ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Carlos Roberto Santos Araújo


Poemas    

A alegria dos meus olhos

 

A alegria dos meus olhos
Cai sobre as tuas espáduas:
Cresce um silêncio real de manhã jovem
Sonhando estios.

 

Ante os horizontes de águas fervilhantes,
Azul intenso, marinho, índigo blue,
Cresce o cheiro, no ar, de ervas tontas,
Aromas da tua pele.

 

Nesta faixa de areia onde se alastra o mar,
As espumas fervem,
Ao árdego contato
Do corpo que adolesce, glorioso e nu.

 

O teu rosto rubro,
Despido até dos últimos ornatos,
Na moldura da negra cabeleira
Desatada sobre a luz pueril dos ombros.

 

A tua luz de apenas dezessete anos,
A refletir-se, metálica,
Nos teus dentes brancos,
Na franqueza dos olhos,
Na surpresa dos flancos esculpidos
Em carícia e carne:

 

A leveza dos lábios,
A solidez dos rins,
A pele a sorver pelos poros a seiva do verão.

 

 

 

 

 

 

Noturno

 

Eis a noite em que me perco,
Noites diárias, constantes,
Distantes dos calendários,

 

Ei-la que vem dissolvendo
O perfil das minhas formas
No seu avental de linho,

 

Ei-la subindo as escadas
Com seu vulto sobreposto
Nas escuras cartilagens,

 

Quando, o mundo suportando,
Vou-me deixando arrastar
Por estranhas correntezas.

 

Traz suas cargas de vida
Sobre o peito lacerado
Por estrelas traiçoeiras,

 

Traz suas cargas de morte,
Suas grossas enxurradas,
Que deposita em meu peito,

 

Com rituais de espanto,
Que me dispersam em pedaços
Para longe do horizonte,

 

Em confluência de espasmos,
Agonias do meu corpo
Buscando acesso às manhãs.

 

 

 

 

 

 

Poema da Morte

 

A Morte floresce além da meia-noite
Como rosa aberta à luz azul do sono
Onde me encontro coroado de heras
Buscando o absurdo nas formas do amor.

 

A morte, que envolve os homens e os deuses,
E afoga os cães no mais amargo mar,
Desenha-se lentamente nos ângulos da fuga,
Onde caminho em busca de outros mundos.

 

Eu que venho de remotos precipícios
Faço-me em luz no vício de sorrir
E mergulho na vigília do meu canto
Desfazendo-me do mal com as duas mãos.

 

No entanto, claro golpe de asa,
A lâmina de um grito decepa o meu silêncio
E derrama loucos vinhos entre os meus lábios
Para que eu me embriague com a lei do tempo,

 

Pois, curva do adeus acesa sobre os ares
Ou lilases cruzados no silencioso peito,
A rosa refratária emerge das fogueiras
E, entre sorrisos de maldade e cólera,

 

Semeia à meia-noite loucos néctares,
Envenenando pássaros e abelhas,
E abre, às minhas faces, suas pétalas,
Num gesto harmonioso de desejo.

 

 

 

 

 

 

Paredes

 

No meio do mundo,
No meio da vida,
Um homem lutando
Com suas paredes.

 

Batendo-se em vão
Qual pássaro cego
Seus gestos se quebram
No fundo da noite,
Da noite profunda.

 

E, grave, caindo
Sobre seus joelhos,
Procura através
De suas janelas,
De suas passagens
Sangrentas, secretas,
Buscar o apoio
Frágil e evanescente,
Buscar consistência
No cerne do vácuo
Que o sustenta.

 

Porém tateando
Seu rosto, seu peito,
Ele sente em si mesmo
Seu próprio bloqueio.

 

Descobre que o homem
É casa fechada
A ferros e chaves.
Como abrir as portas,
Gementes janelas,
Porões, claraboias,
Para ver a luz
Que ao mundo revele
Seus fundos vazios?

 

Como abrir o peito
E dele arrancar,
Manchado de sangue,
Um resto de riso
Na carne em pedaços?
Vencendo a fraqueza
Do seu próprio braço?

 

“O silêncio responde
Quem cala consente”.

 

E por luas e luas,
A noite se cala,
Como caracol,
Contemplando aquele
Que tenta romper
A casca, o invólucro
Que o prende, invisível

 

 

 

 

 

 

Poema

 

Meu desejo rasgaria tua blusa
Se as manhãs fossem negras como a noite.
Corpo exposto rolaria pelo chão
Agasalhado no impudor da minha ânsia.

 

E haveria dor e grito no amanhecer
Não brilhassem, além da névoa, sobre os olhos,
As estrelas de Deus.

 

 

 

 

 

 

Canção do amor

 

Teus lábios sabem a pêssego maduro,
Presságios sumarentos, saibro e desafio
À minha fome de loucas mordeduras.

 

És o amor, o perigoso amor, aventureiro
De raízes ao vento, translúcida história
Em novíssimas formas renascida.

 

Contemplo-te o rosto e o ventre,
Dorso e ilharga, e desejo e viajo
Através da memória transparente.

 

E minha língua pousa como pétala
Esbraseada, nudez e cicatriz,
Na tua boca ferida de palavras.

 

 

 

 

 

 

POÉTICA

 

Poesia
É relâmpago azul
Em céu de tempestade.

 

Poeta,
Agarra o relâmpago,
Antes que se apague!

 

 

 

 

 

 

Do teu corpo

 

Do teu corpo que amei nada restou nesta praia,
Nem mesmo a marca dos teus pés no chão:
Os ventos, ciumentos, apagaram,
Do lençol de areia,
A curva do teu seio esponsalício.

 

Depois as águas subiram
Dos fundos abismos,
Espumantes de iodo e cloro,
Brancas de cólera,
E alvejaram de vez
Nossa nudez de cristal.

 

Só restou o irrisório entre o rochedo e o mar.

 

 

 

 

 

 

Beijo italiano

 

Estou triste e procuro a tua boca
E, dentro dela, a máxima nudez
Da tua língua embriagada e louca,
Testemunho de amor que tu me entregas
Quando se calam todas as palavras.

 

 

 

 

 

 

Longe

 

Longe,
Além das montanhas azuis,
No país das máquinas triunfantes,
Lá está o amor,
Perdido para sempre,
Entre relâmpagos de prata
E o trovão trepidante dos motores.

 

Aqui, olhando gaivotas,
Entre o rochedo e o mar,
Perambulo sobre as areias inúteis,
E, como companhia,
Tenho apenas uma sombra oblíqua,
A minha,
Ao cair da tarde.

 

Depois anoitece:
A lua solitária escala
As altíssimas torres do céu
Cheio de nuvens, Iluminando-as.

 

E o vento da noite,
Uivando como o lobo das estepes,
Arrasta as folhas amarelas
Do outono,
E me leva com elas.

 

 

Carlos Roberto Santos Araujo nasceu em Ibirapitanga, região cacaueira da Bahia, Brasil, em 1952. Adolescente, mudou-se, com a família, para São Paulo, onde venceu, em 1970, com a coletânea de poemas Lira dos Dezoito Anos, o Concurso Governador do Estado, Categoria Estímulo, cuja Comissão Julgadora era constituída por Péricles Eugênio da Silva Ramos, Oliveira Ribeiro Neto, e Osmar Pimentel. Formado em Direito, pela tradicional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, do Largo Francisco, advogou em São Paulo e, depois, na Bahia, onde ingressou na Magistratura. Publicou os seguintes livros de poesia: Nave Submersa, 1986, Lira Destemperada, 2003, Sonetos da Luz Matinal, 2004, Viola Ferida, 2006 e Poemas Reunidos, 2010. É desembargador do Tribunal de Justiça da Bahia.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central', 1946-1947


Paginação:

Nuno Baptista


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