ANO 6 Edição 86 - Novembro 2019 INÍCIO contactos

Alexandra Vieira de Almeida


O estágio dionisíaco do ser em O sul de lugar nenhum, de Marcelo Frota    

Marcelo Frota, no seu livro de poemas, O sul de lugar nenhum (Penalux, 2019), revela-se na ótica de uma longa linhagem de poetas malditos, que fogem às regras da sociedade a partir da revolução e dos vícios que são sacralizados, reunindo o sagrado e o profano. Seus versos são dionisíacos, mostrando-nos os aspectos noturnos e abissais dos seres que se adensam na bebida, no fumo e no sexo que são vistos sem pudor. Como se ao sul, dentro de uma simbologia exótica, se referisse a este estágio de liberdade e convulsão corporal. Arthur Rimbaud, um dos poetas proscritos, disse: “O poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e refletido desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sentimento, de loucura; ele procura nele mesmo, ele esgota nele todos os venenos, para só guardar as quintessências”.

 

O livro é dividido em cinco partes, tendo um poema como preâmbulo com o mesmo título da obra aqui em questão. Esse poema se fecha em círculo com a última e quinta parte do livro, “Finale”, cujo único poema que a compõe retoma o título do livro com uma diferença que dá todo o sentido ao seu significado feérico e onírico: “O sonhar ao sul (de lugar nenhum)”. Esse não lugar é o espaço do dionisíaco na vida dos seres, que acendem a tocha, a clareira em meio à noite de uma floresta urbana e petrificada pelas vozes e pelos silêncios ao mesmo tempo. É constante essa imagem no seu livro de reunir, numa mesma metáfora paradoxal, o pleno e o vazio, o transbordante do dionisismo e a retenção dos líquidos de um rio caudaloso no esvaziamento da luz que cega os sentidos para o transporte a um estágio em um mundo de sombras e escuridão: “Adentro a noite nua de estrelas/Um pouco de uísque entorpece/O corpo fatigado pela guerra/Um amor quente e um campo/De batalhas/Do que mais/Precisa um homem”.

 

São constantes as referências às suas paixões descritas na orelha do livro: a literatura, a música e o cinema. Há uma parte no livro só dedicada aos grandes nomes da música internacional e nacional, como David Bowie e Renato Russo entre outros. A música e o silêncio, dois símbolos opostos se casam numa unidade perfeita, revelando-nos a própria ambiguidade do literário que é feito de vazio e preenchimento. A potencialidade das palavras cavalga as páginas brancas do nonsense e do caos, dando-lhes rédeas ao que é desnorteante: “Na louca hipnose rítmica...” A loucura, o amor, o desamor, a vida e a morte, grandes temas universais, ganham singularidade na pena afiada e cortante de Frota.

 

A beberagem poética, os ébrios de amor estão presentes nesse livro magistral de Frota, com uma sexualidade rompante que corta as veias do real com suas imagens inebriantes. Para o grande pensador Bachelard, na sua Psicanálise do fogo, o álcool “é a água de fogo, a água que arde”, reunindo os elementos da natureza. Como elementos tão contrários se encontram presentes na obra de Frota, ou seja, a luz e a escuridão, o sol e a lua, o dia e a noite? Existências múltiplas se casam, mostrando uma pluralidade simbólica em seu livro, que atinge um semantismo uno que se quebra, de forma experimental e revolucionária, nos cortes abruptos de seus versos que revelam o poder de um vulcão em constante ebulição: “Bebo algumas cervejas argentinas/Enquanto as estrelas me acompanham na noite”. Aqui, Frota reúne o intelecto à sensibilidade de um poeta maior, a razão e as sensações estão juntas num mesmo abraço lapidar. Temos em seus versos longos e extensos, paradoxalmente, uma linguagem ágil e vertiginosa a assombrar o lado frenético da experiência humana. Frota tem a difícil proeza de reunir o vício ao lirismo mais sutil da beleza, dando sutileza ao que nos pareceria repugnante. Do abjeto sentimos o perfume de uma flor delicada. Isso, só os grandes poetas conseguem, como um escritor do porte de Marcelo Frota.

 

Num dos poemas, apesar do desespero, da morte, da partida, das ideias suicidas e dos vícios, o poeta tem uma fortaleza que é a família. Marcelo Frota nada lindamente nas águas do caos, trazendo-nos o alento e a esperança no sangue, no nome e no sobrenome que os familiares carregam. O alicerce em meio ao aspecto noturno e inebriante é um conforto para um ser que busca ultrapassar as fronteiras da loucura dionisíaca. Sua linguagem árida e impactante é suavizada pela beleza de versos extremamente líricos que ultrapassam os escudos do peso e da sordidez. Vemos isso perfeitamente em “Aridez”: “A árida melodia suave”. O deserto e o oásis das palavras encantam os leitores ávidos que são pelas expectativas das horas que sobrevoam o que se tece pela voz das metáforas que conseguem unir num mesmo labirinto urbano um jogo de duplos, gêmeos que se parecem e diferenciam pela semiótica do silêncio. Temos em seu livro a força paradoxal do prazer e da dor, lição aprendida com Freud, a partir de Eros e Thánatos.

 

O aspecto noturno de sua obra é iluminado pelos raios de sol de seus versos belos e originais. Ele também fala da solidão, da ausência, um esvaziamento. É preciso esvaziar os copos cheios para que novos sentidos sejam submersos na aridez da vida, que se torna um mar de palavras significativas e necessárias, como são seus versos. Há uma harmonia notívaga com sua melancolia noturna em meio ao desconhecido e ignoto. Assim, o poeta se pergunta: o que virá depois?  As referências a nomes de pessoas reais como na poesia, na música e no cinema, misturam o fato e a ficção. O real e o imaginário são outras dobras que se elevam nos seus versos.

 

Na parte destinada aos ídolos, há uma simbiose, um parelhamento perfeito entre o amado e o amante, o ídolo e o fã. Há um abraço entre a dissonância e a harmonia, revelando-nos o corte abrupto e matrimonial entre as imagens, ora as distanciando, ora as aproximando: Da poesia entre batidas eletrônicas e guitarras/Distorcidas”. No final do poema dedicado a David B., temos (I’m a Blackstar/You’re a Blackstar/I’m a Blackstar)”. Os parênteses delimitam os espaços da afinidade e da relação simbiótica entre o eu e o outro. É necessária a busca da outridade, da vizinhança com outros seres para que a vida faça sentido no sem sentido do mundo que nos cerca. Esse adoçamento da vida em sua delicadeza em meio ao deserto urbano cria música aos ouvidos do ser que traz o relevo e a segurança à solidão, onde existe e sobrevive a expansão e descentramento do eu: “Sou esse mistério amoroso/Uma rosa solitária no coração de Paris”.

 

No seu livro excepcional há a transposição do nervo denso do real para a escrita dos versos cortantes e ao mesmo tempo doces em sua magia linguística. O seu livro balança na corda do equilíbrio e desequilíbrio dos seres. No poema “Escuridão”, a claridade vai iluminando tudo, deixando ver a nudez de uma sociedade moralista:  “Na luz,/são todos hipócritas”. Em “o corpo gelado ou a inocência da morte”, a morte do mundo vai sendo vivificada pela chama da poiesis. A nostalgia de seus versos nos encanta. O silêncio é a morte. A vida é a imensidão de vozes. A palavra e o vazio, a vida e a morte tremulam pelo viés e pelos vãos das palavras. Temos, assim, o silêncio e o ruído, a estaticidade e o movimento dos seres e das coisas, dançando num bailar de signos. Encontramos a nulidade dos sentidos e a busca pelo não sentido das coisas.

 

Outro elemento forte na sua poesia é a presença da natureza. Mas o poeta não representa o exotismo da natureza singular brasileira e sim esta como leitmotiv para a reflexão interior como no Romantismo alemão. Portanto, em Marcelo Frota temos um afogar-se na chama quente das palavras inaugurais que sintetizam a busca do homem pelo sorriso inebriante do cosmos, em que o elemento dionisíaco representa a procura pela expansão do eu e fragmentação do ser em meio ao caos que nos circunda no meio urbano. A sua urdidura poética se faz pelo excesso e alongamento das palavras que prolongam nosso despertar pelas coisas noturnas, mas que são iluminadas pelo sol de Apolo que traduz o sentido do ser em uma semiótica unitária que invade nossos sonhos de encontrar no sul o não lugar, o lugar mesmo de um outro, de uma face dupla que nos acolha e nos tire de uma solidão profundamente melancólica. Que seu livro conquiste cada vez mais leitores interessados que são por belas leituras que nos satisfazem pelo gosto das coisas inventivas e impactantes como essa obra por ora aqui analisada.

 

Link para compra do livro:

 

https://www.editorapenalux.com.br/catalogo-titulo/o-sul-de-lugar-nenhum

 

 

 

A resenhista: Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, resenhista e ensaísta. Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Atualmente é professora da Secretaria de Estado de Educação (RJ) e tutora de ensino superior à distância (UFF). Tem cinco livros de poesia, sendo o mais recente “A serenidade do zero” (Penalux, 2017). Tem poemas traduzidos para vários idiomas.
O autor: Marcelo Frota é professor, tradutor, crítico literário e cinematográfico. Nascido no Rio Grande do Sul em 1979, é um apaixonado por cinema, literatura e música e tem apreço especial pelo jazz e pelo blues, sem deixar de lado o rock clássico e a chanson francesa. Se considera um cinéfilo devoto e apaixonado pelo cinema brasileiro, europeu, americano e latino-americano. No seu coração literário os espaços são ocupados por autores que vão de Shakespeare a Saramago, sem deixar de lado os romances policiais baratos e a poesia marginal. Estreou na literatura com Compilação Poética das Margens.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2019


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Colaboradores de Novembro de 2019:

Henrique Prior, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, Adán Echeverría, Adelto Gonçalves, Adrian’dos Delima, Alexandra Vieira de Almeida, André Balaio, Caio Junqueira Maciel, Carlos Matos Gomes, Carlos Pessoa Rosa, Carlos Roberto Santos Araújo, Claudio Portella, Deusa d’África, Eduardo Mileo ; Rolando Revagliatti, entrevista, Fabrício Marques, Henrique Dória, Hermínio Prates, José Arrabal, Keidin Yeneska, Lahissane, Leila Míccolis, Luís Giffoni, Marcelo Frota ; Rita Queiroz, entrevista, Marinho Lopes, Moisés Cárdenas, Nilo da Silva Lima, Ramón Peralta, Ricardo Alfaya, Ricardo Ramos Filho, Rubervam du Nascimento, Sérgio Sant’Anna, Suely Bispo, Waldo Contreras López, Wélcio de Toledo


Foto de capa:

DIEGO RIVERA, 'Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central', 1946-1947


Paginação:

Nuno Baptista


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