ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Carlos Matos Gomes


Velhice e envelhecimento    

No seu livro “A velhice”, publicado em 1970, Simone de Beauvoir considera a velhice um facto cultural e não apenas biológico. “A sociedade fabrica a impotência da velhice, tal qual fabricou a da mulher.” Simone de Beauvoir resume a questão do homem e da vida a partir daquilo que o existencialismo defendia: “Existir é refazer a existência. Viver é a vontade de viver".

 

Os existencialistas são os antepassados dos atuais movimentos ditos alternativos, de raiz individualista e milenarista, de que o partido Livre é o exemplo mais colorido e remexido na atualidade em Portugal. Para estes, como para os adeptos das ideologias de género, é o meio ambiente que determina a essência do ser. Ser velho ou novo, homem ou mulher é fruto de uma dada cultura! As teorias neoliberais assentam no mesmo princípio, é o indivíduo que escolhe o seu papel na sociedade, ser rico ou ser pobre, proprietário ou assalariado são opções culturais!

 

Ora a velhice é um problema social, logo político. O problema da velhice não é só a maneira como o idoso se confronta com a sua decadência biológica, como “escolhe” ser velho, mas principalmente como os outros, como a sociedade se organiza para lidar com a velhice, com os seus membros que se encontram na fase final das suas vidas. Trata-se, pois, de uma questão eminentemente política, como a da educação, do emprego, da habitação, da saúde, do ordenamento do território, entre tantas outras. 

 

O envelhecimento da população nas sociedades industrializadas é um facto, como é um facto o aumento da escolaridade, do consumo de energia, de plásticos, de antibióticos, de anti ansiolíticos, de fraldas, de viagens, da crescente urbanização, entre tantos resultantes dos processos civilizacionais de domínio da natureza pela humanidade. Portugal, segundo os demógrafos, será um dos Estados europeus mais envelhecidos dentro de poucos anos. É um facto político que exige respostas políticas.

 

Quanto a respostas à questão política assistimos, velhos e novos, ao silêncio generalizado dos agentes políticos de todos os quadrantes. Um silêncio encoberto pelos fait-divers comportamentais, mais saia, menos saia. Do ponto de vista político, e até do senso comum, é chocante (mas não surpreendente) a absurda “felicidade” com que tem sido noticiado e assumido pelos atores políticos e fazedores de opinião o facto estatístico de o lote de deputados recentemente eleito ser o de maior diversidade ideológica e o de mais baixa idade média de todas as legislaturas! Sangue novo, como o vinho novo (a água-pé, porque estamos em Novembro) e para todos os gostos. Isto é, enquanto a base eleitoral envelhece, os eleitos rejuvenescem e diversificam propostas de inclusão e de exclusão de minorias!

 

Não deixa de ser paradoxal verificar que, numa época em que as organizações de maior ativismo político e social – os grupos de causas – se batem pelos direitos de minorias étnicas, de género, de orientação sexual, de limitação física, exigem cotas, o grupo mais numeroso, o dos “velhos”, esteja excluído não só da contingentação como da atenção! Nenhum partido apresentou medidas de enquadramento político do facto inelutável do envelhecimento da população! Talvez seja necessário uma velha aparecer nas escadarias da assembleia mascarada de fato de cabedal negro, chicote e saltos altos para uma sessão de sadomasoquismo, e um velho surgir de cigano no lugar do deputado Ventura!

 

O envelhecimento da população é uma questão política de primeira ordem não só para a faixa etária dos idosos, mas para toda a sociedade. O aumento da população idosa diminui o número de contribuintes, aumenta o uso e as despesas dos sistemas de previdência, de saúde e da segurança social. Os sistemas de apoio social tendem para o colapso, mas o que surge destacado como importante é que haja paridade homem e mulher, que a assembleia seja jovem, que contemple grupos e minorias, que seja multicolorida, desafiante de convenções!

 

No capitalismo, o modo de produção dominante, as pessoas são transações económicas dentro de um mercado. Ora o idoso é improdutivo e causador de despesa! Há que alterar esta situação, mas nem a Iniciativa Liberal se lembrou de rentabilizar esse nicho de mercado!

 

O velho também deixa de ter valor como ser político, como ficou claro na eleição desta jovem e radical assembleia. Os seus interesses deixam de ser pertinentes. A experiência de ontem não tem utilidade no presente. Os velhos atrapalham-se com as tecnologias da informação.

 

Não se trata apenas de condenar os velhos a esperar a morte, numa situação social marginalizada, mas ainda de fazer cair sobre eles a responsabilidade pelo colapso da nossa sociedade – peste grisalha, chamou-lhes um deputado eleito!

 

A condenação à inutilidade dos velhos é um problema político. Já na Grécia antiga era. A sociedade, em vez de se organizar para oferecer aos seus membros mais velhos meios para amenizar o seu destino biológico, rechaça-os e atira-os ainda vivos para uma antecâmara da morte, para um futuro póstumo. Como os gregos faziam, abandonando os anciãos nas florestas. É uma questão política.    

 

 

Carlos Matos Gomes

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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Paginação:

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