ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Adrian’dos Delima


Poemas II    

APARÊNCIAS

 

produzir
um texto para o bem
pode parecer um mal
para uns
neste binômio que se estabeleceu
afinal
quantas torpezas
já foram feitas em nome
de um objetivo nobre
e
além de tudo
muitos querem mesmo uma
sangueira
balas bombardeios possivelmente
contra marielles
povoamentos
de pretos quase pretos
brancos despossuídos
produzir um texto
para o bem destes
pode parecer defender apenas o
melhor para o bandido
tecer palavras
para o bem de todos
incluindo
os que têm nada
ou quase isso
para os provavelmente ricos
pode parecer uma fala do atraso
do tempo pretérito
em que os pobres falantes
requeriam
dispendiosos direitos

 

quando é que todo cego
vai ver além das aparências
e parecer amigo do povo
aos olhos dos que só querem
dar a césar o que é de césar
à grande massa o pouco que aos poucos tomam

 

13 10 2019

 

 

 

 

 

 

DIÁLOGO DE APOSENTADOS NAS CADEIRAS DA FARMÁCIA

 

viu só

 

o outro anterior queria colocar 1.012 o mínimo
esse outro de agora tirou
17 reais
não dá um quilo de carne
mas parece que agora vai a 1.040se fosse o Lula dava 1.100
não se fosse o Lula dava 1.200
não
se fosse o Lula dava mais
o Lula foi quem mais deu
o Lula e o Sarney
o Lula deu mais
é
no tempo do Lula aumentava mais
é
é sim
é mesmo

 

11.09.2019

 

 

 

 

 

 

FLUXO DE REALIDADE

 

os aviões já estão voando
acabou a hora de dormir
saio na porta dos fundos para estender roupa
sinto um cheiro de fumaça que acho estranho
não ser de carro sim de madeira queimada
escuto um barulho na porta da frente
e saio novamente
vejo um homem com a porta do carro
aberta pra calçada
e o chão cheio de sacos plásticos
papéis de propaganda e higiênicos
espalhados
respiro
junto tudo com a mão dentro de
uma sacola de supermercado
mostrando irritação no olhar que dirijo
pro motorista estacionado
assim começamos a manhã
e volto pra casa
ligo o notebook que está bichado
teleguiado invadido
por pessoas do lado do mal
que não me venham dizer
que não há essa simples dualidade
um lado do bem e o outro
neste caso sei quem faz maldade
e quem é a vítima só sabe rezar
pro computador funcionar
e pouco devolve o ato
inclusive em pensamentos e palavras
estou tão perseguido
que parece haver algum serviço
de inteligência burra
nos meus calcanhares
me apagando os passos
no meu caminho
soqueando os meus olhos
pra que eu não possa ver
nenhum horizonte longe
tomo tanta porrada
que em alguns momentos
me sinto anestesiado
me deixo levar pras cordas
pelos jabes do adversário
nem sinto
nem reclamo igual Fernando Pessoa
que só via os amigos ilesos
e campeões em tudo
respiro
mas quando vou ligar o note
e ele dá tanto problema técnico
fico meio apavorado
e só não fico deprimido
porque rezo muito escrevo poemas
e tomo muito medicamento
pra alegria da indústria farmacêutica
também fico um pouco brabo
como fiquei com o motorista
suspeito de espalhar o lixo
pela minha calçada
e que já incluo como suspeito
de participar do complô contra mim que
desconheço o alcance
e cujos motivos não devem ter
toda essa importância pra quem
me ataca o tempo todo
fazendo disso só mais um ato
de guerra perdoado
como se tudo que se faz
em estado bélico não fosse
mais um crime
que se não é julgado por
nenhum tribunal neste mundo
será julgado desde o início por deus
ou uma outro ser ou coisa maior
com atributos de divindade

 

24 06 2019

 

 

 

 

 

 

AGLOMERAÇÕES

 

Mais uma cidade

 

Mais uma cidade

 

Por todo lugar que percorro
há sinais de humanidade

 

passos
placas
lâmpadas

 

De quantos aglomerados precisaremos
para manter nossas vidas

 

Nossas rotinas vingam
neste monte de luzes acesas

 

vingam nas trilhas

 

As estradas de todo tamanho levam sempre
ao inferno

 

As cidades no verão o asfalto esquenta feito
frigideira

 

Elas no inverno
a fumaça e o barulho de sempre

 

O ano inteiro
em qualquer acampamento
há que se comerciar com o convívio entre pares

 

04-06 01 2019

 

 

 

 

 

 

DIÁBOLOS DIÁBOLON

 

do grego
o que dá temor
o que desune
caluniador
assim são todos
os cúmplices de Steve Bannon
em torno do mundo
resolvendo
as coisas na base
de interesses econômicos
de redes globos
redes sociais
aplicativos de mensagem
o diabo fazem são o diabo
de muitos corpos
e uma só face
a criar medo do inócuo do benéfico
a dividir para um e outro lado
os que são do mesmo lado
a produzir fatos e perfis cuja notícia
se espalha por todas as tribos
na velocidade do fogo
queimando um rastilho de pólvora
que explode em milhares
de malefícios por todo lugar povoado
mas
senhores da mentira
despertamos já
muito em breve estaremos livres
dos seus achados

 

16 10 2019

 

 

 

 

 

 

NÃO HÁ SINAL ABERTO PRA MIM

 

não há sinal aberto pra mim
quando não vem carro de lá
vem de ali

 

tenho que correr sobre a faixa de segurança
sou o pedestre
bem que podiam me dar uma chance
como pra todos
que não poluem

 

espero um pouco
espero a minha vez
quando diminuir o trânsito

 

isso é o máximo
de resiliência que consigo ter

 

me deixam tão deprimido com esse sistema que
neste poema
quase caio nas sugestões do teclado e nas
armadilhas do corretor

 

03 05 2019

 

 

 

 

 

 

PRAGAS

 

Estes pinheiros não são daqui
Estes pinheiros estão tomando conta da paisagem
de dois estados do sul do País

 

Demos adeus à mata nativa

 

Temos
algumas palmeiras
muitos eucaliptos também

 

Estrangeiros

 

Nem tudo que vem de fora enriquece

 

Os pinheiros chupam toda a água

 

As lagoas grandes ressecam

 

Os pequenos reservatórios de peixes
que pontilhavam o território
tiveram seu sumidouro
irrigados talvez 
pro lugar das plantações
que primeiro trouxeram
os pinheiros
querendo trazer ouro

 

07 01 2019

 

 

 

 

 

 

CIDADE DO AVIÃO

 

de volta para a cidade do avião
para a cidade me infernizar
para o barulho dos caças
e de todas as peculiaridades sonoras dessa cidade
me deixarem louco
penso em como não é fácil
escrever nenhum poema
e mais ainda
nesta mescla de sons

 

piores lugares para a poesia
existem

 

uma bala perdida uma explosão de bomba
poderão atingir outro

 

mas a mim que os estilhaços
de poluição sonora
atingem a poesia
vem a lembrança de Breton
dizendo nenhum sofrimento é menor
e me lembro de dizer
como são chocantes depois
de uma temporada no paraíso
estes barulhos que me adoecem os poemas

 

21 03 2019

 

 

 

 

 

 

AS PARTÍCULAS DE POLUIÇÃO ME AFETAM

 

as partículas de poluição me afetam
antes fossem as de poesia
no sentido muito corrente
de palavras de perfumaria

 

antes fosse o perfume floral
não esse bafo dos carros que
me atinge as narinas
nem que o pólen das flores
me desse rinite

 

a poluição arde e
quem me dera falar da natureza
não dessa fumaça cinzenta
que me encobre cada pensamento

 

15 08 2018

 

 

 

 

 

 

EM MEMÓRIA DE UM TRABALHADOR ASSASSINADO PELA DITADURA

 

tive um primo
preso e morto
pela ditadura
por isso tenho medo
da volta dos dias escuros
“por engano”
explicaram
e o estamparam
nas capas dos diários
diretamente da foto
da carteira de trabalho
“bandido morto”

 

se este é o conceito
de bandido bom
melhor seria
um funeral coletivo
para os policiais civis
que o exterminaram
como fiquei sabendo
naquela tarde
dos meus cinco inocentes anos

 

“mataram o Piazinho”
meu parentes diziam

 

20 11 2018

 

 

Adrian’dos Delima (Canoas, RS), pseudônimo para Adriano do Carmo Flores de Lima, é poeta, tradutor, teórico de poesia e compositor. Cursou Letras, habilitação Tradução na UFRGS, onde não se graduou em função de dificuldades econômicas. Na década de 1990 publicou poemas em antologias e  fanzines fotocopiados que editou com amigos, além de editar e publicar no jornal  “Falares”, dos estudantes de letras da UFRGS. Seguindo seus estudos como autodidata, posteriormente publicou em revistas de papel e online, como a “Germina”, a “Babel Poética”, “Gente de Palavra”, “InComunidade”, “Sibila”, “Mallarmargens”, “Diversos Afins”, “Subversa”, “Literatura & Fechadura” e outras. Publica, sem muita regularidade, traduções e poemas próprios na sua página Rim&via (partidodoritmo.blogspot.com.br) e no Facebook Adrian’dos Delima.É autor dos livros “Consubstantdjetivos ComUns” (Vidráguas e Gente de Palavra, 2015) , “Flâmula e outros poemas” (Gente de Palavra, 2015) e “O aqui fora olholhante” (Vidráguas, 2017). Traduziu poemas de Joan Brossa para a Revista “Gueto”.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

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Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Novembro de 2019:

Henrique Prior, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, André Balaio, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carlos Pessoa Rosa, Carlos Roberto Santos Araújo, Claudio Portella, Deusa d’África, Eduardo Mileo ; Rolando Revagliatti, entrevista, Fabrício Marques, Henrique Dória, Hermínio Prates, José Arrabal, Keidin Yeneska, Lahissane, Leila Míccolis, Luís Giffoni, Marcelo Frota ; Rita Queiroz, entrevista, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Nilo da Silva Lima, Ramón Peralta, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rubervam du Nascimento, Sérgio Sant’Anna, Suely Bispo, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central', 1946-1947


Paginação:

Nuno Baptista


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