ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Henrique Prior


EDITORIAL: O FASCISMO ANDA POR AÍ: A ESPANHA E A BOLÍVIA    

A ascensão meteórica do VOX, partido fascista espanhol, deveria levar as forças que defendem a democracia a uma profunda reflexão e deixarem de pensar nos seus interesses imediatos para se concentrarem na defesa do essencial: a defesa da democracia.
De 13ª força política espanhola em 2016,  com 0,2 por cento dos votos nas legislativas, o VOX de Santiago Abascal, formado no final de 2013 por franquistas que se acoitavam no Partido Popular, passou a terceira força política nas eleições de Novembro de 2019, com  15,1 por cento dos votos e 52 deputados, à frente do Unidos Podemos. Tal  resultado levou a uma coligação entre o PSOE, do primeiro-ministro Pedro Sanchez,  e o Unidos Podemos, de Pablo Iglesias, que não tinham logrado alcançar após as eleições de Abril, nas quais tiveram melhores resultados que em Novembro. As campainhas soaram e eles ouviram-nas.
Mas a que se deve a ascensão tão rápida do VOX? A resposta é simples: ao independentismo catalão, que poderia antecipar o desmembramento de Espanha, pois, a acontecer a independência da Catalunha, a independência do País Basco e da Galiza estariam na calha. A proposta do VOX de ilegalizar os partidos independentistas e de redução dos poderes das regiões autonómicas foi aceite por 3.640.063 espanhóis que nele votaram.
Se persistirem a luta independentista da Catalunha nos termos em que tem sido levada a cabo, os  partidos independentistas correm o risco de serem ilegalizados na sequência de um possível triunfo do VOX em futuras eleições.


E, depois dos independentistas, virá a ilegalização do Unidos Podemos e, depois, a ilegalização de outros partidos contrários à cruzada franquista do VOX.


Porque o espírito de cruzada está a renascer, não a partir do Vaticano mas de forças que, sustentadas pela ganância dos senhores do dinheiro e que, invocando religiões em que nem sequer acreditam, querem legitimar o seu poder não pelo voto popular livre e consciente, mas pelo golpe de Estado e pela irracionalidade da paixão religiosa.


O exemplo disso foi o recente golpe de estado na Bolívia, contra o presidente Evo Morales. Durante a sua presidência, a pobreza extrema na Bolívia foi reduzida de 36,7% para 16,8% entre 2005 e 2015. O Coeficiente de Gini,, utilizado para medir a desigualdade de rendimentos em que 1 significa que só uma pessoa tem todo o rendimento, e 0 significa igualdade absoluta de rendimentos, desceu de 0,60 para 0,47.Em 1990, apenas 17% da população adulta era  alfabetizada. Em 2015  o índice de alfabetização entre a população era de 93%, e  entre a população dos 6 aos 19 anos que tinha a escolaridade básica era de 96%.


Estes excelentes resultados foram alcançados porque o governo de Evo Morales lançou impostos sobre as empresas que exploram hidrocarbonetos, e utilizou esses impostos para diminuir a pobreza e aumentar os níveis de educação e de saúde.


Por outro lado, tentou implantar um estado laico e lançar impostos sobre os rendimentos das congregações religiosas, o que teve a oposição frontal e o início duma conspiração levada a cabo pelos evangélicos, sob a batuta dos Estados Unidos e das companhias americanas que exploram os hidrocarbonetos na Bolívia. Contra a intenção de taxar as congregações religiosas, manifestaram-se os pastores evangélicos bolivianos, argumentando que a sua religião não era um negócio mas uma fé. Porém, a sua riqueza tantas vezes escandalosa, mostra o contrário.
A nova presidente Boliviana, é uma mandarete imposta pelos EUA  à revelia da Constituição  da Bolívia, que é claríssima no seu artigo 169º ao estabelecer que na falta do Presidente ou do vice-presidente, ocuparão, sucessivamente o lugar de Presidente o Presidente do Senado ou o Presidente da Câmara dos Deputados. A nova presidente, uma evangélica que jurou sobre a Bíblia num estado constitucionalmente laico, era apenas vice-presidente do senado.
Mas a constituição e a lei nunca interessaram aos fascistas.


É mais um sinal de preocupação para quem ama a liberdade que surge na América Latina depois de Bolsonaro, no Brasil. E não tenhamos dúvidas: os EUA de Trump e as grandes companhias americanas que levam a cabo a extorsão da riqueza em tantos países, vão comportar-se cada vez mais como um cão raivoso à medida que o seu poder no mundo vai diminuindo, impondo golpes de Estado tal como eram feitos nos anos 60 e 70 do século passado.

 

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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