ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Ricardo Alfaya


Anoitecendo com Chet Baker    

Um conto de Ricardo Alfaya, inspirado em fatos reais mas narrado sem revelar as verdadeiras identidades dos personagens, inclusive, a do narrador.  Vale aqui, como sempre, uma advertência lida num ensaio de crítica literária, direcionado a jovens estudantes, a respeito do “Quincas Borba”, de Machado de Assis: “Não confunda o narrador com o escritor.”  Dito isso, vamos aos acontecimentos:

 

         Cadinho era um desses homens nascidos em embalagem econômica.  Com pouco mais de metro e meio de altura, muito magro, de uma brancura pálida, temperamento recluso, exercia a função de contínuo no escritório da gigantesca All Is Business S.A., cuja matriz ficava em Nova Iorque, e que tinha filiais em todo canto do mundo, inclusive, no Rio de Janeiro, onde trabalhavam Cadinho e mais de mil funcionários. 

 

Desse modo discreto, Cadinho ocupava seu pequeno lugar neste imenso mundo.  Não se vestia mal, mas estava longe do elevado padrão dos executivos da empresa, que se esmeravam na concorrência exibicionista de ternos importados ou feitos em alfaiates cujos preços eram impróprios para menores de doze mil reais. 

 

         Com suas modestas credenciais, Cadinho se caracterizava pela invisibilidade. Embora o contínuo ainda fosse bem jovem, as belas (e mesmo as não tão belas) funcionárias do escritório passavam por ele indiferentes. As mais gentis, religiosas ou politizadas às vezes ainda lhe dirigiam um sintético “oi”, um conciso “olá”, um piedoso “bom-dia”.  Porém, nenhuma se arriscava a mais do que isso.  Vai que o ingênuo interpretasse mal, que se achasse desejado...

 

         Não vou mentir, dizendo que meu comportamento para com o rapaz fosse, no início, muito diferente do adotado pelos demais. Afinal, Chefe de Setor, eu não podia pôr em risco o meu prestígio. Ainda mais que eu me esfalfava todo, ficava às vezes até sobrevivendo de salgadinho com refrigerante (o que por pouco não me gerou uma úlcera), para poder também desfilar com meu Armani importado e não ficar “por baixo”.

 

         Também não negarei que, antes de conhecê-lo melhor, sentia um secreto desprezo pelo Cadinho.  Não que eu pensasse muito no contínuo no meu dia a dia.  Pelo contrário, eu nunca gastava um neurônio sequer do meu egocêntrico cérebro para meditar sobre o significado de uma vida que me parecia tão insignificante.  Insignificância essa que já me era sugerida não apenas pela aparência miúda e magérrima timidez do quase translúcido rapaz, mas também, pelo nome sincopado.  Pelo amor de Deus, quem se deixa chamar de “Cadinho”?  Os mais generosos lembrarão que o cadinho, enquanto objeto, é um instrumento milenar, um pote muito usado pelos alquimistas e, posteriormente, pelos químicos. 

 

         - Objeto refratário, suporta altas temperaturas e serve até para a depuração do ouro.  Aliás, motivo pelo qual o cadinho aparece muito como metáfora de superação no kardecismo evolucionista. - Asseverou-me certa vez o professor Alberto Portas, meu vizinho, que já lera a obra completa de Chico Xavier e que também conhecia inúmeros outros volumes da copiosa literatura espírita.

 

         Bom, não posso negar essa origem, digamos, distinta que o termo possui.  Porém, não tem jeito.  Toda vez que ouvia chamarem “Cadinho”, inevitavelmente me soava como a forma sincopada de “pocadinho”, maneira popular de se dizer “poucadinho”.  Ou seja, trata-se de um nome que parecia sublinhar a nulidade que a pessoa de seu portador me sugeria então. 

 

         O mais engraçado é que, descobri depois, “Cadinho” foi o jeito “carinhoso” como a família passou a chamá-lo desde pequeno, embora seu pai – desejando para o descendente uma vida mais promissora do que a tida por ele mesmo – tenha batizado o cândido menino de Ricardo Gusmão de Moreira Sinclair.  Sendo que “Gusmão” não fazia originalmente parte do sobrenome da família.  Fora introduzido pelo pai porque “Gente nobre tem nome grande.” Quanto à escolha de “Ricardo”, ele a explicava assim:
         - Ouvi no rádio que Ricardo I foi um soberano da Inglaterra, reconhecido por sua bravura em combate.  Chamavam-no “Ricardo Coração de Leão”.  Ora, um homem que recebe um nome majestoso, tem tudo para sobressair-se no mundo. - Garantia o pai de Cadinho, seu José, um marceneiro competente, nascido sob o signo de Leão.

 

         Porém, mais tarde alguém revelaria ao sonhador leonino que houve outro rei Ricardo, o terceiro, também na Inglaterra, que sofrera grande derrota e humilhante morte trágica na batalha de Bosworth Field, contra os Tudor.  Em pleno combate, tendo perdido a montaria, termina pisoteado e com o crânio (já sem o elmo) perfurado por múltiplos golpes (de espada, faca e lança) desferidos simultaneamente pelos seus inimigos.  O episódio inspiraria a famosa cena de Shakespeare em “Ricardo III”, peça na qual o rei, desesperado, vendo-se em meio à luta, sem montaria, e em risco de morte iminente, oferece seu reino por um cavalo.

 

         Mas quando batizou o filho, seu José nunca lera uma linha sequer de Shakespeare e tinha, até mesmo, dificuldade em pronunciar corretamente aquele nome complicado.  Também, a internet ainda não existia, e o livro de História Universal que havia em casa era uma dessas sinopses feitas para o Ensino Médio, que nem sequer mencionavam Ricardo III. Assim, tampouco seu José soube que o primeiro sepultamento daquele derrotado rei foi sem nenhuma pompa, e que seus restos mortais mantiveram-se extraviados durante mais de cinco séculos.  Ricardo III, tendo vivido de 1452 a 1485, somente em 2012 teve seus despojos encontrados e identificados; isso, graças à moderna ciência e tecnologia.  E assim, o infortunado rei, cuja duração de vida fora exatamente tão curta quanto a de Cristo (33 anos), foi finalmente enterrado, em 2015, na Catedral de Saint Martin, na cidade de Leicester, Inglaterra.

 

         Porém, seja como for, talvez por inconscientemente temer que o desejo do marido se concretizasse (ou que a vida do filho conhecesse um fim trágico), Dona Leocádia, mãe de Ricardo Gusmão de Moreira Sinclair, empenhou-se em corrigir as altas pretensões do esposo.  Desse modo, espremeu e distorceu as sílabas do supostamente pomposo nome “Ricardo”, até que dele emergisse “Cadinho”, corruptela pela qual  passou a chamar o filho.  As três irmãs do garoto logo adotaram o procedimento da mãe.  E, não demorou muito, toda a parentada, depois a vizinhança e, consequentemente, na escola, apenas se chamava o menino de “Cadinho”.  No começo, seu José tentou ainda consertar, falou com Leocádia, censurou as filhas, mas não houve jeito.  Para sua imensa tristeza, o futuro de seu filho estava selado.  Seria o invisível Cadinho, e nada mais.

 

         Porém, talvez eu nunca viesse a saber desses curiosos episódios, se não fosse a Genoveva.  Explico-me.  Genoveva, minha irmã, resolveu colaborar com o marido nas despesas da casa.  Desse modo, montou um “blog” e, nele, anunciou-se como retratista.  De fato, ela desenha muito bem, sendo a figura humana o seu forte.  Ela fez também uns cartões de apresentação e me pediu que distribuísse entre os conhecidos.  Levei para o escritório e fui espalhando a novidade.  Antecedia a entrega do cartão de alguns comentários a respeito do trabalho dela.  Mostrava, pelo celular, o “blog”    onde minha irmã expunha retratos de várias personalidades famosas, desenhados por ela, a partir de fotografias de origens diversas. 

 

Naturalmente, não me preocupei em falar do assunto para Cadinho. Afinal, além de o rapaz ganhar somente um “pocadinho”, Artes Plásticas, certamente, não devia fazer parte do universo a que ele pertencia.  No entanto, ao cuidar do assunto com os demais, também não cheguei ao ponto de evitar que o contínuo ouvisse meus comentários sobre as qualidades da arte de Genoveva.  Afinal, Cadinho mostrava ser dessas pessoas que realmente conhecem “o seu lugar”.

 

         Por isso, foi com grande surpresa que, no final daquela sexta-feira, eu percebi o rapaz aproximar-se de minha mesa. Indagou com cautela:
         - Poderia falar com o senhor?

 

         Apesar de compreender o motivo da atitude respeitosa, não deixou de causar-me estranheza, sobretudo, aquele formal “senhor”.  Caramba! Há pelo menos dez anos eu convivia, todos os dias, com esse funcionário.  Por outro lado, súbito, percebi que, à exceção de alguns irregulares e concisos cumprimentos, eu nunca me dirigira a ele.  Nem mesmo, por motivo de trabalho, pois a minha seção tinha o privilégio de ter um contínuo próprio, à minha disposição.  Sem me preocupar em esconder o espanto e sem inventar um sorriso para deixar Cadinho mais à vontade, aquiesci:
         - Sim, claro, em que posso ajudá-lo?

 

         - É que eu ouvi o senhor falando do trabalho de sua irmã.  Fui ao “blog”, o senhor tem razão, o traço dela é incrível, original, de uma leveza incomum. E como ela retrata bem as personalidades!

 

         Totalmente fisgado pela surpresa, resolvi adotar um tom mais amigável:
         - Ora, obrigado.  Transmitirei a ela.  Ficará feliz com a sua opinião - Afirmei por último, sem muita convicção.

 

         - Eu queria saber...

 

         - Diga, pode dizer...

 

         - Se a sua irmã faria para mim um retrato do Chet Baker. E quanto custaria...

 

         Agora, fiquei completamente pasmo.  Quem seria Chet Baker?  Eu não tinha a menor ideia.  Talvez algum artista de cinema ou da tevê. Quiçá algum corredor de Fórmula 1...

 

         Liguei meu Google mental, rolei todos os nomes de que me conseguia lembrar.  Bolas, se Chet Baker fosse alguém minimamente significativo, ficaria muito mal para minha pessoa confessar a um contínuo que não sabia de quem se tratava.  Seria mesmo, humilhante.  Ah, que tentação de consultar um buscador no celular que estava na minha mesa.  Mas, se fizesse isso, Cadinho perceberia, é evidente. 

 

         Como eu demorava a responder, pareceu-me que a magreza pálida de Cadinho tornou-se ainda mais alva.  Talvez ele pensasse que ouviria uma recusa.  Santo Deus, estou longe de ser o melhor dos homens, mas também não sou tão cruel assim.  Derrotado e constrangido, baixei as cartas:
         - Desculpe, quem é Chet Baker?

 

         E só então compreendi que, embora vivesse dizendo por aí ser um amante do “jazz” (dá “status”) eu, na verdade, não conhecia nada.  Cadinho, muito pelo contrário, sabia tudo.  Citou toda a discografia do trompetista e vocalista norte-americano, as condições misteriosas de sua morte: a queda, aos 58 anos, da janela de um hotel em Amsterdã, em 1988. Acidente, homicídio ou suicídio?  Aliás, uma queda estranhamente ocorrida num dia 13 de maio, dia em que, aqui, se comemora a Abolição da Escravatura, fato histórico que se deu há exatamente 100 anos atrás, em relação à data do falecimento do trompetista: 1988-1888.  Cadinho disse ainda do problema do músico com as drogas. Falou nas vindas dele ao Brasil; na influência de seu modo de cantar na interpretação desenvolvida por João Gilberto; mencionou o CD gravado em Roma e em São Paulo com o excelente tecladista e compositor brasileiro Rique Pantoja, entre 1984 e 1987. Por fim, fez apropriados comentários sobre a equilibrada expressão das “performances” de Chet Baker, artista que sempre investiu mais na exibição de uma emoção intensa, porém contida, do que nos excessos de virtuosismo. De quebra, falou de inúmeros outros mestres do “jazz”, como John Coltrane, Stan Getz e Miles Davis, artistas por quem nutria grande entusiasmo. Lembrou ainda daquela que fora esposa de John Coltrane, uma compositora e musicista do “jazz” que eu então também desconhecia, Alice Coltrane, falecida em 2007.  Alice, que tocava piano, órgão e harpa, desenvolveu um “jazz” meditativo, inspirado no Hinduísmo, revelou-me Cadinho.

 

Naquele instante, eu somente conseguia olhar, um tanto estupefato, para aquela figura clara e frágil à minha frente.  Eu nem sabia bem o que dizer e, só então, notei que ele trazia uma grande pasta de plástico.  Dela retirou, cuidadosamente, vários retratos fotocopiados de álbuns de Chet Baker.  Algumas das fotos pareciam também extraídas de matérias de revistas.

 

         - Eu gostaria de um desenho que o mostrasse como era nos anos 80.  Mais próximo ao da imagem dele quando se foi. Posso deixar essas fotos para sua irmã ter uma ideia. Também posso deixar um sinal...

 

         - O sinal agora não é necessário. Só depois que ela fizer o orçamento.

 

         - Certo.  Agradeço. Então, poderá ser?

 

         Quando disse o “sim, claro”, o rosto do rapaz se iluminou de uma satisfação intensa e sincera.  Habitávamos o anoitecer de uma sexta-feira, não trabalharíamos nem no sábado nem no domingo. Éramos as duas únicas pessoas no escritório, e logo saímos. Descemos pela Rio Branco, coração do Centro da Cidade.  Num impulso, perguntei se ele estava a fim de um chope no Amarelinho.  Um tanto admirado pelo convite, aceitou. 

 

         Nos instalamos numa mesa na calçada, sob o toldo do bar, com vista frontal para o magnífico Teatro Municipal. Falamos muito ainda sobre música, especialmente a respeito do “jazz”.  Depois, dando vazão à minha indiscreta curiosidade mórbida, perguntei-lhe sobre a origem do nome.  Animado pelo chope, ele foi abrindo seu coração e me contando tudo.  Naquele clima de confidência, tomou coragem e revelou-me que ele estava estudando trompete.  Não se sentia pronto ainda  para exibir-se em público; por isso, poucas pessoas sabiam desses estudos. Por fim, depois da terceira tulipa, ele me pareceu um tanto comovido.  Com ar poético, segredou-me:
         - Até agora, somente a arte se entregou a mim e me permitiu amá-la inteiramente, sem qualquer rejeição.

 

        
______
Ricardo Alfaya.

 

Nota: história improvisada sob o som de três CDS: “Candy”, de Chet Baker; “Line for Lyons”, de Stan Getz & Chet Baker (ambos os CDs, gravações de 1990, póstumas, portanto);  e “Rique Pantoja e Chet Baker”, de 1987 (os dois instrumentistas executam seis músicas; todas, da autoria do brasileiro Rique Pantoja; Chet também faz uma excelente participação vocal em uma das canções).  Durante a oitava revisão do conto, ocorreu-me introduzir Alice Coltrane (1937-2007).  Assim, abri o álbum “Lord of Lords”, disponível em um site da internet, e, pelo Youtube, dediquei-me, mais uma vez, ao prazer de uma audição completa de sua extraordinária suíte “Excerpts From The Firebird” (“Trechos de ‘O Pássaro de Fogo’”, a sublime composição para balé de Igor Stravinsky).

 

 

Nota biográfica: Ricardo Alfaya, Rio de Janeiro-RJ. Escritor, revisor e livreiro, com 37 anos de persistência na vida literária.

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Paginação:

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