto e de onde ele pode contemplar a rua com o seu habitual movimento através da grande janela, sem precisar ouvir os ruídos estridentes. O garçom descansado o atende rápido. Ele pede um latte machiatto. Apenas duas mesas estão ocupadas. No exterior da janela diversos transeuntes caminham em direção ou vêm da direção da Zoologischer Garten. Pombas cinzas voam como ratos alados, fazem parte das entranhas nas paredes empoeiradas e do ferro forjado da estação. Ele toma o café com leite e lê algumas notícias preocupantes em um destes jornais pendurados nos cafés europeus, em algum canto, como morcegos de cabeça para baixo e asas encolhidas. Eles não têm medo da escuridão do mundo – os morcegos.

 

É pueril e insipiente acreditar que os conflitos do mundo serão resolvidos todos de uma vez. Não é esse o sentido dos problemas, muito menos dos jornais que vivem dos conflitos! Quando uma crise é resolvida outras surgem. Assim vivem os problemas, de sua constante reprodução. Não quer dizer que devamos nos resignar, mas estar alertas e preparados para encontrar novas soluções para os problemas seguintes. Se não for assim, isso já é um problema.

 

No entanto, João não quer usar este fim de tarde de sexta-feira para sentar-se em um café e pensar em crises, após ter passado horas fazendo pesquisa no interior de uma biblioteca, com a suave queda do sol sobre as ruas de outono e as fachadas das casas ocultas por folhas de árvores tirantes a amarelo. João espera os minutos avançarem a sua marcha inexorável e uma amiga chegar. Juntos vão contemplar o movimento da rua, tomar alguma coisa e falar de si para si, enquanto deixam os conflitos provisoriamente de lado.


 

 

 

 

 

III

 

João Santana Flug entrou em um café, do outro lado da Oranienstrasse, cujo nome não sabia. As mesas são altas, a freguesia é jovem, todos com notebook e celular. Ele é o único com um livro e escrevendo à mão em um bloco de anotações. Pediu um café, habituou-se a tomá-lo com leite e sem açúcar, como é comum na Alemanha. O filme, My sweet pepperland, do diretor curdo, Hiner Saleem, começará às 19h30min, no cinema FSK, localizado a uma travessa da Praça Oranienplatz. João chegou muito cedo. Há algumas semanas, refugiados e exilados políticos levantaram barracas na praça para protestarem contra a lei de imigração. A bagunça assemelha-se a um primórdio de favela, pacífica e pitoresca.

 

João não poude conversar com eles, embora alguns estivessem sentados confortavelmente em sofás velhos e conversassem entre si como se estivessem vendendo algum produto biológico ou como se fizessem parte de um novo conceito para aproveitamento de espaço urbano. João não entende o idioma deles e nem eles o seu. Um meio sorriso desconfiado e universal despontou ligeiro nos seus olhares ao se depararem um com o outro, no caminho que atravessa a praça. Quem é esse? Eles devem ter se perguntando. Como são eles? João se perguntou. E passou por realidades que passam por ele e o transpassam. Atravessou a praça. O escuro da noite trouxe o frio de abril, e João foi sentar-se no café, esperar as horas transitarem.

 

João Santana Flug assistiu a um filme curdo, no original, com legenda em alemão, dirigido por um curdo. No Curdistão o filme foi proibido, afinal mostra a força e a determinação de uma mulher. Algo altamente ameaçador no mundo islâmico, anotou João em seu bloco de anotação rasgado e rabiscado.   

 

 

 

 

 


IV

 

No intervalo do almoço: dia de sol excepcionalmente quente, passantes de chinelos, jovens de shorts e pernas brancas. Na rua, alguns conversíveis circulam, inclusive um smart semelhante a um carrinho de brinquedo. O ruído do bonde atravessa o cruzamento e alcança meus ouvidos, e o vejo de soslaio ao atravessar a Torstrasse, pouco mais adiante. João Santana Flug, atravessa não no semáforo e sim no meio da rua desobedecendo a ordem germânica, mas em conformidade com o desarranjo berlinense. Bicicletas passam na calçada e na contramão. Folgados! Uma criança corre chorando atrás da mãe tranquila empurrando carrinho de bebê. Um homem vestido de escritório, de óculos escuros, sem o paletó (afinal o sol brilha vinte e dois graus), mas de gravata, segue em direção à entrada do libanês. Porém, João chega primeiro, é o terceiro na fila. Atrás dele encontra-se um jovem magro, de óculos, cabelos pretos presos em um coque, vestido de jeans e camiseta branca com desenhos de grafite. Eu me aproximo de João.

 

Gira o grande pião de camadas de carne. O cheiro apetitoso de assado domina o recinto do imbiss. Alguém pediu um suco de laranja fresco. O amarelo dentro do copo resplandece por um instante, até a jovem baixa, loura, magra, de vestidinho de alcinha, fino e florido, aproximar-se, pegar o copo sobre o balcão e voltar a sentar-se à mesa, na calçada. Os bolinhos de massa de grão de bico e o queijo halloumi são fritos e depois embrulhados no pão sírio cheio de salada, hortelã e molho de iogurte.

 

João e eu nos sentamos à mesa na calçada e comemos o embrulho. De vez em quando passa uma bicicleta insubordinada como a maioria das bicicletas nesta cidade, de vez em quando, passam os bandos de jovens farejando döner kebap, schawarma, pizza, comida vietnamita, currywurst... Na mesa ao lado, o pedaço de jornal preso no copo de suco possui as pontas flutuando. Um título tenta a fuga: “A maioria morreu afogada: mais de 19.000 migrantes morreram afogados no Mediterrâneo e há os que estão desaparecidos.”

 

Nos desfazemos destes títulos e continuamos a nos abastecer.

 

Creio que a Europa e suas jaulas e a liberdade de preferir outra vida são dois lados da mesma moeda.

 

O sabor da hortelã mesclada ao iogurte refresca pensamentos.

 

Ele morde o suculento lanche, mastiga rápido. Eu mordo na tentativa de prolongar o curto intervalo. Como se cada lenta e saborosa mastigada tivesse o poder de adiar os minutos. E por que não? O tempo poderia dar uma paradinha e apenas João e eu continuar degustando os cálidos falafel e halloumi demoradamente.

 

Não, as mastigadas não adiam os minutos, mas cada minuto é uma mastigada no tempo. Em determinadas circunstâncias somos nós que o engolimos, em outras, é o tempo que nos devora ligeiro e tranquilamente.

 

Dou-me conta de que possuo trabalho, consciência de tempo e o que devorar.

 

O calor segue rutilando e até agora nenhuma sombra gelada estampou a esfera esplêndida. Coisa rara nestes últimos meses!

 

De sobremesa um pedaço de torta de ruibarbo e framboesa ou um sorvete de pistache?


 

 

 

 

 

V

 

Era um destes dias nublados, no qual se tem a vontade de dar uma volta pela cidade, à tarde, e entrar em um local confortável e tomar sossegado um café de boa qualidade. Observar os passantes agitados indo pra lá e pra cá, na calçada, e pensar coisas desconexas, como no que a tecnologia irá nos transformar ou no que deu a civilização em dois mil e quinze ou como as vitrines desta rua mudaram, sem aprofundamento ou chegar a uma conclusão sócio-filosófica ou político-econômica. Dar-se conta dos fregueses à volta, conversando, rindo, comendo torta de cranberry, mexendo no celular, e continuar pensando no quão diferente é em outros países mais distantes, alguns sem paz, e que se não fossem os soldados do Império Otomano terem abandonado o café quando fugiram das tropas polonesas, ao pé da fortaleza de Viena, em 1683, apenas os turcos estariam tomando café ou certamente que não com o vai e vem de mercadorias pelo mundo afora, e imaginar que poderia estar tomando um café com aquela amante antiga, revivendo emoções, ou com um novo amor, suscitando novas emoções, e talvez concluir que a invisibilidade, causada pela neblina, oculta algo inefável na retaguarda do cinza. Olhar para o relógio como se revelasse algo secreto, exclusivo para si, e, antes de pedir a conta, finalizar o devaneio, acreditando que muitas coisas são assim — impalpáveis. Pagar e sair em direção ao subterrâneo do metrô, na Mehringdamm.

 

Viviane de Santana Paulo, poeta, tradutora e ensaísta, autora dos livros, Viver em outra língua (romance, Solid Earth - Berlim 2017), Depois do canto do gurinhatã, (poesia, editora Multifoco, Rio de Janeiro, 2011), Estrangeiro de Mim (contos, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2005) ePasseio ao Longo do Reno (poesia, editora Gardez! Verlag, Alemanha, 2002). Em parceria com Floriano Martins, Em silêncio (Fortaleza, CE: ARC Edições, 2014) e Abismanto(poemas, Sol Negro Edições, Natal/RN, 2012). Participa das antologias Roteiro de Poesia Brasileira - Poetas da década de 2000 (Global Editora, São Paulo, 2009) e da Antología de poesía brasileña (Huerga Y Fierro, Madri, 2007). Publica poemas em revistas e jornais entre eles, Suplemento Literário de Minas Gerais, Inimigo Rumor, Jornal Rascunho, Poesia Sempre eCoyote; assim como nas revistas Argos e Alforja (México). Em 2012, participa do VIII Festival Internacional de Poesia em Granada, Nicarágua, e em 2016, do XX Festival Internacional “Noites de Poesia”de Curtea de Arges, Romênia.

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Nuno Baptista


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