ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Rubervam du Nascimento


Céu de giz: a voz de Djami Sezostre    

 

 

Acompanho a poesia de Djami Sezostre desde que o conheci em Belo Horizonte, em 1988; autor de uma poesia que me causa o estranhamento que tanto procuro na poética contemporânea; pela radicalidade criativa, pela tensão estética que carregam seus versos, pela carga de energia subversiva que a voz de sua palavra despeja no leitor; poesia que lembra protos identitários/ cuneifórmicos/sinárticos/ hieróglíficos, a escrita kufi dos Tuaregues/nômades, a pedra de Bensafrim/ peninsular/ ibérica, berço da flor do Lácio que roça a língua de Camões, Caetano, E. Melo e Castro, a Itamar Assumpção, Tarso de Melo, Graça Pires, e Rosa Alice Branco: heráldicas/ iluminadas/ iluminuras, anáforas de barro/barroco, onde os construtivistas modernos, concretos, pós-concretos, de instigante herança programática/bem resolvida, beberam e bebem; poesia em exercício de voz e palavra em rito/ancestral/antropofágico devorador de carne e osso, de muitos, de outros, como estratégia de fortalecimento do espírito da voz da palavra, em transe, em trânsito pra transcendência poética; poesia que pra acompanhar a inquietação de sua voz, a desordem de sua palavra, obriga-nos a respirar fundo, a trans-pirar por todos os poros, todos os orifícios, todas as feridas, a saltar da rede armada no alpendre, com os poemas, o livro inteiro, literalmente preso aos dentes; poesia cujo sopro atiça a dor da palavra que não quer mais doer, que deveria doer pra sempre, pra dizer que não perdeu a sensibilidade, que não vai permitir morrer à míngua, única dor capaz de enfrentar o desgaste das coisas envelhecidas em nós, nas lesões que não saram, nas cicatrizes mal cerzidas: a dor de tudo que se nutre da arte e da beleza; poesia que não destrói a casca, não desgasta a poupa do vocábulo, sua matéria-prima por excelência; poesia que aproveita o líquido/sumo de sua substância bruta, extraído com sabedoria, sem desperdício, transforma em substância pura, em substância muito: viva; poesia que além do uso da tela do papel, inventa outros suportes pra cumprir-se: sobe em palco, vai à rua, bares, escolas, a outros espaços que escolhe pra derramar sua saliva, e espalhar o suor do seu ofício; poesia que dança com a palavra e a voz, em cadencia de ritmo, em passos e com/passos de espera, medidos com precisão absoluta; poesia que pede passagem a diversos significados, abre caminho a outros sentidos, constrói “Girassóis no umbigo de pedra”, na “Vertente do Sol”, na “Faina do Passado Ausente”, no presente, disposto a ser passado: a limpo, pela voz do tempo da palavra em movimento; poesia que aprendeu a não ser só: forma, sobre/tudo: linguagem, ao som de cismo, de silvo, de sino, de sins, de nãos, de notas/rotas marítimas em diálogo de búzio, com areias tomadas pela distância, em harmonia musical de  marés de sal, de água, de vento em mistério de redemoinho; poesia de fios mágicos, tecidos com maestria, sem pressa de iniciante: exemplar artesania; poesia elaborada por um poeta que sabe que a poesia é “obra de arte, entre as vertentes da literatura, a mais difícil das artes”(Valéry); poesia contrária ao discurso de sintaxe pobre/rude/deplorável, que asfixia a quem dela se aproxima, de quem não foge da espiral de fumaça da “Mula das Topatrolas” da “Ralé dos Lhascadus”, do “Balé do Boi de Fole”, do “Alecrim da Besta”, da “Mula do Burro”, dos “Pirãpus dos Infernos”; poesia/signo/fruto oblongo, quase esférico, Solanum gilo, do solário antigo, de hoje: conjunto de plantios/cultivos de Solanum aethiopicun, que a constituiu, a partir da terra-mãe (África), onde tudo: mais começou, espalhou-se em mistério de tempo e poesia, ampliou-se no “tempo alcançado sobre o tempo”(Haroldo de Campos); poesia vertigem lúdica, em imagem de voz de palavra, girando a 360º em volta de novas combinações sintáticas, novos acertos semânticos, novas pegadas poéticas; poesia que transporta gozo às entranhas da palavra, onde ganha força o fogo da voz purificadora da própria palavra; poesia que desperta sensações visuais, auditivas, tactivas, no cansaço da voz da palavra adormecida, apagadas no arco-íris da escrita, com escassez de brilho, sem alumbramento de coriscos, sem tempestade de facas; poesia que semeia silêncio de criança, nos caroços de farinha d’água, na roça de brincadeira, no Estreito dos Mosquitos, de cujos grãos nascia apenas capim “brabo”, pra encher barriga de cavalo de talo de pindova; poesia com inventário de pronúncia de “menino verde”, menino nu, “menino de sua mãe”,” menino Ele”, o mais velho, o mais novo: “Rudá”,“o menino mio”,“Oirmão”, a filha Jade “de saudadedada”, de “desaudadejade”, no “Solo de Colibri”(1997), no negrume do estrume do “Anu” (2001), nos “Arranjos de pássaros e flores” (2002), entre “Estilhaços no Lago de Púrpura” (2006), n’“O pênis do Espírito Santo” (2018), em outras páginas, em outros: livros; poesia em diálogo permanente com a voz da palavra, no alvo aceito, no alvo de acerto, no alvo certo, no alvo/ovo/óvulo: girino atravessando o túnel pra chegar ao ventre/pântano da floresta húmida onde se re/produz em poesia: “cila era de clímax”, clima de clímax, “Sphinx Phoenix”, em cópula com o míssil fino/grosso, de “ispinhos”, de “cabeça de cobra”, soltando gemidos, potencializando gritos, de voz de palavra em rebeldia: repetido gênesis; poesia que parece intricada, incompreensível, mas no fundo é: resumo de tudo, feito de voz de palavra: “Mostarda do Ventre da Mula”, “Trovação do Repique da Gruta”, “jogo de xadrez”, “crepsida” medindo quantidade de sal nas lágrimas, de suor nas rugas, no rosto de “Mulheres carpideiras”, no útero de “pássaras”, no bico da “abelha, a flor na colméia Açucar”, que ousa produzir néctar, procriar em velório de estação ressequida, em blocos de solo rachados, em brechas de montes e vales, em covas abertas pelo trote malvado/destruidor, do “cãocavalo...”, do “cão do Diabutortu”, do “ômn dos Nãocavalos”, dos “Nãocachorros” a esmo/mesmo que o chão dos bichos, que a pele deles, estejam “rasgados de pedras”; poesia que se segura em pé, na prateleira, sobre a mesa, à beira da rede: “penitência”, “o menino insigo”,”nossa senhora da escuridão das onze mil virgens”, ”aeiou”,“wD”; poesia que em resgate de memória, descobriu que “escrever é ter paixão da origem”(Edmund Jabes), é expressar ao máximo o estilo, em “ziquezague”, em pronúncias amalgamadas com raízes primitivas/fundantes: “Aicannâs”, “CintÇaslargyas”,”Cacuriris”, ”macuchi-kapom”, “Jê purijipu latundê javlizis...”; poesia que re/conta/recorta uma lenda, uma quase fábula: “Era uma vez”: “quimera crudelíssima’, em escalas sonoras, amplitudes de tinos e timbres, re/elabora co/relações de vozes de palavras aparentemente perdidas, entre versos: gene/gente, brejo/beijo, foice/ceifa, jade/sabe, e por aí: vai/pai; poesia em experimento de “pirilâpo” na voz da palavra, rasgando a couraça do verbo que dificulta a explosão da noite na palavra, que não carrega mais luz, não ilumina mais nada, guarda-se pra sempre no caroço do escuro da voz que secou; poesia que nos faz acreditar que ao final do espanto da voz da palavra em teste de lance de laço, de lince livre, de jogo de dados, consegue, como poucos, a realização pretendida: “Lince do Bicho da Seda”, “Cavaira do Lince da Lontra”, ”Céu de Gis”, em curso na branca geometria, no papel da  voz da palavra; poesia que continuará, pra sempre, a provocar-me, com o alarido encantatório do cântico do seu “sabiádamanhã, bentividatarde, beijaflordanoite”; poesia pra leitores de olhos acesos, não apenas no rosto, nas costas, na nuca, onde menos se cogita acender-se um olho, mas que existe sim, disposto a observar a voz da palavra, com olhar incendiado, sem diminuição de sopro de fôlego/sôfrego, da poesia que diz: a que veio: pra ficar; poesia que ao final de  leitura, ficou comigo, a olhar da mureta da varanda, não sei bem pra onde, quem sabe pra muito longe, a uma antiga rua de Paris, apinhada de gente, Tristão Corbière a passeio, roupa de gala, puxando um porco; ó destino de voz de palavra, como será recebida esta poesia, tão poesia, tão minha, tão dele, tão de Djami Sezostre? Será lida como deve ser: lida, re/lida como deve ser: sentida, como deve ser: vivida, anotada como anotei, no papel, em fragmentos, aos saltos, propositalmente extasiado, pelo viés mais louco/lúcido do imaginário transgressor de “Óbvio Oblongo”. Só outro leitor dirá.

 

 

Rubervam Du Nascimento, nasceu na Ilha Upaon-Açu, Maranhão, viveu por 45 anos em Teresina/PI. Atualmente reside em Santo André/SP. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais; professor de literatura e língua portuguesa. Participa de Feiras e Seminários Literários, apresentando, desde 2010, a Leitura Poética: O Prazer da Língua: diálogo da poesia moçambicana, com autores do estado ou país onde é apresentada. Inaugurada em Maputo/Moçambique, em agosto de 2011, já foi levada a vários estados brasileiros e ao exterior, a citar, dentre outras: Salvador/BA, Camboriú/SC. Teresina/PI, São Paulo/SP, Poços de Caldas/MG (FLIPOÇOS-2017), Montevidéo/Uruguai; Caracas/Venezuela. Livros individuais: A Profissão dos Peixes-2ª edição,revista e diminuída (1993); Marco-Lusbel desce ao inferno- 1º lugar Premio Editora Blocos/RJ; (1977); Os Cavalos de Dom Ruffato –Premio “Cidade do Recife” (2005); Espólio-Premio Livraria Asabeça-Editora Scortecci (2008)- 7ª edição (2017), e a plaquete de poemas: Dandaras-Editora Sangre/MG.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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Colaboradores de Novembro de 2019:

Henrique Prior, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, André Balaio, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carlos Pessoa Rosa, Carlos Roberto Santos Araújo, Claudio Portella, Deusa d’África, Eduardo Mileo ; Rolando Revagliatti, entrevista, Fabrício Marques, Henrique Dória, Hermínio Prates, José Arrabal, Keidin Yeneska, Lahissane, Leila Míccolis, Luís Giffoni, Marcelo Frota ; Rita Queiroz, entrevista, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Nilo da Silva Lima, Ramón Peralta, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rubervam du Nascimento, Sérgio Sant’Anna, Suely Bispo, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central', 1946-1947


Paginação:

Nuno Baptista


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