ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Henrique Dória


MAR REVOLTO    

Comecei a explorar naquele meio de tarde de Verão a ambiguidade do olhar. Depois de não ter conseguido encontrar nada de ambíguo durante quase meia hora – a praia permite-nos esses jogos de inútil paciência- fixei-me sem dar por isso naquela mulher de corpo avantajado  que caminhava junto ao mar sentindo a volúpia do toque das ondas e da espuma nos seus pés. Trazia ao colo um pequeno cão vestido e com uma touca branca na cabeça como usavam os homens no século XVII  quando se deitavam para dormir. Aproximou-se de mim, fugindo a uma onda mais forte, e deixou ver então o que estava debaixo da touca: era, afinal, uma criança que vinha nos seus braços. Mas aquela touca ridícula e aquele modo de segurar a criança apenas com o braço direito, e o outro a cair displicentemente porque estava concentrada na volúpia das ondas, fez-me duvidar se seria grande para ela a distância entre o cão e a criança.


Uns três ou quatro anos depois - ou uns breves instantes, talvez- vi a mesma mulher sentada na praia onde habitualmente eu passava as férias de Verão, enquanto a filha – descobri agora que era uma menina – brincava com um pequeno balde construindo castelos com a areia humedecida pelas ondas. Depois pegava no balde para o encher de água marinha e despejar sobre os castelos, destruindo com enorme alegria o que antes tão diligentemente tinha construído.


A mãe olhava para quem estava à sua volta procurando o que não conseguia encontrar, esquecida da filha. Mas, subitamente, apercebeu-se de que a menina se estava muito perto das ondas e gritou Vânia, Vânia, vem já para aqui. Mas a Vânia nem a ouviu, ou porque estava tão feliz a destruir os castelos, ou porque o ruído do mar era mais alto do que o apelo da mãe. A mãe ergueu-se, subitamente furiosa, e deu-lhe três violentas palmadas no rabo, fazendo com que a pequena Vânia se deitasse sobre a areia, a chorar convulsivamente.

 

E eu vi então, sobre o mar revolto, o triste D. Quixote a ser sovado pelo cabreiro.

 

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Alice Macedo Campos, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Jorge Vicente, Maria Estela Guedes, Maria Toscano, Myrian Naves


Colaboradores de Novembro de 2019:

Henrique Prior, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, André Balaio, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carlos Pessoa Rosa, Carlos Roberto Santos Araújo, Claudio Portella, Deusa d’África, Eduardo Mileo ; Rolando Revagliatti, entrevista, Fabrício Marques, Henrique Dória, Hermínio Prates, José Arrabal, Keidin Yeneska, Lahissane, Leila Míccolis, Luís Giffoni, Marcelo Frota ; Rita Queiroz, entrevista, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Nilo da Silva Lima, Ramón Peralta, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rubervam du Nascimento, Sérgio Sant’Anna, Suely Bispo, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central', 1946-1947


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR