ANO 8 Edição 87 - Dezembro 2019 INÍCIO contactos

Wanda Monteiro


(A morte – esse canto branco de mal intencionada lira que atravessa a vida)    

 

.•

 

sinto a dor mais funda da ferida aberta
e essa imensa tristeza
quando me tombam as matas
e sou golpeada pela lâmina
que treme
                  corta
 esfacela-me

 

sinto a profunda desolação ao rasgo agudo e lancinante
no arrancar das raízes pelo machado
em sua brutal dança ao meio-arco no rarefeito ar

 

choro o pranto abafado das verdes copas caindo ao chão
que choram a morte inútil de seus frutos
no estalo dos galhos
rompendo-se ao vento pela fúria da destruição

 

sendas sem luz, desvãos, escombros, silêncios no destino da sanha humana

 

o espasmo esmagando-me o leito
tirando-me o fôlego
na penetração estúpida e cruel de mortificante metal em minhas águas

 

a morte assombra-me a cada lastro de atômico-lixo em meus mares

 

padeço desse

 

verdevida secando, queimando
esvaindo ao desprezo
pela sanha
insana

 

quebram-me as rochas
matam-me as fontes
envenenam-me o ar
extinguem os meu mananciais

 

acomete-me a aguda dor pela violação das vidas que me habitam

 

a dor da mãe entranha-se nos filhos
quebra-lhes os ossos
rompe-lhes as veias
sangra-lhes a carne
arranca-lhes os pés

 

no solo do coração da mãe
e no dos filhos
a tristeza resigna-se à sombra da morte
na morte dos dias.

 

**

 

 

 

 

 

 

no fundo das águas de estação futura
o olhar do peixe
no espelho de seus vítreos olhos
a face das manhãs cortadas em gretas
saltam de seu gélido abismo
em busca de uma planície de tempo e luz
asfixiada pelo verbo
a estrela cessou de arder
não há mais fogo
nem sol para circundar

 

 

 

 

 

 

 

o futuro encurralado no beco dos medos
deixou que as insurgentes manhãs
lhe mordessem o cume
na fratura do tempo
depois de cravar os dentes no sol.
as noites calcinadas decretam
o silencio dos ventos
o fenecer das chuvas
a deserção dos mares

 

 

 

 

 

 

 

se um dia
essa casa de luzir azul
volte a cantar
seja esse canto um alento de chegada
cântico de deixar no fecundo silêncio
de todo fenecer
sêmens de paz
e das larvas brotem rosas de sol
menstruo aceso
cuspido de seu ventre
e na tenra terra de agreste clareira
deve nascer uma florada de girassóis
e do céu de sua claraboia
escorrer o lume nascedouro
de quarta lua
e da sarça ardente em arenoso chão
possa eclodir o cume de ardente rocha
a reverberar de dentro para fora
outro tempo
um tempo de espera
para os que virão das estrelas

 

 

 

Wanda Monteiro, escritora, tem os seus textos publicados em revistas literárias como a “Acrobata”, “Gueto”, “Incomunidade”, “Senhoras Obscenas”, “Mallarmargens”, “Literatura Br”, “Relevo”, “Intacta Retina” e outras. Essa amazônida, que nasceu nas águas do rio Amazonas, é autora das obras: O Beijo da Chuva, 2008, Ed Amazônia ; ANVERSO, 2011, Ed Amazônia; Duas Mulheres Entardecendo (parceria com Maria Helena Lattini), 2015, Ed Tempo, ; Aquatempo, 2016, Ed Literacidade e A liturgia do tempo e outros silêncios, 2019, Ed. Patuá.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2019


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Colaboradores de Dezembro de 2019:

Henrique Prior, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Alexandre Brandão, Almeida Cumbane, André Balaio, André Caramuru Aubert, André Nigri, Antônio Torres, Ascensíón Rivas Hernández, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Danyel Guerra, Demétrio Panarotto, Deusa d’África, Elísio Miambo, Fiori Esaú Ferrari, Geraldo Lima, Hermínio Prates, Irma Verolín, Rolando Revagliatti, entrevista, Jayme Reis/ Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, João Morgado, Jorge Elias Neto, José Gil, Lahissane, Leila Míccolis, Luanna Belmont, Lucas Perito, Luis Bacigalupo, Luís Giffoni, Marinho Lopes, Myrian Naves, Otildo Justino Guido, Ricardo Pedrosa Alves, Ricardo Ramos Filho, Taise Dourado, Viviane de Santana Paulo, Waldo Contreras López, Wanda Monteiro


Foto de capa:

MARC CHAGALL, 'Maternité avec Père Noël', 1954 || FRANCISCO DE GOYA, 'Perro simihundido', 1819-1823.


Paginação:

Nuno Baptista


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